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Correio Braziliense

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Os jovens e um som centenário

Grupo musical fundado em 13 de maio de 1890, o mais antigo de Goiás, atrai cada vez mais crianças e adolescentes de Corumbá, cidade com 10 mil habitantes, a 130km de Brasília

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postado em 22/01/2014 10:09

Renato Alves

Dos 50 integrantes da Corporação Musical 13 de Maio, 40 têm menos de 18 anos: os mais velhos ensinam os mais novos (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press ) 
Dos 50 integrantes da Corporação Musical 13 de Maio, 40 têm menos de 18 anos: os mais velhos ensinam os mais novos


Para a juventude de Corumbá (GO), dar um rolezinho é se juntar para tocar instrumentos em uma daquelas bandinhas típicas do interior que se apresentam no coreto da pracinha. Aos 123 anos, a Corporação Musical 13 de Maio, a mais antiga do gênero na ativa em Goiás, nunca teve tantos adolescentes, principalmente meninas. Dos 50 integrantes, 40 têm menos de 18 anos. Na escola mantida pela agremiação com intuito de formar músicos, os 80 alunos estão entre 10 e 16 anos. E há outros 80 à espera de vaga. Tudo graças à dedicação dos mais velhos, que driblam adversidades para manter a tradição.

Em uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, onde o centro conserva ruas de pedras e casarões centenários em estilo colonial, são poucas as opções de lazer para a juventude. Por isso, virou moda aprender um instrumento e vestir os uniformes da banda centenária. Mesmo sem receber nada pelo ofício, que inclui ensaios de segunda a sexta-feira e apresentações públicas muito cedo e até nas noites de fim de semana, inclusive embaixo de sol forte e chuva. Na 13 de Maio, todos são voluntários, à exceção do maestro. A corporação recebe um repasse pífio da prefeitura e míseros cachês.

Até os anos 1970, quase toda cidade goiana tinha uma banda. As poucas que sobreviveram de lá para cá tocam de quase tudo para agradar ao público. Entre os variados instrumentos, a maioria de sopro, só não há vocal. Com tantos jovens, a Corporação Musical 13 de Maio tem investido cada vez mais nos hits do momento. Entre os acordes tradicionais, que vão do dobrado à marcha, o grupo entoa sucessos atuais da MPB e até alguns do pop internacional, em apresentações nos eventos religiosos e culturais da cidade distante 130km de Brasília e vizinha da também histórica e goiana Pirenópolis.

Pedidos dos pais

Sem dinheiro e sem interessados em ingressar no grupo, a 13 de Maio também esteve perto do fim diversas vezes. A última, há quatro anos, quando sua escola de formação musical contava com apenas 10 alunos. Um dos responsáveis pela guinada da corporação é o maestro, Dênis Pereira Cirino, 23 anos. “Se a gente não formasse mais músicos, a banda acabaria. Assim, comecei a convidar a meninada a aprender um instrumento musical. E sabe como é adolescente: o que um faz o outro quer fazer também. Dessa forma, a banda virou moda”, conta o rapaz.

Apesar da pouca idade, Dênis tem muita experiência. Começou a tocar na banda aos 15 anos, por influência de um tio, integrante da agremiação. Dominado o trombone, Dênis passou a ensinar o instrumento a outros jovens e, em 2009, assumiu a função de maestro. Respeitado, ele é muito procurado por pais de adolescentes de Corumbá. “Muitos pedem e até imploram para eu arrumar uma vaga para o filho na escola de música. Temem que, sem uma atividade, na rua, o filho se envolva em coisa ruim. Sabem que a música acalma qualquer um”, comenta o maestro.

Disciplina e vaidade

A banda de Corumbá atrai ouvidos e olhares. A cada evento, as jovens músicas da banda investem pesado no visual. Dentro da disciplina rígida do grupo, que impõe uniforme e cumprimento de horários, muitas fazem questão de se apresentar com a melhor calça jeans e o mais novo calçado. Afinal, são meninas, como Ariela Amâncio, 16 anos, que há três anos conheceram a clarineta na escola de música da corporação. “Depois que conheci a música, senti uma liberdade enorme e aprendi a lidar com o público. Perdi toda a minha timidez”, ressalta ela, que, depois de um tempo só estudando, foi aceita na banda.

Também clarinetista, Dayanne Gomes, 14 anos, entrou para a banda em 2010, a pedido da avó. “Ela vivia dizendo para eu aprender a tocar algum instrumento e desfilar com a banda. Achava lindo. Vim para satisfazê-la, e não me arrependo. A banda é o meu melhor passatempo”, conta a garota, hoje maior orgulho da avó, de 96 anos. Desinibida, Dayanne se maquia e dá um bom trato nos cabelos antes de cada apresentação da 13 de Maio.

Comunidade envolvida

Representantes de todas as classes sociais integram a Corporação Musical 13 de Maio, composta ainda por senhores de cabelos brancos, que costumam tocar seus instrumentos de forma branda sobre o coreto da pracinha. E são eles, principalmente, que ajudam o conjunto a atravessar crises, pois propagam o amor à musica e à tradição. “A 13 de Maio sobrevive porque é uma banda da comunidade”, destaca o presidente do conjunto, Cristiano Rodrigues Ferreira, 27 anos, músico profissional da Prefeitura de Anápolis (GO) e assessor da Câmara Municipal de Corumbá.

As aulas dadas pelos músicos mais antigos da corporação — de segunda a sexta-feira — são gratuitas. Para manter a sede e os instrumentos, a agremiação recebe um auxílio mensal de R$ 3,1 mil da Prefeitura de Corumbá. Parte da verba ainda é destinada ao pagamento do maestro. A outra fonte de renda são as apresentações públicas, em que o cachê não passa de R$ 800. Mesmo assim, é comum a banda tocar de graça em festas da Igreja Católica. Nesse cenário, a 13 de Maio não tem um instrumento profissional. Alunos dividem o mesmo equipamento durante as aulas.

Crises corriqueiras

A banda teve as atividades interrompidas em diversas oportunidades, principalmente por morte de líderes, o que abalou os demais integrantes, mas, logo, os ensaios e as apresentações eram retomadas. No entanto, entre 1954 e 1958, oito dos principais componentes deixaram o grupo, ficando só oito músicos. Com isso, a escola de música fechou.


As amigas Dayanne Gomes, 14 anos, e Ariela Amâncio, 16, tocam clarineta (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press ) 
As amigas Dayanne Gomes, 14 anos, e Ariela Amâncio, 16, tocam clarineta


Linha do tempo

1749
Uma banda de música festeja a Capitania de Goiás com uma passeata pelas ruas do Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia. Não há registros de outra banda na capitania no restante do período colonial.

1830
Criada, em Meia Ponte (Pirenópolis), a segunda banda de Goiás, incorporada em 18 de agosto de 1831 à Guarda Nacional, tornando-se a primeira banda militar goiana.

1866
Surge, em Corumbá, a União Corumbaense, primeira banda de música política de Goiás. Ligada ao Partido Conservador, mudou o nome para 14 de Julho, em homenagem à queda da Bastilha, na França.

1889
Com a chegada da notícia da Proclamação da República a Corumbá, em 15 de dezembro — com um mês de atraso —,
a 14 de Julho desfila pelas ruas de Corumbá executando a Marselhesa.

1890
Financiada pelo Partido Liberal, surge uma nova banda em Corumbá, que faz a primeira apresentação pelas ruas da então vila em 13 de maio, data que dá nome ao conjunto.

1907
Chega ao fim a União Corumbaense. Por 17 anos, Corumbá teve duas bandas, que competiam acirradamente, elevando o nível de seus músicos.

1976
Maria Goretti Curado Telles é a primeira mulher a ingressar
na 13 de Maio.

1977
A banda aparece em um programa de tevê transmitido para todo o Brasil, representando Goiás em um concurso nacional de bandas. Com composições próprias, fica em primeiro lugar.


Para saber mais

Casarões e cachoeiras

Fundada em 1730, Corumbá de Goiás conserva seus traços coloniais nos casarões e sobrados, construídos pelos bandeirantes em busca de ouro. O rio Corumbá com suas águas claras e suas inúmeras cachoeiras é ideal para a prática de canoagem. O Salto de Corumbá é uma das grandes atrações turísticas, pela sua beleza selvagem e natural. Próximo à cidade, outros locais que merecem ser visitados são as cachoeiras.
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