Ciência

Homens e macacos têm cérebros quase iguais

Análise do córtex pré-frontal de pessoas e chimpanzés mostra que a região funciona de forma muito semelhante nas duas espécies, exceto em uma área relacionada à tomada de decisões e à execução de várias tarefas simultaneamente

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postado em 29/01/2014 16:00

Paloma Oliveto


 


Há tantas semelhanças genéticas e comportamentais que, às vezes, assusta. Na região cerebral responsável por pensamentos complexos e pela linguagem, por pouco o ser humano não é idêntico aos macacos, seus primos mais próximos na escala evolutiva. Um estudo da Universidade de Oxford que investigou os padrões de 12 redes de neurônios em homens e outros primatas constatou que em 11 delas quase não existem diferenças. Contudo, a atividade de uma área específica parece exclusiva do Homo sapiens. Trata-se da parte responsável por duas características que, tudo indica, são unicamente humanas: o planejamento estratégico para tomada de decisões e a capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo.

“Essas comparações são muito importantes porque, quanto mais compreendemos a mente animal, mais entendemos sobre nós mesmos”, afirma Franz-Xaver Neubert, neuropsicólogo da Universidade de Oxford e principal autor do estudo. Há mais de uma década, Neubert investiga a forma como os neurônios relacionados a funções cognitivas e de linguagem se comportam nos primatas e, segundo ele, é impressionante como há poucas variações. “O perfil de conectividade dos neurônios é basicamente similar em homens e macacos, com algumas diferenças discretas”, afirma.

Com isso, algumas questões evolutivas começam a ser respondidas, segundo o neurocientista. Uma delas é a teoria da mente, ou a habilidade humana de inferir os pensamentos e as crenças dos outros. Experiências comportamentais jamais conseguiram comprovar que os outros primatas compartilham essa capacidade que, entre outras coisas, está relacionada à empatia. Por isso, acredita-se que essa é uma característica unicamente humana. A equipe de Neubert, contudo, conseguiu mostrar que áreas cerebrais associadas com o processamento de rostos e de outros estímulos sociais se ativam de maneira semelhante em homens em macacos. “Algumas teorias dão conta de que essa habilidade começou a se desenvolver apenas quando o ancestral das espécies já havia se diversificado. Mas nossos resultados mostram que esse processo já existia no precursor comum”, exemplifica.

A área do cérebro que interessa a pesquisa de Neubert é a região ventrolateral do córtex pré-frontal (veja infografia ao lado), onde ocorrem as comunicações neuronais envolvidas na maior parte das funções sofisticadas de cognição e linguagem. Estudos de imagem indicam que apenas os primatas possuem essa estrutura anatômica, que também está associada a problemas psiquiátricos, como dependência química e compulsão. Derrames e doenças  que afetam essa região resultam em problemas de fala e compreensão oral e escrita, por isso sabe-se que ela tem importância  para a linguagem. “Com o aumento de casos de AVC e da incidência de males como o Alzheimer, estudar a região é básico se quisermos encontrar boas terapias”, diz Neubert, ressaltando outro potencial de seu estudo.

Escolhas complexas
Imagens da atividade cerebral de humanos e de animais mapeadas por um exame de ressonância magnética indicaram que 90% da comunicação dos neurônios na região ventrolateral acontece da mesma maneira, independentemente da espécie. No entanto, uma pequena área, o polo do córtex pré-frontal, é o que faz homens e macacos diferentes, em relação à organização das redes neuronais dessa região. Etienne Koechlin, pesquisador do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica da Universidade Pierre e Marie Curie, de Paris, explica que essa é a área que mais evoluiu no cérebro humano. “Aparentemente, não há nada análogo em macacos”, diz o neurocientista, que estuda o processo de tomadas de decisão.

Segundo Koechlin, embora outros primatas e até insetos façam escolhas, aparentemente apenas o homem tem habilidade para decidir de forma complexa. “Antes de agir, pensamos, planejamos o próximo passo, buscamos referências, analisamos a situação. Inclusive, aprendemos errando e observando os outros. Essa forma de agir não encontra precedentes na natureza, até onde sabemos”, destaca. “O conhecimento desse fato condiz com o resultado do estudo de Franz-Xaver Neubert”, observa o pesquisador. Agora, a equipe de Oxford pretende aprofundar a descoberta, realizando exames de imagem cerebral em um número maior de participantes humanos e animais.
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