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TECNOLOGIA

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Pesquisadores chineses criam papel que aceita impressão à base de água pura, sem o uso de tinta. Dessa forma, as letras e figuras gravadas evaporam depois de algumas horas, permitindo que a folha seja reutilizada dezenas de vezes

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postado em 29/01/2014 16:00

Roberta Machado


 


Mesmo com tablets, smartphones e laptops, a boa e velha impressora ainda resiste bravamente em muitos ambientes de trabalho. Como uma afronta ao mundo digital, o equipamento é a esperança dos que não gostam de ler em telas iluminadas e sentem a necessidade de manusear os textos. Um conforto que tem seu preço. Cada documento materializado para memorandos ou reuniões faz crescer no lixo o tamanho das pilhas de papel de vida útil curta, manchadas pela tinta comprada a preço de ouro.

A tecnologia vem ao socorro desse meio analógico. Um grupo de pesquisadores da Universidade Jilin, na China, acredita ter encontrado a solução para o problema de gasto de tinta e papel em escritórios, graças a uma técnica que permite que a mesma folha seja usada dezenas de vezes. Usando nada mais que água no lugar de tinta, os cientistas conseguiram criar uma impressão com prazo de validade. Quando o líquido entra em contato com o papel quimicamente tratado, as letras e figuras programadas na impressora surgem como se tivessem sido gravadas com pigmento colorido. Depois de algumas horas, a folha volta a ficar em branco, como se alguém tivesse passado sobre ela uma borracha mágica. O papel pode, então, ser usado novamente, em outra impressão provisória.

A técnica foi testada 50 vezes em uma mesma folha, sem perda de qualidade na impressão, o que pode levar a uma economia, segundo os autores do trabalho, de 99% dos gastos com esse tipo de serviço em empresas. De acordo com os criadores do papel reutilizável, 40% das resmas usadas em um escritório são jogadas fora um dia depois de serem usadas.

Pigmentos
O segredo por trás das letras que desaparecem está no nível molecular e é explicado na edição de hoje da publicação especializada Nature Communications. O papel criado pelos chineses é tratado com substâncias hidrocrômicas, que mudam de cor com a água. Quando está seco, o produto químico não é visível aos olhos. Mas, quando é exposto ao líquido, revela sua verdadeira cor, que surge no papel como tinta. “Usamos uma nova classe de ‘interruptores’ molecurares para a nossa impressão. Os pigmentos que usamos têm duas estruturas moleculares mutáveis, uma na forma de cor, que prefere água, e outra na forma incolor, que prefere um ambiente seco”, explica Sean Xiao-An Zhang, professor de química da Universidade Jilin e principal autor da pesquisa. E a reação tem duração limitada: quando a água evapora, o processo é revertido, e a cor vai embora.

As substâncias desenvolvidas em laboratório foram projetadas com um tipo de interruptor químico, que se abre na presença de água e volta a se fechar na falta de umidade. “Na ausência de água, a molécula impregnada no papel não produz cor, mas, quando a água está presente, a molécula apresenta uma determinada coloração devido à alteração em sua estrutura molecular”, esclarece Alexandre Fonseca, professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB). De acordo com o especialista, que não participou da pesquisa, moléculas com diferentes grupos orgânicos podem produzir cores diferentes na presença de água. “E a quantidade de líquido utilizada pode aumentar a intensidade daquela cor, favorecendo sua aplicação nas impressoras à base de água”, acrescenta Fonseca.

Zhang e sua equipe foram capazes de desenvolver quatro fórmulas diferentes, que podem ser usadas para impressões nas cores azul, magenta, amarelo e roxo. No entanto, como o pigmento está no próprio papel e não na água depositada pela impressora, só é possível imprimir imagens de uma cor por vez. O resultado é similar ao da impressão em preto e branco, mas sem os tons intermediários de cinza. As letras e formas, contudo, são legíveis e têm resolução comparável à de uma impressão comum. “Podemos certamente fazer as impressões em cores mais escuras ou até mesmo preto, usando mais corantes e misturando diferentes cores”, ressalta o químico.

Quase um dia
A impressão dura até 22 horas. Depois desse intervalo, o pigmento começa a perder a definição e a legibilidade. Para acelerar o processo do sumiço das cores, basta aquecer o documento. A equipe atestou a validade do papel reutilizável por cinco meses, mas continua testando a durabilidade do efeito da cobertura de polímero tratado com os pigmentos mutantes. Os criadores afirmam que o tratamento químico, que é atóxico, não impede que o papel seja reciclado ou se decomponha na natureza naturalmente.

Os pesquisadores também mostraram que o papel especial pode ser usado para anotações manuais de duração curta. Bastaria usar uma caneta carregada de água para escrever normalmente e aguardar o sumiço da caligrafia para usar o papel novamente. A ideia não serviria para escrever um lembrete para o dia seguinte, já que, até lá, a mensagem terá sumido. Mas serviria como um bloco de anotações de uma folha só, que nunca terminaria.

Os responsáveis pelo invento ainda trabalham para aprimorar a técnica e, atualmente, pesquisam novas substâncias químicas para a impressão em outros tons, inclusive uma que seja totalmente em cores. A ideia também está à espera de investidores, que se interessem em levar essa tecnologia para o mercado.

Escreve e apaga

Existem outras pesquisas que tentam criar um papel reutilizável. Em Taiwan, cientistas usaram um material preto com uma cobertura transparente que pode ser alterada com água. O líquido pode fazer o fundo escuro desaparecer em um tipo de escrita negativa e depois voltar ao
estado inicial. No Japão, a estratégia escolhida foi usar um corante sensível ao calor. O papel tratado com essa substância muda de cor de acordo com a temperatura, o que só pode ser feito com uma impressora especial.
Norte-americanos criaram duas tecnologias diferentes: uma cobertura gelatinosa de microesferas pretas e brancas que rodam sobre o papel para revelar o desenho impresso e um display de tinta digital.
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