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Comunicação canina

Segundo pesquisadores italianos, a forma como um cachorro balança a cauda tem relação com as emoções do animal, e bichos da mesma espécie são capazes de interpretar esses sinais

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postado em 08/11/2013 14:00

 

Não é só alegria: abanar a cauda, um dos mais característicos gestos dos cachorros, pode significar muito mais do que se pensava. Cientistas da Universidade de Trento, na Itália, realizaram um experimento no qual comprovaram que, dependendo do lado para o qual o rabo pende, uma emoção diferente é demonstrada pelos animais. E mais: os outros cães conseguem “entender” a mensagem enviada pelos companheiros de espécie. Os pesquisadores acreditam que, ao decifrar essa comunicação animal, será possível melhorar adestramentos ou consultas veterinárias.

Giorgio Vallortigara, especialista do Centro de Mente da Universidade de Trento e principal autor da pesquisa, explica que ele e sua equipe já tinham percebido, em estudos anteriores, uma diferenciação dos atos caninos. “Em um artigo publicado há seis anos, descobrimos que, quando os cães olham para alguns estímulos, eles têm diferentes respostas emocionais. Ao ver o proprietário, por exemplo, a amplitude do abano da cauda era maior para direita. Já o movimento maior para a esquerda estava relacionado a emoções ruins, como ver outro cão em estado de ameaça”, conta. A reação teria relação com estímulos no cérebro. “A ativação do lado esquerdo do córtex produz um abanar para a direita, e a ativação do lado direito do cérebro produz um efeito oposto”, completa.

Apesar dessa descoberta, o grupo sentiu necessidade de continuar os estudos para entender mais detalhadamente esse comportamento canino, verificando se ele funcionava como uma forma de comunicação. Para isso, eles levaram animais para o laboratório e os colocaram para assistir a vídeos que mostravam cães abanando a cauda de diferentes maneiras. Ao mesmo tempo, monitoravam com aparelhos os sinais vitais dos bichos.

Os resultados, publicados recentemente na revista especializada Current Biology, mostram que ver seus semelhantes movendo o rabo mais para o lado esquerdo provocava uma aceleração dos batimentos cardíacos e outras manifestações associadas à ansiedade. Quando os vídeos mostravam cachorros com o rabo pendendo à direita, os animais testados se mostravam mais relaxados. Apesar da diferença observada, Vallortigara não acredita que exista um “entendimento” dos animais. “É improvável que isso envolva qualquer ‘compreensão’ explícita por parte do cão observador. Acho que o abanar do rabo é percebido e atendido rapidamente por um comando do cérebro”, complementa.

O pesquisador também acredita que um aprendizado repetitivo de hábito possa ocorrer, o que pode explicar como os cachorros seguem os gestos dos companheiros. “Pode ser que os cães aprendam por repetidos encontros com outros animais a associar os distintos movimentos a diferentes respostas comportamentais de indivíduos da mesma espécie”, complementa. Para ele, a descoberta pode ajudar na relação dos humanos com os bichos. “Manequins em forma de cachorro com rabos móveis podem ser usados no processo de treinamento ou para facilitar a abordagem durante visitas ao veterinário”, sugere.

Evolução

Na opinião de Roseana Diniz, professora da Clínica Médica de Caninos e Felinos da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o estudo ajuda a quebrar o mito de que o melhor amigo do homem só abana a cauda para demonstrar felicidade. “Isso é um conceito popular, mas quem estuda comportamento animal sabe que muitos outros significados existem nesses gestos. Agora, temos a confirmação de que o movimento pode indicar um alerta ou uma estratégia de proteção”, destaca.

Carla Molento, coordenadora do Laboratório de Bem-Estar Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acredita que os indícios mostrados no trabalho refletem uma adaptação. “Temos estudado e visto que essas mudanças são notadas em todas as espécies, inclusive a nossa. Saber comunicar a outro cão uma situação de perigo é algo essencial para a sobrevivência e, com certeza, deve estar ligado a áreas específicas do cérebro, como aponta esse estudo”, destaca.

Diniz acrescenta que a pesquisa pode contribuir para o bem-estar dos animais, já que a adaptação de bichos domésticos, como cães e gatos, depende muito da compreensão do seu comportamento. “Temos visto casos frequentes de distúrbios emocionais nesse animais domésticos por conta de mudanças de hábitat. Levar um animal para um apartamento, por exemplo, faz com que ele sofra mudanças comportamentais. Sua linguagem corporal pode ajudar a sabermos o que ele está passando.” Molento concorda: “Quando você tenta ensinar alguém, precisa de bons instrumentos de comunicação. Não basta só forçá-lo a fazer o que quer. Ao treinar um animal, você lida com um ser que fala outro ‘idioma’. É preciso entendê-lo da melhor forma, pois, como em qualquer relação, é preciso ter essa troca e compreensão”, afirma a especialista da UFPR.
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