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Mais do que uma ideia brilhante

A partir do conceito de inovação consciente, cofundador da consultoria Mandalah ajuda empresas no mundo todo a pensarem produtos e ações que possam transformar a vida das pessoas

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postado em 10/02/2014 10:52 / atualizado em 10/02/2014 10:58

Formado em relações internacionais e em ciência política na Universidade da Pensilvânia, o brasileiro Lourenço Bustani tornou-se um especialista em “pensar fora da caixa”. E isso não significa apenas ter ideias novas, mas também propor maneiras para que elas tenham algum impacto, seja na sociedade, seja entre os colaboradores das empresas. “Não tem uma ciência por trás disso, tem simplesmente uma reflexão, de que eu sou porque nós somos, logo, o seu bem-estar está ligado ao meu e vice-versa. Se eu quiser que uma empresa seja bem-sucedida, tenho que garantir que, ao longo do caminho, ninguém se prejudique”, detalha. A partir desse princípio, ele construiu, com a equipe da consultoria Mandalah, da qual é cofundador e CEO global, o conceito de inovação consciente. Filho de diplomatas, nasceu e foi criado fora do país, mas mora há 10 anos no Brasil, três deles em Brasília. Em 2012, foi eleito uma das 100 pessoas mais criativas do mundo pela revista Fast Company. Hoje, a consultoria, com sede em São Paulo, tem escritórios no Rio de Janeiro, em Berlim, na Cidade do México, em Nova York e em Tóquio. Nesse período, ajudou a GM a pensar o futuro da mobilidade em grandes cidades, como São Paulo, e contribui para as ações da Nike na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Em entrevista ao Correio, Lourenço fala sobre o conceito de inovação consciente. Ele estará em Brasília em 18 feveriero para ministrar palestra sobre o tema no auditório do jornal.

O que significa inovação consciente?
Há alguns anos, a palavra inovação vem circulando em todos os setores do mercado. Mas, num determinado momento, nós paramos e nos perguntamos: ‘o que é inovação para a Mandalah?’. Vimos que, para nós, uma ideia só é inovadora se ela melhora a vida das pessoas, caso contrário ela é apenas uma novidade. Achamos que as novidades que não mudam nossos contextos para que eles se tornem mais favoráveis não são novidades que vão se sustentar ao longo do tempo. Essa ideia de que a inovação precisa ser qualificada é o que nos levou à inovação consciente. Numa leitura de mercado, acreditamos que a inovação consciente nasce na intersecção entre lucro e propósito. Se você estiver inovando simplesmente motivado pelo dinheiro, talvez até chegue ao mercado com alguma coisa que venda, mas ela só estará a serviço de metas financeiras. Entretanto, quando você começa a pensar como esse produto ou serviço vai mudar a vida das pessoas, está trazendo consciência para o processo criativo: está fazendo uma coisa que trará dinheiro para o acionista, o que é fundamental, mas deixará um legado positivo na vida das pessoas, o que também é fundamental. E nós acreditamos que o setor privado carrega o ônus de conseguir entender o que ele representa, além do comércio que ele gera, devido ao papel das empresas na sociedade. Elas empregam muita gente, extraem recursos do meio ambiente — em maior ou menor grau — e formam cultura. Tudo isso vem com responsabilidade.

Esse conceito tem a ver com sustentabilidade?

Não usei essa palavra no meu discurso porque ela se diluiu muito, ficou muito banalizada. Mas a sustentabilidade, na sua essência, significa a perpetuação de alguma coisa. Aqui, estamos falando da perpetuação dos negócios. O nosso ponto de vista é de que as coisas só vão se perpetuar a partir do momento em que elas forem benéficas para todos. Então, é claro que estou falando em sustentabilidade, mas ela não é auxiliar ao meu discurso, ela é meu ponto de partida.

Como a Mandalah ajuda as organizações a desenvolverem essa proposta?

Em primeiro lugar, é fundamental estarmos conectados e sintonizados com o mundo em que vivemos. Quem trabalha na Mandalah tem uma sensibilidade cultural bastante apurada. São pessoas que estão viajando e mergulhando em universos um pouco diferentes dos que estão acostumadas, ampliando a visão, aumentando o repertório. Pessoas que estão, portanto, despertadas. A segunda coisa é trazer para as empresas um olhar sistêmico a respeito da atuação delas. É como dar um zoom out (ampliar a visão) e começar a enxergar esferas de influência de uma determinada empresa. Nós mostramos que as atividades daquela instituição têm um alcance muito maior do que os executivos imaginavam, cada decisão desencadeia um sistema de conexões que essa empresa tem com o ecossistema ao qual ela pertence, que é composto por uma série de stakeholders — todo mundo direta ou indiretamente envolvido com o negócio — e não só shareholders — os acionistas. Uma vez que conseguimos enxergar os pontos de contato dessa empresa dentro desse ecossistema, começamos a estabelecer diálogos com pessoas que até então não conversavam com a instituição e começamos a entender os anseios e as necessidades até então não atendidas, para criar uma agenda compartilhada entre todos.

Qual o benefício desse tipo de visão para quem é funcionário?
Quando você traz propósito para aquilo que faz, tudo ganha outra dimensão. Eu acho que há muitos profissionais no mercado que não sabem muito bem porque se sacrificam tanto por uma empresa que talvez não compartilhe sua visão de mundo, muito menos seus valores. Acho que é isso o que pode de fato projetar o profissional para o futuro, porque, nessa reflexão você acaba descobrindo melhor o que quer fazer para a vida, com que tipo de profissional quer trabalhar. É um grande orientador para a vida, que te permite estabelecer metas e orientar as decisões futuras também. Isso tem um reflexo imediato na produtividade, porque a pessoa trabalha com algo que ela realmente acredita.

Existe algum país que tenha avançado mais no desenvolvimento e na expansão desse conceito?
Existem berços desse pensamento mais progressista na Califórnia, na Inglaterra, em Nova Iorque e nas costas Leste e Oeste dos Estados Unidos. É possível ver vários movimentos hoje em dia em torno desse tema de consciência nos negócio, investimento de impacto, pessoas questionando como a atividade econômica pode estar a serviço de algum impacto social. Existem empresas e profissionais autônomos que estão surfando a mesma onda. Eles realmente acreditam que o futuro dos negócios está em entender como eles podem estar a favor de todos e não a favor de alguns.

Ele pode ser usado pelo governo?
Claro que sim, a grande arte do governo é conseguir articular o diálogo entre sociedade civil, o próprio governo e o setor privado. O que é isso na sua essência? É valor compartilhado: como a gente consegue alinhar as políticas públicas com os incentivos do setor privado e os interesses da sociedade civil para que todos ganhem. Então, é a mesma mentalidade do setor privado, que é o canal pelo qual estamos semeando esse pensamento. Mas, muito em breve, vamos abrir um braço da Mandalah voltado ao desenho de políticas públicas para a sociedade civil, cidadãos, pretendentes a governantes ou governantes.

Anote
Em 18 de fevereiro, Lourenço Bustani ministrará a palestra Inovação consciente — Lucro, cidadania e felicidade. O evento é gratuito e ocorrerá às 19h, no auditório do Correio Braziliense. Todas vagas foram preenchidas, mas quem tiver interesse em participar pode colocar o nome na lista de espera, pelo site tercadainovacao.eventbrite.pt.

Brasil dá os primeiros passos

Renato, Julio, Flavio e Rafael abriram uma empresa com foco em inovação (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press ) 
Renato, Julio, Flavio e Rafael abriram uma empresa com foco em inovação

A inovação ainda não é regra nas empresas brasileiras. Poucas perceberam o diferencial competitivo que ela representa e tomaram a atitude de adotar processos inovadores: 98,9% dos empreendimentos iniciais no país lida com conhecimentos que ninguém considera novo, de acordo com dados do estudo Global Entrepreunership Monitor, de 2012.

“O processo de inovação no Brasil ainda está em aprendizado. Temos dificuldade em tomar riscos, e inovação é isso, buscar uma nova forma de fazer. Nem sempre você acerta na primeira vez”, afirma Marcos Nascimento, presidente do instituto Illuminante, responsável pela palestra do CEO da Mandalah, Lourenço Bustani, em Brasília. O especialista destaca que o preço dos erros no país ainda é muito alto, por isso as empresas brasileiras inovam menos.  

Na Natura, a inovação está na essência do negócio e alcança todos os funcionários, segundo o vice-presidente da área, Gerson Pinto. “A inovação é o nosso modelo comercial e nosso lema de gestão. Ela não pode se dar apenas em uma área, tem que permear todas elas.” A empresa foi considerada uma das 10 mais inovadoras do mundo na lista da revista norte-americana Forbes divulgada no ano passado.

Para que toda a cadeia de produção da organização funcione dessa forma, alguns pilares são importantes, como a relação entre consultor e cliente, o contato com universidades, fornecedores e centros de pesquisa, a parceria com o governo e com agências de fomento, a motivação dos funcionários e a presença física — a empresa tem centros de inovação em Cajamar (SP), Manaus, Pará e Nova York. Em 2012, a Natura investiu R$ 158,9 milhões em inovação, o que representa 2,6% da receita líquida no mesmo ano. “O Brasil tem avançado bastante. Há várias ações de incentivo, agências de fomento e a abertura das universidades é cada vez maior. Mas ainda temos um caminho grande pela frente, precisamos desonerar e dar mais velocidade ao processo de inovação”, avalia o vice-presidente.

Exemplo na capital
Em 2009, Flavio Ludgero e outros três sócios, Julio Protzek, Rafael Torales e Renato Carvalho, perceberam que havia empresas ao redor do mundo fazendo negócios de maneira diferente. Dois conceitos usados por elas chamaram a atenção dos jovens empresários, o design thinking (leia a Palavra de especialista) e o lean — modelo criado pela montadora Toyota que evita desperdícios e desenvolve ciclos de aprendizagem mais curtos. Misturando as duas abordagens e com foco no design de serviços, eles criaram a Startaê, em 2011, empresa que presta consultoria para outras organizações interessadas em inovar.

Hoje, eles atendem startups que estão consolidadas no mercado e grandes empresas. O trabalho leva em consideração três pontos principais: o desejo das pessoas envolvidas e a viabilidade técnica e financeira da ideia. “Normalmente, a expectativa do cliente é financeira, mas, no meio do caminho, ela muda. Os projetos de inovação costumam começar pelas pessoas, o que inverte o modelo de outras consultorias”, explica Flavio. Agora, o objetivo dos empresários é difundir esse conceito no setor público, principal mercado de Brasília. (MN)

Palavra de especialista
Do presidente ao faxineiro

Design thinking não é um conceito novo. O primeiro uso é dos anos 1980. Essa abordagem centra o processo de inovação na participação dos vários atores presentes. Ele não se aplica exclusivamente ao design de produtos, de serviços ou de negócios, é uma forma de projetar: pensar não apenas a inovação como algo novo, mas algo novo que agregue alguma coisa para pessoas no mundo real. Ela costuma tratar problemas complexos, como o aquecimento global e o trânsito. O cenário no Brasil é bem heterogêneo. As grandes empresas já sabem que a inovação é o diferencial. Algumas realizam isso de forma muito tradicional, outras já criam gerências de inovação. As médias empresas, em geral, têm uma cultura muito hierárquica, que vai contra toda essa abordagem. Em projetos de inovação, o ideal é trazer o presidente e o faxineiro a um ambiente onde todos se sintam à vontade para contribuir.


Heloisa Moura, doutora em design pelo Instituto de Tecnologia de Illinois, nos Estados Unidos

 

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