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Dislexia ligada a falha de conexão entre neurônios

Estudo publicado na revista Science mostra que o transtorno que dificulta a leitura está relacionado à fragilidade de comunicação entre algumas células do cérebro. A descoberta pode transformar o tratamento do problema, que afeta entre 5% e 10% da população mundial

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postado em 06/12/2013 14:00

Paloma Oliveto


 
"Para ilustrar o impacto dessa descoberta, vamos fazer uma metáfora com uma rede de computador: por muito tempo, acreditou-se que, na dislexia, a informação armazenada no servidor era o problema. Aqui, mostramos que a informação no servidor está intacta, mas as conexões para acessá-la são muito lentas ou estão degradadas" Bart Boets, principal autor do estudo


A bióloga Pamela J. Hines evoca a cena de uma pessoa correndo atrás de um ônibus com os tênis desamarrados: “As pernas desejam ir rápido, mas os pés estão tropeçando. Talvez um sapato voe longe, ela pise em uma pedra e, de repente, toda a ideia de pegar a condução evapore”. Assim é com a leitura, conclui a cientista, editora-sênior da revista Science. “Quando diferentes partes do processo não são coerentemente sintonizadas, esse ato se torna impreciso, ineficaz e, no fim, ingrato.” Que o digam os portadores de dislexia, distúrbio neurológico hereditário, caracterizado por dificuldades severas e persistentes em ler e soletrar. Estima-se que de 5% a 10% das crianças e dos adultos de todo o mundo sofram com o problema, que atrapalha o desenvolvimento, o desempenho escolar e as atividades laborais para o resto da vida.

As tentativas de tratar os indivíduos afetados esbarram no fato de que as raízes da dislexia são desconhecidas. Até agora, acreditava-se que uma falha na representação mental das palavras estivesse por trás do problema. Dessa forma, ao ver um b, o cérebro o interpretaria como d, por exemplo. Contudo, os esforços para lidar com a deficiência levando em conta essa teoria têm se revelado pouco producentes. Uma nova linha de tratamento, porém, poderá surgir a partir de uma descoberta publicada na edição desta semana da revista Science. Usando tecnologia de imagem, cientistas belgas e ingleses descobriram que a representação fonética, em disléxicos, é perfeitamente normal. O problema é que seus cérebros têm dificuldade para acessar essa informação.

Quando se aprende uma língua, seja a materna, seja um segundo idioma, é preciso juntar pequenas unidades de som, os fonemas — o famoso “b + a = bá”. Além disso, é necessário saber agrupar os fonemas de diferentes formas (tons mais altos ou mais baixos, com ou sem acento, por exemplo) e distinguir sons semelhantes, como o de vá e o de fá. Segundo Bart Boets, principal autor do estudo e psicólogo do desenvolvimento da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, pessoas com dislexia têm dificuldades para executar todas essas tarefas. “Ler e soletrar se tornam extremamente difíceis”, disse, em uma coletiva de imprensa. Contrariando a ideia tradicional de que o cérebro do disléxico tem problemas em converter símbolos escritos em sons, Boets decidiu testar a hipótese de que, em vez disso, a deficiência estaria nas conexões neurais necessárias para se alcançar as áreas do cérebro em que a linguagem é processada.

Fragilidade
A equipe de pesquisadores utilizou o exame de ressonância magnética funcional, que revela padrões de ativação das distintas regiões cerebrais durante determinadas atividades, como ler, assistir a um filme ou dormir. Eles examinaram o cérebro de 22 adultos normais e 23 disléxicos enquanto eles recebiam estímulos de linguagem. “Para a nossa surpresa, as representações fonéticas estavam completamente intactas tanto nos disléxicos quando nos demais leitores”, contou Boets.

Em seguida, os cientistas focaram as conexões entre os neurônios. Para isso, aplicaram uma técnica chamada difusão por ressonância magnética, que permite visualizar, em tempo real e em três dimensões, a comunicação das redes de neurônios relacionadas a determinadas funções. “Nós calculamos a força da conectividade funcional entre uma rede inteira de 13 regiões cerebrais envolvidas no processamento auditivo, fonológico e do discurso”, explicou Maaike Vandermosten, coautora do estudo e pesquisadora da Faculdade de Psicologia e Ciência Educacional da Universidade Católica de Leuven.

Os cientistas procuraram por pares nos quais a comunicação entre as regiões era reduzida. “Nossos resultados mostraram que quase todas as conexões estavam intactas, mas também apontaram para problemas na conexão entre o lado esquerdo e o direito das regiões auditivas, onde as representações fonéticas se hospedam, e a região de Broca, envolvida no alto processamento fonológico”, disse Vandermosten. Quanto mais fraca a conexão, pior foi o desempenho dos indivíduos em testes de leitura e soletragem. “Para ilustrar o impacto dessa descoberta, vamos fazer uma metáfora com uma rede de computador: por muito tempo, acreditou-se que, na dislexia, a informação armazenada no servidor era o problema. Aqui, mostramos que a informação no servidor está intacta, mas as conexões para acessá-la são muito lentas ou estão degradadas”, afirmou Bart Boets.

Revisão
Na avaliação de Pol Ghesquière, psicólogo e coautor do estudo, essa descoberta indica que os tratamentos atuais para dislexia precisam ser revistos. Ele explicou que as intervenções existentes, que têm como foco a representação mental dos fonemas, provavelmente também ajudam a fortalecer as conexões nas regiões envolvidas com a linguagem, mas é preciso avançar nas abordagens. “No futuro, seria interessante desenvolver tratamentos que tenham como alvo específico a comunicação entre as redes neurais.”
Em um comunicado à imprensa, a editora da revista Science disse que estava “orgulhosa em poder divulgar esse importante resultado”. “À medida que ouvimos um discurso ou lemos um texto, mentalmente mapeamos os sons em fonemas internos que nos ajudam a categorizá-los e interpretá-los. Pessoas com dislexia têm problemas com esse processo e isso se traduz em dificuldades com leitura para o resto da vida. E, se elas não vão bem na leitura, aprender também pode ser algo complicado”, observou Pamela J. Hines. “Esperamos que essa melhor compreensão de como o cérebro se comporta possa se reverter em intervenções que ajudem os disléxicos a desfrutar da leitura fluente”, concluiu.

Ajuda digital

Um estudo publicado há alguns meses na revista Plos One por pesquisadores norte-americanos mostrou que os leitores digitais, como tablets, e-readers, e mesmo smartphones, são mais fáceis de serem lidos por disléxicos. Os cientistas descobriram que, quando esses aparelhos são configurados para exibir poucas palavras por linha, algumas pessoas que sofrem do distúrbio conseguem ler mais rapidamente, com maior facilidade e melhor compreensão. “Pelo menos um terço das pessoas com dislexia que testamos têm problema de atenção visual e foram ajudadas pelo e-reader”, disse, na ocasião, Mattew H. Schneps, diretor do Laboratório de Aprendizagem Visual do Observatório Astrofísico Smithsonian e principal autor da pesquisa. “Para aqueles que não sofrem do problema, o estudo mostrou que a forma tradicional de exibição do texto é melhor”, destacou.
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