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RETRATO DO FUNCIONALISMO »

Governo, o primeiro patrão

O interesse pelo serviço público se concentra em pessoas com até 30 anos e graduadas, inclusive recém-formadas. Analistas percebem o início de um processo de rejuvenescimento da máquina pública

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postado em 22/01/2014 09:52 / atualizado em 22/01/2014 10:14

Bárbara Nascimento , Antonio Temóteo

Depois de concluir o curso de arquivologia, Flora Carvalho desistiu de procurar emprego na iniciativa privada para entrar no Executivo  (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 
Depois de concluir o curso de arquivologia, Flora Carvalho desistiu de procurar emprego na iniciativa privada para entrar no Executivo


 
"Não sei se me arrependo (de dizer não a um convite de trabalho), mas recusei porque fiquei com medo de não conseguir estudar (para concursos)" Rebeca de Lima, 23 anos


 
"Não quero ficar quatro ou cinco anos na faculdade para depois não ter emprego e prestar concurso para algo fora da minha área de formação" Danilo Oliveira Luiz, 21 anos


 
"Todos os dias, quando pego o ônibus para o cursinho, escuto as pessoas reclamarem. Todo mundo está estressado com a rotina (na iniciativa privada)" Diná Silva, 35 anos

 

Eles e elas estudam horas a fio e deixam de lado, muitas vezes, a família, os amigos e os amores. Tanto esforço tem um único objetivo: ingressar no serviço público. São milhões de brasileiros que, nas salas de cursinhos e em bibliotecas de todo o país, preparam-se para se tornar o futuro do funcionalismo. O Correio traçou, nas últimas semanas, um perfil de quem são os interessados em ocupar um dos cobiçados postos públicos.

Os candidatos são, em sua maioria, jovens e mulheres. Têm entre 18 e 30 anos. “As pessoas saem da faculdade e emendam com o cursinho, rapidamente ganham ritmo de estudo e logo passam no concurso”, explica a coordenadora pedagógica do IMP Concurso, Ranil Aguiar. Por isso mesmo, acabam tendo o serviço público como primeiro emprego. Recém-formada, a arquivista Flora Reinharbt Carvalho, 21 anos, por exemplo, concluiu a graduação na Universidade de Brasília (UnB) há 10 meses e já se dedica a entrar na carreira pública.

“Procurei emprego na rede privada, fiz até algumas entrevistas, mas, como a maioria dos meus colegas, acabei me rendendo ao funcionalismo. Falta mercado”, justifica. Filha de uma servidora, ela conta que recebeu muita influência em casa. “Minha mãe diz que é importante garantir o meu futuro, nunca vou precisar me preocupar com desemprego”, completa. Flora disputa uma vaga de arquivista na Polícia Federal.

O sonho de ter o governo como patrão não se restringe, contudo, a quem tem nível superior, mas também aos que acabaram de sair do ensino médio. Apesar de os graduados ainda serem maioria entre os candidatos — cerca de 70% dos alunos de cursinho entrevistados —, há um número crescente de pessoas que preferem assegurar o emprego no setor público antes mesmo de ingressarem na universidade.

Hoje, na rede Gran Cursos, 5% dos alunos têm menos de 18 anos. “São filhos de servidores. Os pais os estão orientando a buscar primeiro a estabilidade e, depois, o nível superior”, explica Wilson Granjeiro, proprietário do curso. Não à toa, já existe no Distrito Federal uma escola que leciona, no ensino primário, matérias de direito, que caem em concursos.

Sangue novo
Um fator preponderante é que o governo tem ofertado muitos cargos de nível médio nos últimos anos. “Isso é muito positivo para a administração pública. É sangue novo, gente com ideias, energia e vigor para oxigenar a máquina pública, que vinha envelhecendo”, diz o empresário. De fato, segundo dados referentes a 2013 da Escola Nacional de Administração Pública, a maior parte dos servidores do Executivo civil — 37% ou 237,3 mil pessoas — tem entre 46 e 60 anos.

Danilo Oliveira Luiz, 21, é um dos candidatos que preferiram deixar a graduação de lado até poderem se sustentar. “Não quero ficar quatro ou cinco anos na faculdade para depois não ter emprego e prestar concurso para algo fora da minha área de formação”, explica. Apesar disso, ele conta que não pretende fazer carreira na administração pública. “Não é meu sonho, a estabilidade não me atrai. Quero ser empreendedor. Em um órgão público, vou poder ganhar experiência, fazer um curso superior e juntar dinheiro para montar o meu negócio”, completa.

É comum também que os filhos tenham apoio dos pais para tomar tal decisão. Ao optar por deixar a universidade para depois, Danilo teve o incentivo da mãe, servidora do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), em Brasília. “Ela espera o mesmo para a minha irmã. Não quer que ela curse faculdade agora para ter um salário de estágio de R$ 500, enquanto pode ter um emprego e, depois, fazer um curso superior”, completa ele.

Dupla jornada
Entre as pessoas que preferiram se graduar antes de entrar no serviço público, muitas nem sequer têm passagem pelo mercado de trabalho. Elas abrem mão da experiência e se dedicam ao preparo para algum cargo no setor. E, não raramente, têm já no primeiro emprego salários acima de R$ 10 mil, o que é difícil na iniciativa privada.

A biblioteconomista Rebeca Moura de Lima, 23, está entre esses recém-formados. Ela chegou a negar um convite de uma empresa para correr atrás de se tornar servidora. “Não sei se me arrependo, mas recusei porque fiquei com medo de não conseguir estudar”, diz. No momento, ela se prepara para o certame do Metrô do Distrito Federal. “Queria algo na minha área, mas sempre são pouquíssimas vagas. Nesse caso, especificamente, só uma”, conta.

Analista de recursos humanos e ex-professor do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Pinho avalia, contudo, que essa dinâmica pode não ser tão benéfica para o serviço público. “O fato de o jovem conseguir sair direto da faculdade ou do ensino médio e ingressar no funcionalismo significa que as seleções públicas estão sendo malfeitas, porque avaliam apenas o conhecimento formal, escolar, e não a real aplicabilidade dele”, explica. “Quem paga por isso é, sobretudo, a sociedade, que depende do serviço dele”, conclui Pinho.

Dedicação exclusiva
 Entre os concurseiros, é comum encontrar também quem tenha abandonado o emprego. “Há uma parcela, ainda que menor, dos que decidem se dedicar somente aos estudos”, explica o presidente da Vestconcursos, Ernani Pimentel. “Essas pessoas vendem carro, moto, fazem um investimento na preparação”, completa Ranil Aguiar, coordenadora do IMP. Ex-funcionária terceirizada de um órgão público, Diná Gabriel Silva, 35, foi demitida há cerca de um ano. Depois disso, nem procurou outra ocupação.

“Optei por apenas estudar”, justifica Diná, que assiste a aulas no cursinho sete dias por semana para conseguir uma vaga na área policial. Ela conta que, durante o tempo de serviço como terceirizada, observou como era o trabalho dos funcionários públicos e, então, resolveu que gostaria de ser um deles. Além disso, ela acredita que o setor privado é pesado e cheio de cobranças. “Todos os dias, quando pego o ônibus de Santa Maria para o cursinho, escuto as pessoas reclamarem. Todo mundo está estressado com a rotina”, comenta.


» Todas as classes

O sonho de conseguir uma vaga no serviço público não é privilégio somente dos mais abastados. De acordo com os diretores de cursinhos do Distrito Federal, pessoas das classes A, B, C e D enchem as salas de aula atrás de uma vaga no setor. Eles reconhecem, no entanto, que a classe B é a mais presente. “Mas temos muitos alunos de renda inferior. São jovens que precisam de uma alternativa e que, por isso, são muito competitivos. A necessidade é um grande estímulo”, explica Wilson Granjeiro, dono do Gran Cursos.

 

 

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