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Música da Estrutural para Águas Lindas

Projeto de formação cultural que começou na cidade do Distrito Federal há 12 anos é estendido ao município goiano. Objetivo é formar instrumentistas que possam dar aulas a outros jovens carentes

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postado em 12/02/2014 10:38

Grupo da Estrutural que vai ensinar música para crianças e adolescentes em Águas Lindas: de alunos a professores (Breno Fortes/CB/D.A Press) 
Grupo da Estrutural que vai ensinar música para crianças e adolescentes em Águas Lindas: de alunos a professores

A cidade de Águas Lindas (GO) é o novo desafio do Instituto Reciclando Sons (IRS), organização não governamental que atua, há 12 anos, na Cidade Estrutural. O grupo de educadores leva o ensino de música para comunidades carentes com o objetivo não só de dar aos alunos uma formação cultural, mas também um meio de ganhar a vida. A ideia é profissionalizar (veja Quadro) aqueles que demonstram talento e interesse pela produção musical e, a longo prazo, fazer dos alunos professores da própria instituição. Em 2013, uma organização beneficente da cidade goiana entrou em contato com o grupo, para que eles levassem o trabalho de assistência para lá. As aulas começam em março e as turmas estão lotadas.

Fundadora do IRS, Rejane Pacheco explica que o método de educação utilizado no instituto parte do princípio de que é necessário adaptar o grupo de professores e a forma de ensinar às necessidades da comunidade que atende. Assim, a experiência em Águas Lindas será diferente do que é feito na região brasiliense. “Nós construímos com a comunidade e para ela. O intuito é que seja uma tecnologia social, queremos ter continuidade no ensino”, explica. Na capital, por exemplo, o projeto começou direcionado a crianças, mas em pouco tempo os pais não quiseram só fazer parte da plateia das apresentações: os adultos começaram a pedir para ter aulas e hoje também são formados no projeto.

Um rapaz de 21 anos será o líder da nova fase em Águas Lindas. Mas o desafio não intimida o instrutor Arthur Douglas Félix dos Anjos. O jovem mora na Cidade Estrutural desde os 2 anos e entrou para o IRS aos 15. À época, ele passava por uma fase difícil: não tinha muita vontade de ir à escola, que era distante de casa, e acabou faltando muitas aulas. No instituto, com a cobrança para que ele continuasse em sala de aula, o jovem conseguiu concluir o ensino médio. Agora, pretende fazer uma faculdade de música e será o coordenador do polo de extensão do IRS em Águas Lindas. “Gosto bastante de dar aula, mais até do que me apresentar. É muito bom passar conhecimentos, e as pessoas têm tempo ocioso que pode ser usado para aprender. Acredito em grandes talentos que vêm da periferia”, afirma.

O projeto teve outras edições em Taguatinga, no Itapoã e no Plano Piloto, e essa estreia no Entorno está sendo aguardada com ansiedade pelos instrutores. Durante o mês, eles fazem cursos de capacitação e de reciclagem dos conhecimentos para poderem chegar afiados à sala de aula. “Isso foi muito planejado. Nosso sonho é ser referência em educação mundial. Para esse projeto, o nosso objetivo é que eles consigam se estabelecer e ser autossuficientes”, planeja Rejane. “Ensinar música clássica a comunidades carentes é uma quebra de paradigmas porque são pessoas excluídas dessa formação. Mas quem está em situação de vulnerabilidade social é quem tem mais tempo ocioso para aprender e estudar. Por isso, dá resultado”, completa.

O líder do projeto na cidade goiana é Arthur Douglas, de apenas 21 anos: %u201CGosto bastante de dar aula, mais até do que me apresentar%u201D (Breno Fortes/CB/D.A Press) 
O líder do projeto na cidade goiana é Arthur Douglas, de apenas 21 anos: %u201CGosto bastante de dar aula, mais até do que me apresentar%u201D

Possibilidades
Estudar música abriu os horizontes de Damon Pacheco, de 16 anos. O adolescente tornou-se o primeiro da família a se interessar pelo aprendizado. Logo foi seguido por duas irmãs e pela mãe. Hoje, combina a voz grave ao tom do violoncelo. Apaixonado por música desde pequeno, ele conta que o aprendizado rendeu bons frutos — e perspectivas — na escola. “Tenho outras opções além da música. Gostaria de fazer engenharia para criar algo, construir. Ler partituras ajuda muito na hora de estudar matemática: melhorei na escola por causa do projeto”, garante.

Damon é um dos alunos do IRS que vão construir o polo em Águas Lindas. O rapaz não é tão tímido quanto o colega Arthur e está entusiasmado para transmitir conhecimentos musicais. “Vamos conhecer novos alunos, gente que não tem acesso à música clássica. As pessoas acham que o aprendizado é muito diferente, que não dá para aprender, mas na verdade é bem fácil. Gosto muito de ensinar, sou animado para dar aula”, afirma.

Para Rejane Pacheco, a música clássica gera muito mais expectativa que o aprendizado de um instrumento que geralmente se toca só, como o violão. “Uma orquestra precisa de, em média, 60 músicos. Você cria todos esses empregos. A música não tem faixa etária. Não é como se uma criança fosse trabalhar, mas é criada uma perspectiva de renda para aquela família. Temos adolescentes aqui que ganham comissões para se apresentarem”, comenta. Na Cidade Estrutural, são quase 190 alunos, entre iniciantes, intermediários e avançados no aprendizado.

Um destaque da turma é a estudante Wanessa Pacheco, de 13 anos, irmã de Damon. Em dois anos, a menina aprendeu a tocar violino e é monitora. “Sempre quis aprender um instrumento, e violino era o meu preferido. Queria ser alguma coisa na vida. Eu sabia que, para isso, só o estudo não bastava, porque não te dá muitas opções”, lembra. A garota sonha em cursar música no ensino superior e em tocar em uma grande orquestra. Por hora, diverte-se ensinando o básico para crianças pequenas. “Elas são muito legais”, elogia.

Em comunidade

O termo tecnologia social é um arcabouço de produtos, técnicas e metodologias reaplicáveis que se desenvolvem na interação com a comunidade. São propostas de desenvolvimento social, de baixo custo. Alia-se saber popular, organização social e conhecimento técnico-científico para que se criem soluções de desenvolvimento social em escala. Uma tecnologia social é, por exemplo, o soro caseiro: a mistura de água, açúcar e sal salva milhares de crianças da desidratação.

Como funciona

Dividida em três módulos, a metodologia visa, no fim, formar músicos capacitados para o mercado de trabalho. Cada etapa leva quatro semestres para ser concluída. Todas elas envolvem não só o aprendizado técnico e teórico, mas também o acompanhamento social da família do aluno, reforço escolar e alimentação.

1º módulo — Formação cultural
» No primeiro contato com a música clássica, o aluno tem uma formação básica, teórica. É direcionado para a população em geral e cada turma atende no máximo 75 alunos.

2º módulo — Formação musical
» Os alunos que se destacam na primeira etapa são convidados a aprender canto coral e a tocar o instrumento que melhor lhe couber.

3º módulo — Formação profissionalizante
» Quem se sair melhor na etapa intermediária é chamado para seguir estudando e se profissionalizar. Para entrar nessa etapa, é preciso fazer uma prova.
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