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CIêNCIA »

Relação do vício com a tristeza

Estudo sugere que dependentes de cocaína buscam novas doses não só porque desejam experimentar mais uma vez a sensação de euforia que a droga proporciona, mas também para evitar os efeitos desagradáveis que se seguem ao uso

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postado em 20/11/2013 16:00

Paloma Oliveto

Primeiro, vem a euforia. A autoestima, então, se eleva, acompanhando a sensação de prazer intenso. Para completar, a sociabilidade vai às alturas: a pessoa torna-se falante, desembaraçada, cheia de energia para compartilhar com o grupo. Mas tudo isso tem prazo de validade. Passado o período de euforia ou de intoxicação, o lado sombrio da cocaína se apodera da mente e do corpo. Usuários descrevem o momento como um turbilhão de emoções negativas: ansiedade, paranoia, ataque de pânico, nervosismo, cansaço extremo, irritabilidade e medo. Os efeitos ruins só passam com a próxima dose e, cada vez mais, são necessários intervalos menores e quantidades maiores para satisfazer o usuário.

O ciclo do vício tem sido explicado, tradicionalmente, como uma busca pelas sensações positivas desencadeadas pela cocaína logo após o consumo. Essa percepção norteia as pesquisas que visam aprimorar os tratamentos para a dependência química. Depois de mais de uma década estudando o comportamento fisiológico do vício, contudo, o psiquiatra Mark West, professor da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, oferece outra explicação. Em um artigo publicado na revista Psychopharmacology, ele defende que, antes de buscar na droga a explosão de alegria, os usuários recorrentes voltam à cocaína porque querem combater as sensações desagradáveis que seguem o período de intoxicação.

“Nós sabemos que, assim como outras drogas, a cocaína age em circuitos cerebrais associados à recompensa. A ativação dessas redes é responsável pela experiência prazerosa desencadeada pelo entorpecente”, explica West. De acordo com ele, a busca por fármacos capazes de enfrentar a dependência, seja em cocaína, seja em tabaco, leva em consideração o bloqueio desses circuitos. Sem desencadear os efeitos estimulantes, a droga perderia a graça. West concorda com a abordagem, mas acredita que os cientistas também precisam desenvolver estratégias que lidem com os sintomas ruins que surgem depois da fase de intoxicação. “Os dependentes químicos podem acabar num ciclo em que buscam cada vez mais a droga, não porque querem passar de novo pela euforia característica, mas por tentarem evitar desesperadamente a fase de baixos emocionais”, defende.

Na pesquisa da Universidade de Rutgers, o cientista e colegas analisaram as vocalizações ultrassônicas de ratos expostos à cocaína. Os roedores emitem sons imperceptíveis aos ouvidos humanos, mas que podem ser medidos por equipamentos especiais. Dependendo da faixa de frequência, é possível saber o estado emocional do animal, se positivo ou negativo. Além de capturar as vocalizações das cobaias, os pesquisadores fizeram testes de sangue para avaliar a quantidade de droga consumida por eles.

Os especialistas constataram que, nos primeiros 35 a 40 minutos depois do consumo, os ratos emitiam vocalizações associadas a um estado positivo. Depois desse período, a droga continuava a circular no organismo, mas os bichos não demonstravam, pelos sons, nem euforia nem ansiedade. “Contudo, quando os níveis de droga caíam para quase zero, eles começavam a emitir vocalizações que estão de acordo com uma sensação negativa. Nesse momento, passavam a procurar mais droga, desesperadamente”, conta David Barker, aluno de pós-graduação de Mark West, que também assina o artigo. “Sem dúvida, isso pode nos ensinar sobre o tratamento da dependência química em humanos. Se levarmos o resultado do estudo em consideração, poderemos ter avanços no desenvolvimento de terapias farmacológicas ou comportamentais”, acredita.

Barker cita um estudo publicado, há quatro meses, pelo Instituto de Pesquisa The Scripps, da Califórnia. Partindo do princípio de que o vício é desencadeado pela tentativa de compensar as sensações ruins, mais do que atingir um estado eufórico, os cientistas realizaram um experimento no qual conseguiram controlar a busca pela cocaína. Com exames de imagem, eles encontraram sinais da abstinência em circuitos da amígdala, uma região do cérebro associada à mediação do medo e da ansiedade. Em roedores que haviam sido expostos à droga, essa área ficava ativada quando se suspendia o acesso à substância.

A amígdala contém uma alta concentração de uma classe de neurotransmissores chamados dinorfinas, que se ligam a receptores opioides kappa. A hipótese dos pesquisadores é a de que o sistema receptor dinorfina/opioide kappa se torna hiperativo com o uso excessivo de cocaína. Eles, então, bloquearam a recepção do neurotransmissor e verificaram que os ratinhos não foram atrás da cocaína, mesmo depois de já ter experimentado a droga anteriormente. “Enquanto mudanças nos circuitos cerebrais relacionados ao prazer podem dominar os primeiros estágios de uso da droga, estamos encontrando evidências de que alterações no circuito ‘negativo’ também levam o indivíduo a usar os entorpecentes. Não por causa de seus efeitos eufóricos, mas buscando aliviar temporariamente a disforia sentida depois da retirada da cocaína”, alertou, em um comunicado de imprensa, George F. Koob, presidente do Comitê de Neurobiologia dos Distúrbios de Dependência do instituto.

Humor
Segundo Steven J. Simmons, pesquisador do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade da Califórnia, muitos usuários de cocaína relatam que não conseguem abandonar a droga justamente porque têm dificuldade para regular o humor. “Um estado emocional negativo está por trás da maior parte dos casos de recaída. A dependência química tem um componente muito maior que a busca pela euforia. Quanto mais entendermos o que faz com que o indivíduo se coloque dentro da armadilha que é o ciclo do vício, melhor serão as abordagens para resgatá-los”, defende.

David Barker acredita que a tendência é considerar múltiplos fatores nos estudos que procuram entender por que as pessoas se tornam dependentes e têm recaídas. “Uma teoria apenas não basta. Diversas coisas parecem desempenhar um papel: a disponibilidade da droga, o uso por parte dos amigos, o contexto, o estresse”, ressalta. “É importante aprendermos quais são esses fatores.”
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