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TECNOLOGIA

De olho no ozônio

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista criam método simples e barato de medir a concentração do gás em ambientes fechados

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postado em 25/09/2013 16:00

Névoa seca sobre Kuala Lumpur: ozônio só é aparente em espaços abertos (Zainal Abd Halim/Reuters - 12/6/09) 
Névoa seca sobre Kuala Lumpur: ozônio só é aparente em espaços abertos

Importante elemento da atmosfera, responsável por filtrar raios solares nocivos ao homem, o ozônio pode se transformar em vilão quando se concentra perto da superfície e é inalado, em excesso, pelas pessoas. Tóxico, ele pode provocar problemas respiratórios, além de danificar materiais como borracha e corantes. Já existem muitos equipamentos sofisticados que medem a concentração do gás em áreas abertas da cidade, mas há uma carência no mercado de aparelhos simples que possam fazer esse monitoramento em lugares fechados.

Foi pensando em preencher essa lacuna que cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) criaram um método para monitorar a quantidade do ozônio em ambientes internos. “O problema do ozônio na baixa atmosfera é que ele tem sido muito utilizado em produtos domésticos e também para desodorar o ambiente, misturado em águas de piscina e aquários, por exemplo. Notamos que os produtos existentes são poucos e queríamos suprir essa carência no setor”, diz Arnaldo Alves Cardoso, professor do Instituto de Química da universidade e coautor do projeto.

De acordo com o pesquisador, o invento tem a vantagem de ser relativamente barato e muito prático. “Queríamos algo que pudesse ser usado por qualquer pessoa e que custasse menos que os produtos utilizados pelos órgãos que monitoram o ar”, destaca o pesquisador. Enquanto o novo sensor tem um custo de R$ 400, nos modelos eletrônicos esse preço chega a de US$ 10 mil, valor justificado pela complexidade da tecnologia empregada. “A diferença entre os dois aparelhos é que o eletrônico faz as análises e indica a concentração de ozônio em tempo real. O sensor químico, como o que desenvolvemos, relata a concentração média de um determinado dia, após algumas horas de teste”, detalha o professor, ressaltando que o novo sensor não busca substituir os equipamentos eletrônicos para medir o ozônio na atmosfera. “Ele pode ser útil em ambientes fechados ou isolados.”

Funcionamento
O sensor da Unesp funciona baseado na reação do ozônio com o índigo, corante utilizado para tingir de azul tecidos, como o jeans, e alguns produtos alimentícios. Quando essas duas substâncias se encontram, o ozônio se oxida e causa a descoloração do corante. Sabendo dessa reação, os pesquisadores criaram filtros de celulose impregnados com índigo que são inseridos em uma seringa descartável de plástico com etilenoglicol (substância que aumenta a umidade do filtro).

Para realizar a medição, basta aspirar o ar do ambiente para dentro da seringa e deixar que ele reaja com o filtro. Quanto maior for a concentração de ozônio na amostra coletada, mais claro se tornará o pedaço de papel azul. Depois, basta comparar o resultado final com uma escala de cores desenvolvida justamente para esse fim por Gabriel Garcia, aluno de Cardoso. Ou seja, se o papel ficou num tom azul claro, basta procurar na paleta de tons a cor mais próxima para descobrir a concentração de ozônio no ar daquele ambiente.

“Desenvolvi uma tabela de 30 tons de azul, que criei a partir de imagens digitalizadas de filtros que continham índigo. Essa tabela pode ser impressa em impressoras digitais de qualquer tipo. Meu objetivo foi criar um método de determinação de ozônio no ar que não dependesse de energia elétrica nem de estrutura laboratorial para análises químicas, e que fosse simples o suficiente para que mesmo pessoas sem conhecimento químico aprofundado fossem capazes de aplicá-lo”, explica Garcia.

Invisível
Para o professor de agricultura da Universidade de Brasília (UnB) Juan Jose Verdelho, o aparelho pode ser bastante útil, principalmente por ser simples e barato. “A detecção por sensores é de extrema importância, devido ao fato de que o ozônio não é detectável pelo olfato quando se encontra em concentrações menores, mas, mesmo assim, nocivas. O ozônio só é percebido, por seu cheiro de terra molhada, quando sua concentração está muito elevada, já danificando nossa saúde. E ele só se torna visível em grandes espaços, provocando as névoas secas que vemos em metrópoles com muitos carros e centrais elétricas térmicas. Em ambientes fechados, é invisível”, explica o especialista.

O professor de química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Fábio Simonelli concorda que o sensor pode ajudar no monitoramento do gás nocivo. “Precisamos de soluções simples e locais que venham do bom aproveitamento do conhecimento cientifico que é gerado e disseminado por todo mundo”, declara o químico. Ele, contudo, imagina um uso limitado do novo equipamento. “Não vejo tais dispositivos sendo utilizados em nossos lares, mas considero importante esse tipo de medição em locais onde se sabe que existe uma maior produção da substância”, acrescenta.

Arnaldo Cardoso lembra que no Brasil não existe uma regulamentação sobre os limites aceitáveis de ozônio em ambientes fechados — as leis existentes falam apenas das concentrações nas cidades. “Quanto menor o ambiente, maior fica a concentração de ozônio. Precisamos ter cuidado com o ambiente em que vivemos”, destaca o pesquisador. Ele, contudo, frisa que não há motivos para as pessoas ficarem assustadas. “Não queremos que elas se assustem e fiquem preocupadas. Queremos só que tomem cuidado e melhorem as condições do local onde vivem”, destaca.

Juan Jose Verdelho concorda com a necessidade de existir uma regulamentação que se preocupe mais com a qualidade do ar. “Falta informação e consciência sobre esse problema. A aplicação do ozônio foi expandida a operações de limpeza e desinfeção, devido à capacidade do gás de eliminar micro-organismos. Há filtros caseiros de água com ozônio, em piscinas, em empresas de lavagem de roupas industriais etc. Sem saber, estamos expostos, e não há, no Brasil, normas e fiscalização para regular essas emissões”, destaca o professor.

Como próximo passo, a equipe da Unesp, que contou com apoio do Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pretende encontrar parceiros que ajudem a colocar o produto no mercado. “Seguimos em busca de aprimorar o sensor. Queremos que nos ajudem a desenvolvê-lo e comercializá-lo”, declara o pesquisador.
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