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TECNOLOGIA

Leitura garantida

Equipamento criado por pesquisadores da Universidade de São Paulo permite que alunos com problemas de visão leiam, em um monitor, o que está escrito na lousa ou no livro colocado sobre a carteira

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postado em 16/09/2013 16:00

Paulo Lima

Grande dificuldade de enxergar, seja de longe ou de perto, sem alternativas de tratamento. Essas características são atribuídas às pessoas que têm a chamada visão subnormal, disfunção que compromete de forma severa a capacidade de enxergar e faz com que os pacientes vejam apenas até 20% do normal. A boa notícia é que a tecnologia surge como aliada dessas pessoas, fornecendo soluções para minimizar o impacto do problema, especialmente no aprendizado.

Um desses avanços foi desenvolvido pelo pesquisador José Américo Bonatti, da Clínica Oftalmológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O equipamento produzido pelo ele auxilia alunos com visão subnormal em sala de aula. O dispositivo consiste em um conjunto de duas câmeras acopladas a um monitor que permite ao usuário mudar o foco da mesa para a lousa rapidamente.

“Funciona em uma prancha com dois trilhos de alumínio que é disposta na carteira do aluno. Quando ele quer enxergar de perto, só precisa posicionar a câmera sobre o livro ou o caderno, caso queira escrever. Já para ver o que está na lousa, o estudante aperta um botão de controle que muda para a outra câmera. Tudo pode ser visto de forma ampliada no monitor”, descreve Bonatti, acrescentando que o estudante também pode aumentar o tamanho das letras na tela e focar em partes que estejam menos visíveis. A imagem pode ser aumentada até 15 vezes.

O especialista explica que equipamentos similares já tinham sido desenvolvidos, mas sem a mesma eficácia ergonômica. Sócia do projeto, Fernanda Bonatti, doutora em design pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP), se dedicou durante quatro anos para atender as necessidades dos usuários no que diz respeito à postura. “Para evitar que o aluno fique curvado, e isso cause problemas na coluna, a prancha sobre a carteira fica mais próxima da pessoa. E, para modificar a posição do estudante, foram adaptadas hastes embaixo da câmera que podem ser movidas até 45 graus”, detalha.

Inclusão
Segundo ela, o equipamento traz muito mais comodidade a alunos e professores. “Há casos de professores que precisam ficar ao lado do aluno e ler para ele o que está escrito na lousa, ou de estudantes que têm de ir até o quadro e voltar à carteira para copiar a lição. E as duas situações são extremamente cansativas”, aponta.

Outro diferencial deve ser o custo-benefício. “Se, antes, precisávamos importar o equipamento, que custa até R$ 11 mil, agora podemos fabricar no Brasil, com menos da metade do preço”, diz Bonatti, ressaltando que o projeto teve apoio dos programas Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) e de Apoio à Propriedade Intelectual (Papi), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Oftalmologista e especialista em retina do Hospital de Olhos Inob, em Brasília, Edmilson Carvalho considera que a tecnologia é aplicável para quem sofre com a visão subnormal. “Esses auxílios óticos podem ser bastante eficazes para a saúde visual do estudante”, avalia. Segundo ele, inventos tecnológicos têm apresentado boas alternativas para quem tem problemas de visão. “Os novos métodos têm impacto consideráveis na vida do indivíduo. Permitem que eles levem uma vida normal, apesar da deficiência, e isso contribui para uma melhor qualidade de vida. As câmeras que funcionam simultaneamente seguem a ideia de reproduzir em tempo real, em uma tela, o que é vivenciado em sala de aula. E isso, sem dúvida, faz toda a diferença”, completa.

Quanto à possibilidade de o sistema chamar muita atenção dos colegas, causando algum tipo de desconforto emocional no aluno, Américo Bonatti afirma que os benefícios são muito maiores, já que permite a inclusão de crianças e adolescentes com visão subnormal no sistema regular de ensino. O oftalmologista Edmilson Carvalho concorda e diz que cabe à escola ajudar o estudante a ser bem tratado. “É comum que, na escola, os estudantes apelidem com palavras ofensivas os colegas que usam óculos, por exemplo. Mas, com essa tecnologia, pode ser diferente. Ela pode despertar o interesse de outros alunos, inclusive para entender mais acerca da visão subnormal. É claro que se deve ter uma política de inclusão na escola a fim de melhor receber esses alunos”, destaca.

Causas diversas
A visão subnormal é uma disfunção que pode ter origem genética ou ser causada por doenças degenerativas oculares. Acidentes de rotina que afetem a visão também podem desencadear o quadro. Segundo o oftalmologista Edmilson Carvalho, esse tipo de problema pode aparecer em todas as idades, mas tem maior prevalência em adultos com diabetes e degeneração macular relacionada à idade.

Outros produtos
O trabalho de José Américo e Fernanda Bonatti levou à criação da empresa Bonavision, associada ao Núcleo de Empresas e Empreendimentos Tecnológicos Inovadores da Incubadora de Empresas de São Paulo-Cietec/USP-IPEN. Esse é o quarto produto lançado pelo iniciativa. O produto é o quarto lançado. O primeiro, em 2008, foi uma lupa especial para leitura que amplia textos em sete vezes. Em 2009, os pesquisadores da empresa lançaram uma prancha de leitura acoplada à lupa. Em 2011, desenvolveram uma versão eletrônica da prancheta, na qual se basearam para desenvolver o sistema com alternância de câmeras. Mais informações podem ser encontradas no site www.bonavision.com.br.

“Há casos de professores que precisam ficar ao lado do aluno e ler para ele o que está escrito na lousa, ou de estudantes que têm de ir até o quadro e voltar à carteira para copiar a lição. E as duas situações são extremamente cansativas”
Fernanda Bonatti, coautora do projeto
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