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TECNOLOGIA

A ciência contra o crime

Equipamentos buscam tornar o trabalho de policiais e investigadores mais fácil. Novidades apresentadas em congresso realizado em Brasília incluem exames rápidos de DNA, identificadores de substâncias e escâneres que detectam falsificações em minutos

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postado em 18/09/2013 16:00

Roberta Machado

 

Cena de crime recriada no Congresso de Criminalística: máquinas atuais reconhecem quais amostras contêm DNA humano em pouco mais de uma hora  (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 
Cena de crime recriada no Congresso de Criminalística: máquinas atuais reconhecem quais amostras contêm DNA humano em pouco mais de uma hora
Equipamentos supermodernos podem ser levados até o local de investigação no laboratório móvel (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 
Equipamentos supermodernos podem ser levados até o local de investigação no laboratório móvel
Aparelho consegue recuperar arquivos apagados de tablets e computadores (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 
Aparelho consegue recuperar arquivos apagados de tablets e computadores

Em 1887, Sir Arthur Conan Doyle tomou a liberdade da ficção literária para dar a Sherlock Holmes ferramentas que lhe permitissem resolver um crime com a ajuda da ciência. Além do incrível poder de dedução, o melhor detetive de todos os tempos era dotado de inteligência suficiente para criar um reagente químico que apontasse a existência de sangue humano em um tecido. A ideia do escritor britânico acabaria não somente concretizada anos mais tarde como também seria superada pela impressionante evolução da tecnologia forense. Mais de um século depois do nascimento do detetive-cientista, investigadores da vida real contam com equipamentos que superariam facilmente o grande raciocínio lógico de Holmes.
O segredo para a polícia moderna está em sistemas que são capazes de descrever com precisão todo tipo de farsa em documentos, identificar de vítimas ou detectar crimes digitais. São equipamentos que enxergam traços invisíveis a olho humano e até mesmo recuperam evidências que pareciam perdidas. Alguns exemplos dessa tecnologia investigativa são revelados no XXII Congresso Nacional de Criminalística, evento realizado pela Associação Brasiliense de Peritos em Criminalística (ABPC) e que ocorre em Brasília esta semana.

Até domingo, o evento exibe ferramentas que podem solucionar crimes em poucos minutos — algumas vezes, no próprio local da perícia. É o caso do laboratório móvel apresentado pela empresa norte-americana Agilent, que vai até o lugar da investigação. Trata-se de uma pequena coleção de potentes equipamentos que pode ser transportada em um veículo comum.
O espectrômetro de massa, por exemplo, pode identificar a composição de substâncias como combustíveis, entorpecentes, toxinas ou explosivos. Para isso, a máquina usa diferentes interfaces de cristal, como seleneto de zinco ou diamante, que podem ser trocadas como lentes de uma câmera fotográfica. Ela dispara um laser infravermelho e descobre em 30 segundos do que o material é feito. “Você incide a radiação na região do infravermelho e analisa as vibrações entre as moléculas, que vibram de forma diferente. A partir do conjunto dessas vibrações, essa biblioteca é capaz de fazer uma análise multivariada e dar a informação exata de qual substância é”, explica Cíntia Matuyama, gerente de recursos técnicos da empresa.

A química garante que a novidade assegura a integridade das amostras em cenários afastados dos grandes laboratórios, além de diminuir o tempo do processo em até 30%. Também é possível reservar o material para exame em um espectrômetro de metais, que acusa a presença de rastros de balas em amostras recolhidas na cena do crime, ou ainda no equipamento de cromatografia gasosa com detector de massas, uma máquina mais robusta que informa a região de origem do material examinado.

Humano
Outro tipo de evidência que pede urgência laboratorial é a de origem humana: sangue, saliva, sêmen e até mesmo pedaços de pele podem ser fundamentais para apontar a identidade da vítima ou do agressor. Em um assassinato cenográfico, o especialista Paulo Raimann mostra como diversos objetos podem fornecer importantes provas para um caso como esse. Copos, cigarros, preservativos, rastros de sangue e um chiclete servem de pistas não somente do autor do crime como também dos acontecimentos que levaram à morte da personagem fictícia.

A evidência, aponta Raimann, pode ser examinada no próprio local, em pouco mais de uma hora. “Temos regiões do DNA que são usadas para determinados fins. Uma região chamada amelogenina indica o sexo do indivíduo. Por meio desse teste, eu sei qual é o sexo da pessoa de quem determinada mostra foi retirada. As outras duas regiões são não codificantes: só indicam se aquilo é DNA humano”, explica o especialista da Life Technologies. O computador móvel desenvolvido na Inglaterra é capaz de decodificar até quatro amostras ao mesmo tempo, evitando que materiais sem relação com o crime consumam tempo e custos de uma estrutura laboratorial.

De acordo com Joseph Blozis, ex-sargento da Unidade de Cena do Crime (CSU) da polícia de Nova York e pioneiro no uso do DNA como prova nos Estados Unidos, 20% das evidências levadas para exame costumam ser desperdiçadas. “Você pode submeter 10 amostras de DNA, e talvez três sejam valiosas para um perfil de DNA. As outras podem ser negativas, sem DNA presente. Isso cria atrasos nos laboratórios, e pessoas poderiam empenhar esses esforços em amostras verdadeiras”, avalia. Estima-se que cada amostra consuma até US$ 470 e duas horas de trabalho dos especialistas.

Traços invisíveis
Os sofisticados equipamentos de perícia também revelam traços e informações que parecem invisíveis. Em um cheque adulterado, por exemplo, pode ser difícil identificar um caprichado caso de falsificação que altere o valor do documento. Mesmo que a caligrafia usada na fraude seja igual à da pessoa que emitiu o documento, um sistema de imagem hiperespectral descobre o artifício em apenas três minutos. O escâner analisa os espectros de cores não visíveis para identificar diferentes pigmentos usados nas tintas, além da pressão e do ângulo de escrita, que indicam a autoria suspeita.

O equipamento produz até uma centena de fotos sob diferentes filtros e processa as informações para criar uma imagem que mostre a fraude de escrita ou impressão com clareza na tela do computador. “Ele vai do vermelho para o infravermelho em passos bem pequenos. Não vemos isso com nossos olhos, mas o computador usa algoritmos para enxergar esse espectro e mostrar as diferenças que estão ali. Queremos mostrar de uma forma muito simples para que uma pessoa normal possa perceber a diferença”, explica Jeffrey Beckstead, diretor de produto da ChemImage, empresa criadora da tecnologia.

Mas e se, em vez de apenas esconder seus rastros, o criminoso destruir as evidências que o associem ao delito? Mesmo quando as provas parecem perdidas, as mais avançadas máquinas de análise podem revelar os passos do autor com detalhes. O sistema desenvolvido pela empresa israelense Cellebrite encontra na memória de um celular ou de um tablet todos os telefonemas, as mensagens, os e-mails e as fotos que passaram pelo equipamento — mesmo depois que o dono tiver apagado todo o conteúdo.

“Celulares, tablets e máquinas fotográficas utilizam memória flash, um armazenamento que tem espaços para a informação em sequência. Quando você apaga algo, o aparelho avisa que aquele espaço está disponível para gravação. Mas a informação não é deletada daquele espaço. Ele continua gravando até o fim da memória. Quando acaba, ele volta para o primeiro bit e começa a procurar os espaços disponíveis”, explica Nicolas Wernicke, gerente de vendas da Cellebrite. Para que um usuário consiga substituir as informações gravadas em um aparelho de 8GB ou 16GB, é necessário bastante tempo.

O equipamento de análise forense cria um espelho da memória com todos os bits armazenados no dispositivo, mesmo os inativos. O sistema cria um detalhado mapa que mostra onde o suspeito andou com o celular, construído com base nos registros das redes wi-fi, bluetooth e de torres de telefonia. Na tela do equipamento, também é possível construir uma rede que mostre que mensagens foram trocadas entre as pessoas investigadas e quais delas dividem conexões mais frequentes. As informações criptografadas, ressalta Nicolas, também são extraídas e podem ser decifradas por um especialista.

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