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Pesquisa norte-americana feita com ratos indica que a empatia é determinada pelo convívio social

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postado em 12/02/2014 16:00 / atualizado em 12/02/2014 09:19

Roberta Machado

Para tomar as dores do outro, basta conhecê-lo. Ou, ao menos, conhecer alguém igual a ele. É o que sugere uma pesquisa norte-americana publicada recentemente no site especializado eLife. Com a ajuda de ratos de laboratório, a neurobióloga Inbal Bartal, da Universidade de Chicago (EUA), conseguiu provar que os bichos se mostram mais suscetíveis a ajudar outros de linhagens diferentes depois de terem vivido com animais daquele mesmo tipo. O resultado indica que o desenvolvimento da empatia no mundo animal pode acontecer independentemente da genética: a convivência estimula o comportamento pró-social em relação a quem é diferente.

Em estudo anterior, Bartal havia achado sinais de empatia em ratos, depois que colocou duplas desses bichos dentro de um mesmo espaço. Enquanto um roedor podia explorar o espaço, o outro permanecia limitado a um estreito tubo transparente. Logo o animal solto se dedicava a livrar o companheiro do confinamento, o que só podia ser feito por um mecanismo do lado de fora do tubo. Nessa primeira experiência, foram necessários cinco dias para que os ratos aprendessem a libertar os colegas. Depois disso, sempre que a situação se repetia, a vítima de confinamento era logo solta.

Desta vez, a pesquisadora quis descobrir se o ato de solidariedade estava relacionado com a similaridade genética. Depois de repetir o experimento do rato branco libertando um desconhecido parecido com ele, Bartal refez o processo com um animal de mancha preta preso no tubo. A maioria dos bichos submetidos à experiência, que nunca tinham visto um roedor que não fosse albino como eles, deixou a outra cobaia encarcerada na prisão transparente. Isso poderia corroborar a teoria da origem genética da empatia, não fosse pela segunda rodada de experimentos da pesquisa.

Na parte seguinte do trabalho, os ratos brancos passaram uma temporada com um companheiro manchado. Depois de duas semanas, ao ver outro bicho com o pelo preto e branco (padrão que já lhe parecia familiar), a cobaia logo abriu o tubo que torturava o animal. “Eles circulavam muito o tubo, o que mostra um padrão de comportamento típico da preocupação empática. Eles mordiam o recipiente, cavavam sob ele, se comunicavam com o rato preso tentando libertá-lo”, conta Inbal Bartal.

No fim, a pesquisadora decidiu utilizar ratos albinos que haviam crescido cercado somente de roedores de mancha preta. Quando ele finalmente encontrou o primeiro roedor branco de sua vida, ele estava dentro da prisão cilíndrica. Nesse caso, o tubo permaneceu intocado pela maioria das cobaias albinas: o bicho preso, apesar de geneticamente semelhante, parecia um estranho. Isso sugere, de acordo com Bartal, que os animais não precisam conhecer um indivíduo para demonstrar empatia — é necessário somente que a linhagem do bicho em questão seja familiar.

Experiência emocional
Os resultados adicionam mais uma peça ao debate sobre a origem da empatia. O comportamento pró-social é considerado por alguns especialistas um fenômeno biologicamente determinado e compartilhado entre todos os mamíferos como um resultado do instinto de sobrevivência. “Isso, de fato, é desencadeado pelas pressões evolutivas. Porque, se você não auxilia membros da sua espécie, ela se extingue”, diz Eliane Falcone, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A complexidade desse sentimento, no entanto, varia de acordo com a inteligência emocional do animal. Um cachorro é capaz de sentir a tristeza do dono, mas nunca poderá se colocar no lugar dele. Para esse tipo de comportamento mais sofisticado, o ser humano recorre à aprendizagem. “A empatia tem predisposição da sobrevivência, mas é claro que nossas experiências e vínculos afetivos têm influência muito grande”, completa Falcone.

Bartal acredita que o experimento é um bom modelo para estudar a influência do convívio social nesse tipo de comportamento. Assim como os roedores familiarizados com uma variedade maior de animais ajudavam mais cobaias, pessoas podem ser motivadas a agir em favor da outra se expostas a diferentes tipos de indivíduos.

No ser humano, a atitude pró-social começa nos primeiros meses de vida. É no desenvolvimento de intimidade com a mãe que a criança cultiva a habilidade de compartilhar o sentimento de outros. O comportamento positivo também é influenciado pelos exemplos dados por adultos, que podem expressar solidariedade na frente da criança. O terceiro principal fator que molda a simpatia de uma pessoa em relação a outros é justamente a socialização desde a infância: ao conhecer o próximo, humanos são capazes não somente de se relacionar com aquele indivíduo, mas também de adquirir maturidade emocional para lidar com novas pessoas no futuro.

“A socialização da criança vai ajudar muito. À medida que ela é colocada diante de pessoas diferentes dela e que ela tenha boas experiências, isso vai colaborar para que tenha uma visão aberta, flexível e liberal dos relacionamentos”, diz Gisele da Silveira, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Uma experiência social diversificada, defende a psicóloga, é fundamental para que um indivíduo cresça livre de preconceitos e de intolerância. “Com isso, ele também tem mais facilidade para aceitar os outros e compreender diferenças, além de perceber o sentimento alheio.”
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