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A devastação em detalhes

Entre 2000 e 2012, uma área verde do tamanho da Argentina foi perdida no mundo, revela novo mapa da cobertura florestal. O Brasil é a nação que mais reduziu a derrubada de árvores no período, mas dados anunciados ontem mostram que o desmatamento voltou a crescer na Amazônia

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postado em 15/11/2013 16:00

Paloma Oliveto


Ipê se destaca entre árvores da Amazônia: entre 2004 e 2011, o desmatamento na floresta caiu pela metade (Nacho Doce/Reuters) 
Ipê se destaca entre árvores da Amazônia: entre 2004 e 2011, o desmatamento na floresta caiu pela metade



Em 12 anos, o planeta perdeu 2,3 milhões de quilômetros quadrados de floresta. É como se uma área verde do tamanho da Argentina tivesse sumido do globo. Ao mesmo tempo, os esforços de conservação renderam uma cobertura vegetal três vezes menor que a devastada: apenas 800 mil quilômetros quadrados de árvores floresceram durante o período. A bem-sucedida experiência do Brasil, que até o ano passado registrou a maior queda anual de desmatamento, não conseguiu compensar o aumento excessivo de derrubada florestal em países como Paraguai, Bolívia, Indonésia e Malásia. Ontem, a ministra do Meio Ambiente brasileira, Izabella Teixeira, afirmou na conferência do clima de Varsóvia que a tendência sofreu um revés no país, com aumento na área desmatada de agosto de 2012 a julho deste ano.

Números e tendências de desmatamento e reflorestamento registrados por todo o planeta durante uma década ficaram mais fáceis de serem visualizados agora, com o primeiro mapa a concentrar, em alta resolução, dados de satélite que retratam as mudanças na cobertura vegetal do século 21. Cada pixel — ou a menor unidade que forma a imagem — mede 30m. Segundo os pesquisadores que encabeçaram o projeto, que contou com o apoio do Google, a ideia é “melhorar a habilidade de entender as alterações naturais e induzidas pelo homem e as implicações locais e globais dessas mudanças no ambiente, na economia e na sociedade”.

O resultado do mapeamento, publicado na edição desta semana da revista Science, pode ser conferido no endereço http://earthenginepartners.appspot.com/science-2013-global-forest. “Esse é o primeiro mapa das mudanças florestais que é globalmente consistente e localmente relevante”, afirma Matthew Hansen, coautor do artigo e professor de ciências geográficas da Universidade de Maryland. Em uma coletiva de imprensa, ele ressaltou que ganhos ou perdas na cobertura florestral moldam importantes aspectos do ecossistema, como a regulação do clima, o estoque de carbono, a biodiversidade e o fornecimento de água. “Até agora, porém, não havia formas de se ver dados detalhados e precisos dessas mudanças de uma escala local para a global”, afirma Hansen.

Citando o bem-sucedido caso do Brasil, que tem documentado fartamente o desmatamento e o reflorestamento da Amazônia Legal nos últimos 10 anos, Hansen destacou que o mapeamento confirma que o país não é mais o maior responsável pela destruição das florestas tropicais. Com uma queda na derrubada de árvores de 40 mil quilômetros quadrados, registrados em 2003-2004, para 20 mil, em 2010-2011, o Brasil mostrou o maior declínio anual, em contraste com a Indonésia, que mais do que dobrou suas perdas, indo de 10 mil para 20 mil quilômetros quadrados de devastação em uma década.

Código florestal
Peter Potapov, professor associado da Universidade de Maryland, ressaltou que, com o novo Código Florestal Brasileiro, não se sabe se essa tendência se manterá. “Mudanças no marco legal poderão reverter os mais de 10 anos de resultados positivos”, alertou. Em 12 meses, já houve um aumento de 28% no desmatamento, alcançando uma área de 5.843km², segundo a ministra do Meio Ambiente. “O governo brasileiro não vai tolerar e considera inaceitável qualquer aumento do desmatamento ilegal”, afirmou Izabella Teixeira, durante coletiva de imprensa ontem. Ela ressaltou que o resultado é provisório. Na terça-feira, será realizada uma reunião de emergência com os secretários de Meio Ambiente dos estados da Amazônia, que deverão explicar o que ocorreu e aplicar medidas para reverter a situação.

No topo da lista dos que desmataram no período, estão Pará e Mato Grosso, ambos com grande atividade pecuarista e intensa produção de soja, contabilizando um aumento de 37% e 52%, respectivamente. Apesar do resultado negativo, essa é a segunda menor taxa histórica de desmatamento registrada no país.

Apesar do aumento na área desmatada na Amazônia, Matthew Mansen afirmou que outros países deveriam seguir o exemplo brasileiro no sentido de disponibilizar os dados sobre mudanças na cobertura vegetal. “O Brasil utilizou dados do Landsat (programa de observação por satélite criado nos EUA na década de 1970) para documentar suas tendências de desmatamento e, então, usou essas informações para formular e implementar suas políticas públicas. O país também compartilhou os dados, permitindo que outros verificassem e confirmassem seu sucesso. Nem toda nação fornece para o resto do mundo informações semelhantes”, disse.

Atualização anual

O mapa foi construído a partir de dados recolhidos pelo sistema Landsat 7 entre 1999 e 2012 e disponibilizados gratuitamente pelo Centro de Observações e Ciências Terrestres dos EUA. Foram processadas mais de 650 mil imagens até se chegar à forma final. Técnicos do Google Earth ajudaram a desenvolver modelos computacionais — segundo os pesquisadores, graças à tecnologia do software, foi possível completar, em dias, uma tarefa que poderia levar 15 anos para ficar pronta.

Segundo Hansen, o mapeamento será atualizado anualmente para fornecer um quadro real das mudanças na cobertura de florestas globais. “O banco de dados pode quantificar todas as alterações ocorridas, sejam elas causadas por queimadas, tempestades ou por ação humana. Esperamos que mais países se inspirem a disponibilizar seus dados para que tenhamos uma sólida base de informações que ajudem a construir políticas de manejo das florestas e do ambiente como um todo.”

Pesquisadora da organização não governamental Winrock Internacional, a ecóloga Sandra Brown ressalta que, enquanto os satélites e os modelos computacionais estão cada vez mais incrementados, facilitando o monitoramento do desmatamento, ainda falta compromisso para aproveitar essas informações e promover mudanças substanciais no manejo dos ecossistemas. “Cada país precisa estabelecer metas claras de redução de emissão de carbono, conservação da biodiversidade e proteção dos recursos hídricos. Governos, empresas e ONGs devem se comprometer de forma cada vez mais ambiciosa com a redução do desmatamento bruto e com os esforços de reflorestamento”, diz. “Controlar perdas e ganhos na cobertura florestal não é mais um desafio técnico. O necessário é um compromisso global para fazer o que deve ser feito”, avalia.

Projeto de adaptação

Reunidos na COP 19, a conferência sobre mudanças climáticas da ONU, os 49 países que fazem parte do bloco das nações menos desenvolvidas (33 da África, 10 da Ásia, um do Caribe e cinco do Pacífico) apresentaram ontem um documento no qual afirmaram que estão empenhados a colocar em prática projetos de adaptação às alterações do clima. Citando o furacão Haiyan, representantes dos países disserem que eles são os mais vulneráveis e que precisam de financiamento e tecnologia para se tornar mais resilientes.
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