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Popularização dos smartphones e do acesso permanente à internet cria geração que não consegue ficar longe da rede. A maior procura é pelas novidades das redes sociais

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postado em 04/02/2014 10:44 / atualizado em 04/02/2014 10:48

Maryna Lacerda

Ana Rayssa
Para muitos, a vida pulsa no compasso das notificações que o smartphone recebe. Enquanto a tela pisca e mais um símbolo de aplicativo se enfileira no display, o usuário desempenha as suas atividades diárias. Com um olho no aparelho e outro no trabalho ou no estudo, ele trava uma luta para manter a produtividade e não se render às tentações dos compartilhamentos ou do grupo de bate-papo instantâneo. Há quem participe dessa disputa até enquanto dirige. A conexão permanente — facilitada pelos celulares com acesso à rede — já altera hábitos e modifica as relações sociais. Tanto que o termo vício tornou-se comum para definir as repetitivas conferências de postagem. Para alguns, pode se tratar, de fato, de uma patologia. Aos casos comuns, bastam algumas mudanças de hábito para evitar que o tempo, literalmente, escorra pelas mãos.

Uma das etapas desta tomada de consciência é voltar à proposta inicial da tecnologia — a de agilizar tarefas para que se tenha mais tempo para se dedicar ao que realmente importa —, defende Pedro Burgos, 33 anos, autor de Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável. Segundo Burgos, “ficamos com a impressão de que tudo precisa ser visto e respondido no momento seguinte ao que recebemos um e-mail ou uma mensagem. A internet traz esse senso de urgência, mas acredito que, em 90% dos casos, podemos esperar até algumas horas para darmos o retorno”, acredita. Para ele, o próprio recurso de receber todos os avisos de atualização em redes sociais, por exemplo, causa esse problema. “As notificações fazem com que voltemos muito ao celular para conferir o que mudou”, afirma.

Iano Andrade

As conferências constantes colaboraram para que a estudante Cleidiane Lima Franco, 21 anos, se tornasse menos concentrada, na avaliação dela. “Tenho smartphone há três anos e sinto que estou mais ansiosa e dispersa. A todo momento, chegam avisos e, se eu não me controlar, fico horas só acompanhando as atualizações”, brinca. As informações pessoais e profissionais dela — e da maioria dos usuários deste tipo de aparelho — estão guardadas naquela caixinha de plástico e eletrodos. “Nele, eu armazeno tudo, as minhas fotos de viagem, os meus dados bancários, o histórico de atividade em redes sociais. Acho que o fato de a quantidade de gigas disponíveis na memória dos aparelhos só aumentar reforça essa dependência em relação ao celular. É muito prático”, avalia a jovem.

Exposição constante

Já para o empresário Denny Guimarães, 33 anos, o básico é feito com o celular a tiracolo. Assim que acorda e quando vai dormir, estende a mão em direção ao aparelho e do deslizar dos dedos pela tela. “A primeira e a última coisa que faço no dia é verificar as notificações em redes sociais”, afirma. O hábito é tal que ele não abandona o aparelho nem sequer quando está de férias. “Quando vou à praia e a bateria descarrega, peço para deixar carregando no quiosque, em um cantinho da barraca”, conta. Segundo ele, as belas paisagens que visitam são o mote das publicações. “Aproveito para publicar fotos dos lugares em que estou, fazer check-in dos restaurantes que visito. Quando as pessoas viajam, gosto de ver o que elas postam, porque viajo junto. Acredito que há outras pessoas que também pensam assim.”

Se a bateria acaba ou o serviço de 3G falha, Denny é logo tomado por uma sensação de ausência. “É como se estivesse faltando algo. Para evitar isso, penso em comprar uma bateria extra para colocar quando o aparelho descarregar”, explica. Para o empresário, que já recebeu o apelido de “garoto Facebook” por estar on-line mesmo em uma mesa de bar com os amigos, o fascínio que os perfis sociais exercem se dá pela curiosidade natural em relação à vida dos outros. “É muito atraente. A gente gosta de ver as coisas pessoais dos outros e mostrar as nossas”, define.

 

Três perguntas para Pedro Burgos

O que te motivou a escrever Conecte-se ao que importa:  um manual para a vida digital saudável?
Eu estava em um momento muito estressante da vida como jornalista de veículo on-line, sempre conectado. Deixava ligadas todas as notificações de redes sociais e achava que tinha que estar sempre muito informado, ler sobre tudo. A questão é que, quando a gente se informa sobre muita coisa, não consegue aprofundar em nada. Nas minhas férias, fui ao deserto do Atacama, na fronteira do Chile com o Peru, e entendi que precisava de momentos de desconexão. Lá, aproveitei para ficar em silêncio, ler artigos sobre comportamento e gratuidade na internet e percebi que precisava mudar os meus hábitos.

Há alguma faixa etária mais  propensa à conexão fulltime?
Achava que seriam mais os jovens, mas comecei a ver que o comportamento obsessivo com a internet não tem idade. Para cada grupo de idade, há um tipo de aprendizado. Pessoas mais velhas, por exemplo, são estaticamente mais propensas a cair em golpes virtuais e ao vício em joguinhos, como Candy Crush.

Esse comportamento obsessivo é fruto de falta de educação  ou de preparo para lidar com os recursos que a internet  e os dispositivos móveis oferecem?
É complicado dizer, porque é tudo muito novo. Não cabe um julgamento, até porque ainda estamos muito deslumbrados com a tecnologia. Não gosto de tratar esse modo de lidar com ela como sendo um vício, pois dá ideia de falta de controle. A definição que mais gosto é aquela que se refere ao que você deixa de fazer por determinado fator, não pelo que você faz. Acho que uma forma de resolver isso é conhecer os limites do meio que você está usando. Não se consegue absolutamente tudo por meio da internet. 

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