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Tesouros trazidos da África

Às vésperas do Dia da Consciência Negra, comemorado quarta-feira, conheça iniciativas desenvolvidas em escolas do Distrito Federal que reforçam a bela cultura dos afrodescendentes

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postado em 18/11/2013 10:33 / atualizado em 18/11/2013 13:34

Ana Paula Lisboa

 (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 


A próxima quarta-feira, 20 de novembro, é Dia da Consciência Negra, ocasião que serve para refletir sobre a integração dos afrodescendentes na sociedade brasileira. A data coincide com a morte de Zumbi, em 1695. Ele foi o último líder do Quilombo dos Palmares, o maior da época em que o Brasil era colônia de Portugal. Os quilombos eram comunidades isoladas para onde os negros fugiam do terror da escravidão com o objetivo de viver uma vida livre e feliz.
Por mais de 300 anos, pessoas eram capturadas e trazidas da África em navios negreiros. Essa vinda adicionou ingredientes à miscigenação do povo brasileiro, na época formado por índios e brancos, mais um elemento: os negros. A escravidão, é claro, foi um terror, com marcas deixadas até hoje. A vinda dos negros, porém, trouxe ricas contribuições culturais, religiosas, de música, de dança e de língua que devem ser valorizadas.
Num mundo tão moderno, infelizmente, ainda existem pessoas preconceituosas. Que coisa feia, não é? Mas ainda bem que muita gente passou a conhecer, aceitar, orgulhar-se e amar as origens africanas. Conheça projetos que aproximam e mostram preciosidades da cultura afrobrasileira em escolas públicas do Distrito Federal.

Brinquedo dos
navios negreiros


Na sala do 5º ano da Escola Classe 6 do Gama, o professor Cleison Ferreira pergunta:
— Alguém sabe o que é abayomi?
E recebe uma chuva de “Hã? O que é isso?”. Com uma pequena boneca negra feita de retalhos em mãos, ele e a professora Marizeth Miranda mostram um brinquedo inventado pelas mães africanas, surgido nos navios negreiros para amenizar a angústia das travessias. As mulheres rasgavam pedaços da própria roupa para fazer as bonequinhas, sem costura e quase sem cortes.
— Parece uma baiana!, disse Vitor Manuel de Souza, 13 anos, enquanto fazia a sua abayomi.

Henrique Pereira Linhares, 10, entendeu logo o recado. Ele faz capoeira, como o pai, e a boneca negra já era familiar para ele. O nome vem da língua iorubá, falada na Nigéria e outros países da África, e quer dizer “encontro precioso”. A oficina de abayomi é uma das atividades que a dupla de professores realiza nas escolas públicas do Gama. Eles representam a coordenação de educação em direitos humanos e diversidade na região. A abayomi de Eduarda Araújo, 10, ganhou o nome de Jurema. O que isso tudo tem a ver com a gente? Luana Monteiro, 10, responde:
— Nós também somos descendentes dos escravos por causa da miscigenação.

 (Iano Andrade/CB/D.A Press) 

Histórias do continente africano


Se os brasileiros descendem de europeus, africanos e índios, por que é que só os contos de fada da Europa são famosos por aqui? Com essa questão em mente, há três anos, a coordenadora de direitos humanos e diversidade em Ceilândia, Adelina Benedita Santiago, resolveu sair por escolas públicas e praças contando lendas da África e, junto com outros nove professores, participa do projeto Literafro.
— Todos sabem quem é Branca de Neve, mas quase ninguém sabe quem é Bintou, uma menina africana que usava birotes (coquinhos) na cabeça. A história da África também é nossa história, temos que conhecer mais sobre ela.
Na segunda visita que fez aos alunos da Escola Classe 64 de Ceilândia, a contadora de histórias ganhou atenção total dos presentes. Nicole Evelin de Silva, 6 anos, Thiago Lisboa, 9, e Yuri Gabriel Pereira, 12, se encantaram com os contos. Os preferidos de Nicole são sobre cabelos:

— Gostei dos birotes do cabelo da Bintou, que são como os da Adelina. O cabelo de Lelê é sobre uma menina que não gostava do cabelo cacheado, mas aprendeu a gostar.
Thiago conta de qual mais gostou:
— Obax é uma menina que sonha e viaja pelo mundo só com a cabeça dela. Uma pedra é um elefante imaginário. Quando ela planta a pedra, nasce um baobá no lugar.
Yuri conta por que gosta tanto do Literafro:
— Já sofri com racismo e acho isso muito ruim, as pessoas acham que todo negro é lerdão, mas não é. Ninguém precisa não gostar dos outros por causa da cor da pele. Estudar a história dos negros ajuda a combater o preconceito.

Palavrinhas

Quando falamos babá, bagunça, cafuné, dengo, cochilar, axé, moleque, bunda, tanga, quindim e outras palavras, estamos expressando influências diretas da cultura africana, pois esses termos vêm de idiomas como o iorubá e o quicongo e foram adicionados à língua portuguesa pelos negros trazidos como escravos ao Brasil. Fonte: Museu da Língua Portuguesa.

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 

Beleza negra


Existem vários tipos de beleza, dentre elas a negra. Os alunos da Escola Classe 16 do Gama sabem muito bem que não existe disso por causa do projeto Negro que te quero ser negro, que existe há duas décadas. Wilson José da Silva Neto, 11 anos, explica para que serve:
— O projeto prega a igualdade entre índios, brancos e negros e ajuda as pessoas a não terem preconceito. Minha mãe é branca e meu pai é negro e eu gosto da mistura de cores. Inclusive já encarei a passarela para representar a beleza negra.
O desfile é o ponto alto do encontro das belezas do colégio que mostra que não existe “cabelo ruim”. Na ocasião, as meninas se enchem de tranças. Anna Júlya da Silva, 10, Juliana Sousa, 11, e Lauanny Oliveira, 9, são algumas das que aproveitam para entrelaçar as madeixas. Lauanny gosta de variar o penteado:
— Meu cabelo fica lindo natural, com trancinhas ou com chapinha. Temos que ter liberdade para escolher. As pessoas são iguais, mas, com o preconceito, a gente acaba se sentindo desigual, por isso, o projeto da escola é muito importante.
Juliana não abre mão dos cachos:
— Eu sou negra e não me importo se as pessoas são brancas, azuis, verdes ou vermelhas. Temos que aceitar os outros do jeito que eles são, inclusive os cabelos. Minha irmã vive fazendo tranças em mim e fica muito bonito.
Anna Júlya é fruto da mistura entre índios e negros e sabe como o preconceito machuca:
— No parquinho um menino falou para os colegas quando me viu “Não se junta com essa preta, não”. Fiquei ferida, dá vontade de chorar. E isso é uma grande besteira. Deus fez todas as pessoas diferentes, se fôssemos todos iguais seria muito chato.


Aproveite essa lista de livros para conhecer mais sobre as heranças dos africanos no Brasil
 (Formato Editorial/Reprodução) 

Zumbi, o menino que
nasceu e morreu livre,
de Janaína Amado.

Editora Formato, R$ 30.
Zumbi dos Palmares era um menino que corria solto pela mata, lutava capoeira e empinava pipas, até que foi capturado para ser feito de escravo. Ele nunca esqueceu o povo dele e, na primeira chance, fugiu para ser feliz.

 (Cortez Editora/Reprodução) 

Palmares, a luta
pela liberdade,
de Eduardo Vetillo

Editora Cortez, R$ 32.
Uma grande história em quadrinhos, descreve uma das piores crueldades do mundo: a escravidão. Acompanhe a busca pela liberdade de Demba e Moah, que fugiram de um navio negreiro e nadaram até o Brasil.

 (Editora DCL/Reprodução) 

Mestre Lisboa, o Aleijadinho,
de Nelson Cruz

Editora Difusão Cultural
do Livro, R$ 25.
Filho de uma escrava negra e de um arquiteto branco, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi um dos melhores escultores brasileiros, apesar da deformidade em uma das mãos. Aventure-se por esta história de vida.

 (Grão Editora/Reprodução) 

Os meninos da Congada —
na festa de São Benedito de Ilhabela, de José Santos

Grão Editora, R$ 40.
Benedito, personagem criado pelo autor, mostra aos leitores o universo das congadas e, principalmente, dos congueiros mirins. A festa conta a história da luta entre os cristãos e os mouros na África, no reino do Congo.

 (Editora Globo/Reprodução) 

Abolição da escravatura e Proclamação da República
no Brasil: histórias em quadrinho baseadas na obra de Monteiro Lobato, de Miguel Mendes

Editora Globo, Coleção
Você sabia?, R$ 24.
Aprenda sobre esses dois importantes momentos históricos junto com Emília, Pedrinho, Narizinho e outros personagens do Sítio do Picapau Amarelo.

 (Editora Prumo/Reprodução) 

Imagine uma menina
com cabelos de Brasil…,
de Alexandre Bersot

Editora Prumo, R$ 29.
Aparecida não gosta de ter madeixas enroladinhas. Ela se une a duas amigas para enfrentar as provocações dos colegas de sala sobre o cabelo crespo e passa a aceitar sua própria natureza que, por sinal, é linda.
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