SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

CIêNCIA »

"Invisíveis" para mosquitos

Pesquisadores identificam substâncias presentes na pele humana que inibem a capacidade olfativa dos insetos. O estudo pode levar ao desenvolvimento de repelentes que impedirão os bichos de localizarem as pessoas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 10/09/2013 16:00 / atualizado em 10/09/2013 10:48

Imagine se os pernilongos deixassem de perceber sua presença. Que bom seria nunca mais ouvir o zumbido deles ao pé do ouvido ou simplesmente estar em uma floresta sem ser atacado por esses insetos. A chateação, que pode se transformar em ameaça à saúde, caso o mosquito seja vetor de uma doença, pode estar perto do fim.
Pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e da Universidade de Regensburg, na Alemanha, descobriram que algumas substâncias existentes na pele humana conseguem bloquear o olfato de mosquitos e sua capacidade de perceber a presença de pessoas. A ideia dos cientistas é usar esses ingredientes para fabricar uma nova classe de repelentes, mais eficientes que as atuais.

“Nós estamos explorando uma abordagem diferente, com substâncias que enfraquecem o olfato do mosquito. Se ele não consegue perceber que o jantar está pronto, não sofreremos com seus zumbidos ou suas picadas”, diz ao Correio Ulrich Bernier, cientista do USDA que apresentou os resultados dos experimentos durante o 246º Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química, que ocorre esta semana em Indianápolis, no estado de Indiana.

O grupo trabalha para desenvolver uma composição química que não seria aplicada diretamente na pele, mas borrifada no ambiente. “Repelentes têm sido a principal forma de prevenir picadas de mosquitos. Os produtos à base de DEET são bastante eficientes e vêm sendo usados há muito tempo. No entanto, algumas pessoas não gostam da sensação ou do cheiro deles”, completa Bernier. DEET, ou dietiltoluamida, é a substância mais usada para combater os mosquitos atualmente. O composto interfere nos receptores sensoriais dos insetos e inibe o seu desejo de picar.

“Sangue doce”
 
O cheiro de uma pessoa é resultado de milhares de compostos presentes na pele, muitos vindos do suor ou de bactérias. Durante os estudos, os pesquisadores mapearam cerca 300 dessas substâncias, das quais 20 têm o poder de atrair pernilongos. A maior presença desses componentes — e não o “sangue doce”, como dizem alguns — explica por que algumas pessoas costumam ser mais picadas que outras.

O ácido lático e a amônia são exemplos de substâncias facilmente percebidas pelas sensores dos mosquitos. “Alguns indivíduos produzem essas substâncias mais do que outras. E, no caso dos homens, a presença da testosterona também pode ser responsável pela atração”, conta Tatiana Mingote, mestre em parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que não participou do estudo.

Para identificar quais compostos atraem ou inibem os mosquitos, a equipe estrangeira usou um mecanismo chamado olfatômetro, no qual eles podiam borrifar soluções com diferentes composições químicas e verificar o comportamento de insetos presos no aparelho. Alguns compostos, como o ácido lático, atraiu 90% dos bichos. Outros, no entanto, mostraram-se capazes de deixá-los desorientados e, em alguns casos, incapacitados até mesmo de voar (veja infografia).
“Se você colocar a mão em uma das gaiolas de mosquitos na qual nós tivermos lançado alguns desses inibidores, quase todos eles vão ficar afastados. Nem ao menos perceberão que a mão está lá. Nós chamamos isso de anosmia e hiposmia, que é a falta ou a redução da habilidade de sentir cheiros”, explica Bernier. Foram testados vários compostos, que tiveram de 20% a 90% de eficiência. Entre eles, destaca-se a 1-metilpiperazina.


Doenças

A eficácia de um repelente depende de um trabalho minucioso que inclui achar a composição mais adequada para os vários tipos de uso. “É algo meticuloso. A eficiência muda se as substâncias forem aplicadas na pele ou no ambiente. O resultado depende também da temperatura e da umidade do local”, explica Tatiana Mingote. “É preciso aliar as possibilidades de uso e a eficiência da composição química”, acrescenta a bióloga, doutoranda em ciências.
O novo estudo, ainda em fase de desenvolvimento, pode oferecer repelentes mais eficazes no futuro e ajudar a evitar a poliferação de doenças transmitidas por mosquitos, como a malária e vários tipos de arboviroses. Combinadas, essas enfermidades matam milhões de pessoas no mundo a cada ano.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 40% da população mundial correm o risco de contrair malária, e cerca de 40%, de serem infectadas com o vírus da dengue. “No caso da dengue, temos uma doença de difícil controle do mosquito, sem vacina ou tratamento. Então, o desenvolvimento de um repelente eficaz é muito importante”, avalia Mingote.


Artrópodes

Arboviroses são doenças causadas por arbovírus, que ficam armazenados no corpo de artrópodes. Existem cerca de 500 tipos de arbovírus, que podem causar encefalites virais, dengue, febre amarela e meningite, entre outros males.

Tags:

publicidade

publicidade