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MAURÍCIO LEITE

Muito Prazer

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postado em 13/01/2014 12:57 / atualizado em 14/01/2014 10:38

Ana Paula Lisboa , Vanessa Aquino

Dos lugares de onde eu vim e para onde eu vou, não adianta contar com recurso de papelaria porque nem livro tem. Quando comecei meu trabalho na Ilha do Bananal, eu tinha o livro, os meus, os professores copiavam o texto à mão em um caderno de caligrafia e escreviam o nome do autor e do editor. Comecei a trabalhar na Ilha do Bananal, mas cresci em Mato Grosso, em fazenda, no pantanal, estudei em escola da zona rural, mas tive a sorte de ter uma família doida.Minha família tinha uma coisa cigana, errante, adorava mudar de casa, de cidade, parecia que ia sair para fazer um piquenique. Quando fui fazer a primeira série, mudamos para uma outra cidade e depois fomos para outro lugar. Nasci em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul.

PRIMEIRAS LEITURAS

Toda minha vida foi rural, mas na cidade em que eu nasci passava um trem que ia até a Bolívia, o Trem da Morte. E quando você tem um trem que passa na porta da sua casa, muda tudo. A cidade tinha cinema, banca de revista…Meu pai assinava revista de música e gibi.Em casa, tinha leitura,meu pai gostava de ler gibi. Lembro até hoje o primeiro gibi que ele comprou para mim: o Recruta Zero, tentando fazer uma casa de corvo e outro era o Pato Donald, com os sobrinhos, Huguinho, Zezinho e Luizinho, indopescar, cada um com uma vara e uma lata na mão com minhocas. Isso nunca saiu da minha memória, ficou marcado. Eleme levou e me mandou escolher.


FOTONOVELAS

Somos quatro irmãos. Tive contato com a leitura toda a vida. Eu via o povo ler , depois, minha mãe lia muita fotonovela. Fazia trocas com as vizinhas, eu que levava e trazia e então lia. Quem mandava no mercado de fotonovela era a Itália, então eram histórias de logo depois da Segunda Guerra Mundial. A foto novela foi uma coisa que emocionou muito a Europa, porque tinha o contexto das cidades destruídas pela guerra, claro que com aquele dramalhão.

A MALA

Começou por necessidade. Eu fui trabalhar na Ilha do Bananal em uma região que sofreu muito coma guerrilha do Araguaia. Muitos universitários paulistanos estão enterrados em lugares que ninguém sabe.Uma coisa absurda. Então, apareceu o bispo Dom Pedro Casal dáliga, quando o conheci , tive até uma certa decepção porque, pela fama, pensei que ele tinha três metros de altura.Um grande poeta e um grande líder com quem aprendi sobre trabalhos sociais. Fui convidado para promover leitura na região, um trabalho literário.O primeiro trabalho que fiz foiemuma aldeia Tapirapé.O cacique me chamou,dizendo que o índio sempre perdia para o branco por não conhecer palavra de branco.Então, ele queria que as outras gerações conhecessem palavra de branco, que eles lessem. A primeira biblioteca que montei foi em uma aldeia indígena. E começaram a me chamar para ir para alguns núcleos do sertão, escolas da zona rural.

INTERDISCIPLINAR

Eu gosto de coisas bonitas. E eu gosto de ensinar livros em outras línguas, em outros formatos.Nenhum livro é igual ao outro. E comum pequeno dicionário na sala de aula você resolve facilmente a questão da língua. E se você ensinar até javanês arcaico eles aprendem.Então, eu insisto muito que a literatura seja multilinguística. Tenho livro em árabe, chinês. Você pode não saber ler o árabe, mas e o que você aprende? Cada mala de leitura tem um mapa-múndi. A leitura te toca, ensina sobre as emoções humanas.

TRIBO INDÍGENA
Muitas histórias bonitas acontecerame comecei a escrever para os escritores que eu via na mala dos livros.Uma vez escrevi para Marina Colasanti e seis meses depois chegava uma caixa de livros da Marina emocionada dizendo
que nunca imaginava. Umdos capítulos do livro Fragatas de terras distantes, é emminha homenagem, porque ela não sabia que os índios liam os livros dela. Uma vez, li umconto da Marina e os índios tiveram um sonho coletivo com o conto; e eles valorizam muito os sonhos, o imaginário, e mandaram uma carta para ela em tapirapé, traduzidaem português. Ela ficou muito emocionada. Muitos anos depois, fui trabalhar na África e levei o livro dela, e eles ficaram comovidos e mandaram uma carta em changani. E ela escreveu um capítulo sobre isso, dizendo que, quando um escritor escreve, não tem noção que tem um maluco que vai levar o livro em região de campo minado e aldeia indígena.

FINANCIAMENTO

Comecei o trabalho recolhendo as histórias locais. Histórias das famílias. Como eu não sabia desenhar nem escrever, e não tinha nenhuma tecnologia, fiz o que estava à mão, que era recolher as histórias locais, das pessoas que estavam ali. Os mitos indígenas, os contos de tradição portuguesa que ficaram muito preservados na Amazônia, por exemplo. E a história da guerrilha… Aí comecei a procurar ajuda e consegui chegar até alguém do Unicef (na década de 1980). Durante quatro anos, eles me deram dinheiro para fazer o projeto.

MUDANÇA DE VIDA

Depois, eu conheci uma organização que mudou a minha vida: a Ashoka— que é também o nome indiano de um imperador que viveu antes de Cristo. Um homem muitomau. Certo dia, ele passou debaixo da árvore emque Buda se iluminou e ele mudou; a Índia prosperou muito na época. Os estudantes americanos imaginaram um local que reunisse pessoas empreendedoras e criaram a Ashoka. Eles não financiam projetos, eles financiam pessoas. Se eu pedir dinheiro para oMala de leitura, eles nãomedão. Então, ganhei uma bolsa da Ashoka que era de 2 mil dólares por mês. Não tem que mostrar onde gastou o dinheiro. Eles querem que você esteja bem, viva bem , coma bem, compre livros, viaje e tenha tempo para se dedicar a sua ideia.

GOVERNO DO BRASIL
O apoio do governo do Brasil não existe. Só quando precisa, por exemplo o Itamaraty destinou um dinheiro por causa da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).E sempre que eles fazem coisas, nunca são para criança. Ninguém leva uma exposição de crianças do Brasil para fora. É sempre uma coisa mais ecológica ou quadros de pintores. No Brasil, existem 5.570 municípios; desses, 273 têm a lei municipal do livro e da leitura, sendo que nas regiões Norte e Nordeste, apenas um município conta com a lei. E se não há a lei, não se pode fazer projetos.

POLÍTICAS DE LEITURA
Vejo muito projeto de leitura que está começando, embibliotecas, por exemplo, mas eu gostaria muito que voltassem lá depois de um ano, para acompanhar. A Conceição, da Biblioteca Demonstrativa, batalhava muito por uma política da leitura do livro infantil.

ESCOLAS VAZIAS

Eu visitei muitas escolas da Asa Sul, da Asa Norte e do Varjão. Escolas feias, vazias, na biblioteca doVarjão, as crianças estavam fazendo aulas particulares e dever de casa. Alguns são prédios maravilhosos e não são úteis. Eu fiquei chocado com o que eu vi. No pátio, a única coisa que as crianças tinham para brincar era uma latinha amassada. E algumas escolas particulares têm móveis caros, mas são frias. As escolas não usam listagem compramde distribuidor sem critério.Eu não vendo livro, eu vendo leitura.

LEITURA DO PROFESSOR

Durante muito tempo, eu trabalhei com um conceito de que se o professor não fosse leitor, o aluno também não seria. Eu abandonei essa ideia. Hoje, não quero transformar mais ninguém. Leitura é uma coisa que se aprende, como tudo na vida. Valores humanos, morais e éticos se aprendem desde pequeno.

POLÍTICA FALHA
Nós somos quase 200 milhões de pessoas e o Brasil é festejado em todas as feiras do mundo. Os autores infantis ganham todos os prêmios do mundo. Nós falamos de tudo, nossos ilustradores são reconhecidos. Só a Stella Maris Rezende ganhou três Jabutis no ano passado. Então, há sim reconhecimento dos nossos autores.Mas há o negócio do livro, o mercado que compra. Por exemplo, se o Ministério da Cultura comprar exemplares de um livro de uma editora daqui, ele já salva aquele livro por aquele ano. Se ele comprar 1 milhão não cobre nem o estado de São Paulo. As bienais são poderosas, o mercado de venda de livros no Brasil é maravilhoso e de exportação. A política de leitura é que é falha.

ATRATIVO DE LEITURA

No meu trabalho eu não conto histórias, minha intervenção é específica de promoção da leitura. Eu não uso nenhum artifício. Eu tenho um livro bom e seduzo com ele. Acredito na força e na beleza da história. E que eu aprendi como forma leitor: dar o livro certo para a pessoa certa, na hora certa. Nem sempre vai dar certo.Cadaumgosta de uma coisa.O primeiro erro é achar que comprar um livro resolve.Temque se preparar. É igual trabalho de médico, para cada caso, existe um remédio. Sói existe o genérico depois que você tem leitor com autonomia, que lê o que ele quer.

PERFIS DE LEITORES
Acho que em todas as escolas existem bibliotecas.Mas baseadas em que critérios? Temque haver um critério. O acervo se forma de acordo com o perfil dos leitores. Outro ponto é que todo mundo quer formar leitor na escola, mas esse é um papel da família, da sociedade. Falta competência. Nunca se ofereceu tanto livro para criança quanto agora, mas não adianta oferecer. Não é uma coisa que o brasileiro sinta necessidade. Leitura não é matéria de interesse. As pessoas se referem aos promotores como contadores de historinhas, fazedores de bonequinhos. Promover leitura é muito mais que isso.

PRISÃO COM LIVROS
Quando você vai formar acervo para leitores na África, por exemplo, os livros têm que ser diferentes. As pessoas não conhecem a África. Lá, eu trabalho com crianças órfãs de guerra, órfãs de Aids. Então, qualquer livro que fale de comida eu não posso levar.Tenho que levar  outros tipos de livros. Eu fui preso em Angola. Estava com a mala no mercado Roque Santeiro eme perguntaramo que eu tinha na mala. Eu disse que eram livros. Não sabiam o que eramlivros e eu disse: “Então me prendam….” Porque até eu explicar, seria uma longa história. Eu havia sido sequestrado dois dias antes.

 

Princípios da leitura

» Livro não precisa ser novo nem caro, precisa ser bom. Frequente bibliotecas. Compre livros usados.

» Livro sem palavras não é ruim! Criança pequena põe palavras na história de acordo com o que ela vê nos desenhos.

» É melhor herdar leitura e cultura dos pais do que bens, que podem ser roubados ou perdidos.

» Escolas, chega de enrolação. Para fazer criança gostar de ler, é preciso oferecer livros bons e diversificados e não ficarem falando que leitura é importante.

» Ensinar a criança a gostar de ler não é obrigação da escola: isso vem da família. » Livro bom envolve sentimentos.

» Não siga as faixas etárias dos livros, siga seu gosto de leitor. Classificar livros por faixa etária é totalmente errado. Cada leitor é único, independentemente da idade. Não existem livros infantis. Existem apenas livros que, se forem bons, agradam tanto a crianças quanto a adultos.
 

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