SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

TECNOLOGIA

O smartphone que você constrói

Designer holandês propõe a criação de celular que pode ser equipado de acordo com a vontade do usuário. Cada componente, como a câmera ou o teclado, será facilmente destacado e trocado. Motorola decidiu investir na ideia

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 08/11/2013 14:00

Roberta Machado

Em 1998, o Nokia 5110 transformou o celular em acessório de moda graças às suas frentes removíveis. Qualquer criança era capaz de trocar a carcaça por outra de cor diferente. Além disso, se o aparelho caísse no chão, encaixar a bateria de volta no lugar era um trabalho bem simples. Hoje, no entanto, os smartphones parecem fortalezas de peças impenetráveis. A tela quebrada e a bateria viciada costumam ser a sentença de morte do dispositivo, que rapidamente é trocado inteirinho por um modelo novo — e, assim, peças perfeitamente boas acabam no lixo.

Insatisfeito com a limitação dos modelos atuais, o designer holandês Dave Hakkens sugeriu uma reinvenção dos aparelhos desmontáveis. Mas ele não quer mudar somente a bateria ou a capa do seu smartphone. Ele acha que todos deveriam poder trocar a câmera por uma mais potente ou instalar um processador mais veloz quando bem entender. E tudo com a mesma facilidade com que uma criança usa blocos para montar uma torre. Esse é o conceito do Phonebloks, um projeto divulgado por Hakkens há dois meses e que já recebeu o apoio de milhões de pessoas e da fabricante de celulares Motorola.

O vídeo publicado pelo designer no YouTube descreve a ideia: cada componente do telefone seria fabricado e comprado separadamente. Bastaria ao usuário encaixar os módulos em uma placa principal para criar um telefone completo. Em vez de trocar de aparelho todos os anos, o cliente poderia aprimorar o dispositivo constantemente, de acordo com as necessidades. Mais de 17 milhões de pessoas acessaram o vídeo, e quase 1 milhão divulgou a iniciativa em uma mobilização virtual na semana passada.

A onda de divulgação positiva foi aproveitada pela Motorola, que anunciou imediatamente o interesse pelo projeto. Em um post no blog da empresa, Paul Eremenko, vice-presidente de projetos da companhia, afirmou que um hardware open source similar já estava em desenvolvimento há um ano e que Hakkens seria recrutado para trabalhar com eles. Mas nas mãos da Motorola, o Phonebloks se chamaria Projeto Ara.

“Queremos fazer pelo hardware o que a plataforma Android fez pelo software: criar um ecossitema de colaboração de terceiros, baixar as barreiras de entrada”, descreveu Eremenko no post. Procurada pelo Correio, a companhia informou que ainda não deve se pronunciar sobre o projeto, mas que o lançamento do primeiro protótipo está previsto para o inverno (em março, no Hemisfério Norte), quando as especificações serão divulgadas para o desenvolvimento independente de blocos por qualquer empresa, profissional ou hobbista.

O próprio Hakkens admite que não vê a Apple construindo pedaços de iPhone que possam ser conectados a blocos fabricados pela concorrente Samsung, mas ressalta que já foi procurado por diversas companhias, como Nokia, Intel e Qualcomm. “Há também fabricantes de componentes de câmeras, baterias, telas de LCD, e eles adorariam ter um mercado aberto onde pudessem simplesmente vender os seus apps para blocos”, explica o designer. A pioneira Motorola foi a escolhida para definir o padrão que será usado, mas o inventor garante que todos terão oportunidade de participar da construção do telefone personalizado em breve.

Quimera

O apoio pelo smartphone de encaixes, no entanto, não é universal. Muitos críticos ressaltaram que a solução óbvia não havia sido adotada antes pelos fabricantes justamente por sua inviabilidade técnica: se cada componente do aparelho fosse transformado em um acessório, o produto final seria uma quimera gigantesca que não caberia em bolso nenhum (tanto fisicamente quanto em temos de custo). Hakkens rebate as acusações afirmando que “ninguém realmente tentou”. “Então, vamos descobrir, porque muitas pessoas querem isso”, resume.

Na verdade, alguns tentaram, mas sem sucesso. “Empresas já haviam começado a trabalhar em algo parecido, principalmente na Coreia e no Japão. Mas, como sempre, os americanos são mais hábeis em maketing”, ressalta Jonatan Davi, diretor de Novos Projetos do Instituto Nacional para Convergência Digital (INCoD). Há cinco anos, um minúsculo telefone chegou ao mercado com capas removíveis que podiam modificar a configuração do aparelho. Mas o Modu, no entanto, não colou. Talvez a campanha animada promovida por Hakkens seja a salvação do Phonebloks. Ou talvez seja esquecida até seu lançamento, como muitas modas lançadas na rede.

Para alguns especialistas, o conceito é viável, mas pode custar algum tempo de pesquisa e dinheiro. Em um telefone comum, alguns componentes precisam ser separados para não causar interferência, e outros, mais básicos, funcionam melhor se embutidos no dispositivo. “Dentro de um celular, há várias capas de isolamento que impedem a radiação de sair. Fechando cada módulo hermeticamente, talvez seja possível”, especula Gustavo Fraidenraich, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Uma forma de simplificar o projeto é a escolha de um espaço exclusivo para cada tipo de componente, em um mosaico menos dinâmico. “Quanto mais possibilidade para o usuário, mais caro o sistema”, resume Fraidenraich.

Hakkens só adianta que o desenho do Phonebloks divulgado na internet é apenas um conceito inicial, que deve ser modificado de acordo com as especificações técnicas propostas pela Motorola. Nas imagens do Projeto Ara divulgadas pela companhia, os aparelhos parecem ter menos módulos, além de um sistema de conexão mais limitado. O resultado, de acordo com o designer, deve ser um “meio termo” entre as duas ideias.
Tags:

publicidade

publicidade