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TECNOLOGIA

E-help para disléxicos

Segundo pesquisa da Universidade de Harvard, equipamentos eletrônicos, como tablets e smartphones, podem tornar a leitura mais fácil para pessoas que sofrem com o distúrbio. O efeito se deve à possibilidade de organizar a disposição das linhas e das palavras

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postado em 20/09/2013 16:00

Homem lê em dispositivo eletrônico enquanto espera pelo metrô, nos Estados Unidos: configuração personalizada favorece disléxicos (Brian Snyder/Reuters - 1/4/11) 
Homem lê em dispositivo eletrônico enquanto espera pelo metrô, nos Estados Unidos: configuração personalizada favorece disléxicos
Estudante participa do estudo de Harvard: compreensão facilitada (Randy Goodman/Divulgação) 
Estudante participa do estudo de Harvard: compreensão facilitada

Um dos maiores problemas para quem tem dislexia é a decodificação das letras, o que gera grandes dificuldades na leitura. Porém, a tecnologia pode facilitar a vida de quem sofre com esse problema. Pesquisa realizada por professores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, aponta que essas pessoas podem ter mais facilidade com textos quando eles estão em smartphones e e-readers (leitores de livros digitais como o iPad, o Kobo e o Kindle).

Ao realizar um experimento com adolescentes disléxicos, os cientistas notaram que os jovens faziam a leitura de forma mais fácil quando usavam os aparelhos eletrônicos em vez do papel. Os autores do estudo, publicado esta semana na revista americana Plos One, acreditam que isso ocorre por conta da maneira como a tela dispõe as linhas do texto, que, mais curtas, reduzem o número de interferências.

Matthew Schneps, professor do Departamento de Ciência Educacional da universidade, explica que a principal motivação para realizar o estudo foi uma questão pessoal. “Essa pesquisa surgiu para encontrar uma solução às minhas próprias necessidades. Tenho dislexia, e a leitura é muito difícil para mim”, conta, em entrevista por e-mail. “Busquei todos os tipos de técnica para ‘acessar’ mais facilmente o conteúdo do texto. Quando apareceram os telefones celulares capazes de exibir textos em PDF, comecei a ler artigos científicos e outros materiais usando o aparelho. Fiquei surpreso por ser capaz de ler com mais facilidade. Levou alguns anos para perceber que essa facilidade não poderia ser atribuída só a mim, mas também a pessoas com dislexia em geral”, destaca o principal autor do artigo.

No estudo, Schneps e colegas acompanharam a compreensão e a velocidade de leitura de 100 alunos disléxicos do ensino médio, sempre comparando o desempenho com textos apresentados em papel e em meio eletrônico. Os pesquisadores notaram que, em geral, o entendimento do texto foi mais rápida nos softwares. E o iPod, aparelho com tela menor, proporcionou resultados mais satisfatórios que o tablet.

“Sabe-se que algumas pessoas com dislexia têm dificuldades com a função conhecida como ‘atenção visual’, que é a capacidade de controlar e se concentrar em partes específicas do campo visual. Algumas pessoas com dislexia, mas não todas, são conhecidas por terem dificuldades de fazer isso. A consequência é que elas se distraem com outras partes da frase, letras ou palavras”, explica. “As linhas curtas chamam a atenção para as partes do texto que está sendo lido. Elas eliminam o texto perturbador”, analisa Schneps.

O professor acrescenta que pequenos detalhes, como a disposição das palavras, também são importantes para auxiliar a leitura de quem sofre com a dislexia. “Se as linhas estão muito próximas umas das outras, ou se as letras estão muito juntas, um efeito visual conhecido como crowding (termo em inglês que pode ser traduzido como aglomerado) aumenta a dificuldade de leitura. Portanto, não só deve haver poucas palavras por linha mas as linhas individuais precisam ser afastadas. Adicionar um pouco de espaço entre as letras também pode ajudar”, aconselha.

Leitura ao meio
Para Alice Sumihara, especialista em dislexia e professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, a pesquisa aborda uma das maiores dificuldades encontradas pelos disléxicos, que pode ser abrandada com a ajuda dos eletrônicos, o que beneficia não só pessoas que sofrem com esse problema mas a todos os leitores. “Quando você vai fazer uma leitura, seu globo ocular realiza pequenos movimentos, geralmente chamados de saltos. Quando temos um texto com espaço menor, ocorrem menos saltos e poucas interferências”, destaca Sumihara, que não participou do estudo. “O disléxico, geralmente, pula algumas linhas ao passar para a parte do texto seguinte, ou permanece na mesma linha. É por isso que muitas apostilas de cursinho e provas são divididas ao meio. Isso auxilia a visão e a leitura do texto”, completa.

Ela destaca que aparelhos diversos têm surgido e ajudado quem sofre com a dislexia. “Essas ferramentas facilitam muito a vida dessas pessoas. Temos casos mais graves, de quem não consegue ler mesmo. Para essas pessoas, a tecnologia ajuda muito. Temos livros digitais que suprem a necessidade dessas pessoas, que faz a leitura automaticamente, já que os disléxicos têm problema somente com a leitura, mas a compreensão é feita normalmente.”

Na opinião do professor de ciência da computação da Universidade Católica de Brasília (UCB) Fernando Goulart, a pesquisa aborda pontos positivos dos dispositivos de leitura automáticos. “Acho que o mais interessante de frisar nesse estudo é a possibilidade de adaptação que um software oferece para grupos com necessidades específicas. Seja por aumentar ou diminuir o tamanho da letra, seja por dispor os caracteres de várias maneiras. Esses detalhes fazem diferença para algumas pessoas”, destaca.

Goulart acha que esses recursos podem ajudar no aprendizado. “Antes, eu acreditava que a adoção dessas novas tecnologias dependia da metodologia do professor. No entanto, agora, defendo a utilização desses aparelhos justamente por eles oferecerem essa possibilidade, de ajudar em uma customização necessária a alguns leitores, como mostra esse estudo”, destaca.

Schneps explica que o estudo deve continuar investigando as razões que levam os e-readers ajudarem a leitura de disléxicos. “No momento, estamos fazendo experimentos para testar se a atenção visual é mesmo responsável por esse efeito. Assim, vamos encontrar maneiras de identificar o perfil de pessoa que se beneficiará da leitura em linhas curtas”, antecipa.

 


Confusão
A dislexia é, segundo o Manual Merck de informação médica, um distúrbio específico na leitura que inclui dificuldade na separação das palavras simples, de grupos de palavras e de sílabas. Afeta entre 3% e 5% das crianças e é mais frequente nos meninos. Os primeiros indícios do problema são lentidão ou hesitação para escolher palavras e problemas de memória imediata. Muitas crianças com dislexia confundem letras e palavras semelhantes, e invertem palavras ou sílabas quando escrevem.

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