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TECNOLOGIA

Tijolo feito de lodo e lama

Pesquisador da Universidade de São Paulo desenvolve técnica que aproveita resíduos de indústrias e de estações de tratamento para confeccionar cerâmicas

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postado em 06/11/2013 16:00

Antes considerados lixo, o lodo de esgoto e a lama vermelha acabam de ganhar uma função que pode beneficiar a construção civil. Trabalho realizado pelo engenheiro Cristian Camilo Hernández Díaz na Universidade de São Paulo (USP) conseguiu incorporar esses resíduos na produção de cerâmica. A técnica promete ajudar na redução do material poluente que vai para o meio ambiente e ainda baratear a produção de tijolos, telhas e blocos.

Díaz explica que a ideia de desenvolver o estudo durante mestrado na Escola Politécnica da USP surgiu da vontade de acabar com o acúmulo de resíduos. “Há necessidade de reciclar os rejeitos, porque sua produção vem aumentando consideravelmente, e os métodos de disposição tradicionais estão sendo esgotados”, justifica o engenheiro. “Outros trabalhos têm sido feitos com a ideia de usá-los como matéria-prima. Alguns deles são testes em nível industrial”, completa.

O método desenvolvido pelo especialista não altera a forma tradicional de fabricação da cerâmica, mas encontra uma forma de misturar a lama e o lodo à argila com qualidade satisfatória (veja infografia). O lodo utilizado no experimento foi retirado da Estação de Tratamento de Esgoto de Franca, em São Paulo, e a lama vermelha é originária de uma planta industrial localizada no Pará. Esse segundo material resulta de um processo denominado bayer, que serve para produzir a alumina, componente da bauxita, principal minério do alumínio.

A composição dos resíduos também influenciou na escolha para usá-los na pesquisa, explica Díaz: “Ambos têm fases cristalinas e elementos químicos que poderiam ser usados na fabricação de cerâmica vermelha como telhas e tijolos”. O experimento inicial foi bem-sucedido, e as pequenas peças fabricadas para teste passaram na avaliação de propriedades como resistência à flexão, porosidade, absorção de água e contração. No entanto, existe ainda a necessidade de produzir cerâmicas de tamanhos maiores. “O estudo foi feito com corpos de prova que têm dimensões de 60mm X 20mm aproximadamente. O próximo passo seria testar os melhores resultados com as dimensões reais dos produtos e fazer provas em nível semi-industrial”, complementa o engenheiro.

Ele acredita que seu projeto poderá contribuir para que o meio ambiente sofra menos desgaste. “Há duas vantagens importantes na implementação da técnica. A primeira é que a quantidade de lixo se tornaria menor. A segunda é que seria usada menos matéria-prima natural (a argila). Assim, os recursos naturais seriam conservados por um tempo maior”, aponta Díaz. “Embora os produtos feitos com resíduos tenham propriedades tecnológicas inferiores aos produtos feitos só com argila, os valores atingidos por algumas misturas cumprem os parâmetros que são necessários para esse tipo de produto”, acrescenta.

Sustentabilidade
Para o professor do Departamento de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Ernani Costa, a técnica desenvolvida por Díaz só possui vantagens e pode contribuir consideravelmente para a área de construção civil. “ Acredito que iniciativas como essa são mais que louváveis. Esse é um belo exemplo de sustentabilidade”, destaca.

Costa ressalta ainda a economia de argila que o método permite. “Sabemos que a argila não é um bem infinito. Ou seja, ela vai acabar, assim como a água. Por conta disso, trabalhos como esse são importantes. Conseguir substituir essa matéria-prima pode ajudar muito os produtores e o meio ambiente”, avalia.

O especialista também acredita que a economia gerada pode chamar a atenção dos investidores. “Ter economia e também fazer um bem para a preservação da natureza são vantagens para quem lida com esse mercado. O ideal seria que tivéssemos a produção de tijolos também, pois é um dos materiais mais utilizados, e que fazem diferença em uma construção”, acrescenta.

Tendência
José Prilo, presidente da empresa Prilo, é um exemplo de como as soluções sustentáveis encontram cada vez mais espaço. Ele foi um dos primeiros no ramo de construção a utilizar técnicas de reciclagem para produzir cerâmicas — nesse caso, vidro de lâmpadas fluorescentes descartadas. O empresário explica que a ideia rendeu frutos e conseguiu se destacar no mercado. “Fomos até copiados por empresas italianas, que começaram a utilizar o mesmo processo. Vimos isso com muito orgulho, pois acreditamos que fizemos um trabalho de qualidade, que, ao ser reproduzido, pode trazer mais benefícios ao meio ambiente”, diz.

O empresário adianta que dois novos projetos devem surgir futuramente em sua empresa, como foco também no meio ambiente. “Estamos desenvolvendo um piso novo que, em vez de fazer com que a água escorra, absorve líquidos que vão para a terra. Outra iniciativa são grandes placas de cerâmica que, ao serem colocadas em paredes, ajudam na climatização do ambiente, deixando-o mais frio. A ideia pode reduzir o uso de ar-condicionado.”

Na opinião de Prilo, a técnica desenvolvida pelo engenheiro da USP também poderá contribuir para uma produção de matérias voltadas para a preservação ambiental. “É uma iniciativa muito bacana e que tem tudo para dar certo. Acredito que a tendência do mercado é essa. A sustentabilidade já é famosa no meio da construção civil, e mais e mais técnicas podem surgir com esse foco, que é necessário.”
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