TECNOLOGIA

Exame de glicose sem agulhadas

Cientistas alemães desenvolvem técnica que utiliza um feixe de laser para detectar a quantidade de açúcar no sangue. A expectativa é que uma versão portátil do equipamento esteja disponível no mercado em aproximadamente oito anos

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postado em 04/11/2013 16:00 / atualizado em 04/11/2013 11:34

Roberta Machado


Hoje, o controle da glicose é feito em aparelhos que examinam gotas de sangue colocadas em fitas reagentes (Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press - 3/3/10) 
Hoje, o controle da glicose é feito em aparelhos que examinam gotas de sangue colocadas em fitas reagentes


Basta uma picada no dedo para extrair nada mais que uma gota de sangue, rapidamente absorvida pela tira de papel, que reage ao açúcar contido na substância vermelha. O resultado é lido por uma máquina que pode assegurar ao paciente de que está tudo bem ou alertar sobre qualquer desequilíbrio. Comparada a um exame de laboratório — que pede deslocamento, profissionais qualificados e jejum — a glicosimetria é um processo relativamente simples. Mas para os diabéticos que repetem o ritual várias vezes ao dia o teste poderia ser um pouco mais fácil e menos doloroso.

O trabalho de uma equipe de cientistas alemães pode deixar os dias da agulha para trás. Em vez do metal perfurante, um raio de luz indolor acusa em poucos segundos o nível de glicose no sangue de uma pessoa. O dispositivo eletrônico desenvolvido em Frankfurt foi descrito na última edição da publicação especializada Review of Scientific Instruments e tem condições de substituir em poucos anos o procedimento invasivo.

O protótipo, que ainda passa pelas primeiras fases de testes, já apresenta resultados otimistas. Para os criadores da tecnologia, o glicosímetro a laser tem chances de se tornar um aparelho portátil mais barato e eficiente que os leitores atuais. “Estamos bem no meio do projeto. (O aparelho) é melhor que os testes em tiras, mas não tão bom, ao menos ainda, quanto os testes clínicos de laboratório”, compara Werner Mäntele, coordenador do projeto e pesquisador da Johann Wolfgang Goethe-Universität, na Alemanha.

O aparelho usa uma técnica chamada espectroscopia acústica, na qual um feixe de luz induz uma resposta sonora única de determinado material. O modelo criado pelos pesquisadores alemães é equipado com um laser sintonizado na frequência correspondente ao espectro da glicose. “A luz tem diferentes comprimentos de onda. É preciso saber em qual comprimento de onda a amostra responde, em que região do espectro ela absorve”, explica Daniele Toniolo Dias, professora do Laboratório de Propriedades Termo-ópticas (Lapto), da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFP).

Agitadas pelas ondas que atravessam a camada exterior da pele, as moléculas criam ondas ultrassônicas que os pesquisadores alemães chamam de “a doce melodia da glicose”. “Se a amostra absorver o comprimento de onda, ela vai aquecer e transmitir calor para o gás dentro da câmara, no caso o ar. Ele vai esquentando e se expande e contrai, e é isso que gera a onda de pressão dentro da célula, detectada pelo microfone”, descreve a especialista brasileira. A onda de calor, que não é sentida pelo paciente, viaja de volta através da pele e é reconhecida por uma célula fotoacústica, que converte o som em um sinal elétrico por meio de um minúsculo microfone especial (veja infografia acima).

Dias, que não participou do estudo alemão, explica que a técnica é antiga e adotada por laboratórios para detectar a impressão digital dos espectros de todos os tipos de gases, sólidos e líquidos. Em experimentos, as ondas ultrassônicas têm utilidade em áreas variadas, desde a avaliação de cosméticos até a medição da fotossíntese em plantas. A própria pesquisadora trabalha em um projeto de fotoacústica para detectar placas bacterianas em consultórios odontológicos.

Simples
Os autores da nova técnica admitem que a espectroscopia acústica já havia sido considerada para a aferição não invasiva de glicose antes, mas que o método sempre esbarrava em interferências ambientais, como a temperatura ou a umidade do local onde os testes foram realizados. Na verdade, um glicosímetro sem agulhas é um sonho antigo dos diabéticos. “Desde 2003, temos acompanhado essa tentativa de produzir equipamentos que não tenham de fazer rupturas no tecido para mensurar a glicemia. E ouvi mesmo comentários recentes sobre o uso de um laser”, comenta Jane Dullius, coordenadora do Programa de Educação em Diabetes Doce Desafio, da Universidade de Brasília (UnB).

Mudanças no design testado no passado parecem ter chegado a uma solução prática, e a técnica aprimorada já mede o nível de açúcar com uma precisão bastante significativa. Os pesquisadores acreditam que, depois de aperfeiçoado e produzido em larga escala, o procedimento tem condições de ser incorporado a um pequeno aparelho portátil que possa ser usado com mais rapidez e facilidade que as tiras reagentes, inclusive em situações complicadas para o uso de agulhas, como em meio a uma maratona de exercícios.

O exame de glicemia costuma ser realizado nos lugares mais inusitados e em situações muitas vezes pouco confortáveis, pois o nível de açúcar no sangue de um diabético pode oscilar radicalmente em questão de horas. Se não for acompanhado com cuidado, um paciente arrisca sofrer um episódio de hipo ou hiperglicemia, por isso a necessidade do teste caseiro. Jane Dullius estima que um diabético realize o exame de três vezes por semana a até oito vezes diárias. “É bem simples, mas obviamente tem uma mão de obra do procedimento a ser executado. Se apresentassem uma alternativa que seja acessível e tenha uma forma não invasiva de realizar essa medida, isso seria fantástico”, avalia a doutora em ciências da saúde e que também é diabética.

Atualmente, o protótipo do glicosímetro alemão tem o tamanho de uma caixa de sapato e deve ser usado em breve em clínicas e centros de apoio ao diabético. Um grupo de voluntários já trabalha no teste e nas avaliações do aparelho em condições críticas, como durante o uso de medicamentos que poderiam interferir nos resultados. Os pesquisadores estimam que o acessório portátil chegue ao mercado a preços acessíveis em até oito anos. Em um futuro ainda mais distante, a técnica poderia ser adaptada para outros tipos de exames. “É um pouco visionário, mas não é surreal. Com nosso raio infravermelho, já podemos identificar lipídios da pele e acompanhar medicamentos penetrando na pele”, anima-se Werner Mäntele.
 
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