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TECNOLOGIA

Ficção que parece real

Ao apresentar uma história de amor entre um homem e um sistema operacional no filme Ela, o diretor Spike Jonze produz um incômodo retrato de como as pessoas se relacionam atualmente com a tecnologia

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postado em 17/02/2014 16:00 / atualizado em 17/02/2014 09:59

Roberta Machado

 

Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, não parece um personagem de ficção: sempre conectado aos seus dispositivos eletrônicos  (Sony Pictures/Divulgação) 
Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, não parece um personagem de ficção: sempre conectado aos seus dispositivos eletrônicos


“O primeiro sistema operacional artificialmente inteligente. Uma entidade intuitiva que escuta, compreende e conhece você. Não é só um sistema operacional. É uma consciência.” O vídeo que desperta o interesse de Theodore Twombly em uma estação de metrô lembra os grandiosos anúncios de Steve Jobs, do tempo em que a Apple lançava produtos icônicos, como o iPod ou o iPhone. Portanto, é difícil lembrar que essa maravilha tecnológica mostrada na propaganda ficcional ainda não existe. No filme Ela, que chegou aos cinemas na semana passada, o mundo futurístico criado pelo diretor Spike Jonze não parece somente perfeitamente plausível, como também é estranhamente atual.

Um homem que passa o dia trabalhando em seu computador, aproveita quando anda na rua para conferir e-mails em seu dispositivo móvel e descansa em casa jogando videogame. Esse é Theodore, personagem interpretado por Joaquin Phoenix, cuja rotina é muito similar à sua ou à de alguém que você conhece. E é nesse estado de isolamento social, criado por uma tecnologia ubíqua, que o protagonista da película vê o comercial do impressionante sistema operacional 1 (OS1) e resolve comprá-lo para organizar sua vida digital. Afinal, o que seria melhor do que ter um assistente virtual para ler mensagens, corrigir textos e, quem sabe, fazer companhia em uma noite solitária?

O roteiro tem como tema principal a relação amorosa entre Theodore e OS1, em uma dinâmica que surpreende pela naturalidade do romantismo do casal. Na voz sensual de Scarlett Johansson, o sistema Samantha ganha vida. Ri das piadas do protagonista, demonstra carinho por pessoas de carne e osso e até mesmo questiona a sua existência. Um pouco mais do que podemos esperar dos assistentes virtuais de hoje. “Siri era um pouco ‘ela’ antes de Scarlett ser um pouco Samantha. Mas o sexy OS, interpretado pela (infelizmente) invisível Scarlett Johansson, tem um pouco mais de inteligência emocional do que Siri tem hoje”, compara Dag Kittlaus, criador do sistema que hoje conversa com usuários de iPhones e iPads, em um artigo escrito para a revista Variety.

Por meio de um dispositivo móvel equipado com câmera convenientemente encaixado no bolso de seu usuário, Samantha vê o mundo como se estivesse realmente nele. Ela conversa com Theodore usando seu conhecimento robótico, dá opiniões sobre os textos que ele escreve e até mesmo brinca de cabra-cega com seu dono. Ela desenha, estuda filosofia e compõe músicas. Assim como fazem humanos, o OS1 é capaz de ver pessoas na rua e interpretar se são casadas, simpáticas ou mesmo se estão felizes. “O mundo seria cativado massivamente por reconhecimento de imagens em tempo real, compreensão espacial, reconhecimento facial e de humor, assim como a compreensão das sutilezas de milhares de cenários sociais”, brinca Kittlaus.

Avanços
Siri pode não ser tão talentosa ou cativante quanto Samantha, mas as comparações com a assistente pessoal da Apple foram inevitáveis. A própria Siri, revela Kittalus em seu artigo, foi baseada em sistemas inteligentes da ficção: HAL, o computador conspiratório do clássico de ficção científica 2001: uma odisseia no espaço e as máquinas falantes da série Jornada nas estrelas, assim como o carro tagarela KITT, do programa dos anos 1980 A supermáquina. Há décadas, existe o sonho de reproduzir a mente humana em circuitos eletrônicos, e, hoje, já existem sistemas tão bons quanto os que só existiam na ficção.

São comuns os serviços de atendimento telefônico pré-programados, assim como fazer uma busca no Google com um comando de voz. Em 2011, o inteligentíssimo computador Watson surpreendeu a todos vencendo o programa de perguntas Jeopardy!, respondendo corretamente a questões que nunca havia ouvido antes (o tipo de desempenho que poucos anos antes seria impossível para uma máquina). “Estamos começando a transição da interface simples de comando para coisas mais elaboradas”, compara Marcos Baretto, coordenador do Laboratório de Robôs Sociáveis da Faculdade Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). “A naturalidade da prosódia é uma coisa que começa a se tornar mais clara, então a voz não é computadorizada, é uma voz com entonação mais natural”, descreve o especialista.

É difícil acreditar que a personalidade de Samantha é pré-programada quando ela descreve novas ideias com empolgação ou usa expressões inteligentes. Mas uma cena do filme prova como uma quantidade vasta de dados é o suficiente para fingir tanta simpatia: ao ouvir a namorada virtual suspirar, Theodore questiona a ação do programa artificial, já que ele não respira. Encabulada, ela admite que pegou o trejeito do companheiro de carne e osso. Ao conhecer mais seu usuário, Samantha aprendeu a se tornar mais humana, e a ser a mulher que ele deseja. “Esse açúcar, essa modulação da voz, é uma coisa muito forte no filme, e isso a gente já está fazendo parte das interfaces novas. Isso tudo é falso. As variações pré-definidas e até coisas como risinhos, essas coisas situacionais, que caem bem numa conversa, essa soma de pequenas coisas que definem a pessoa”, enumera Barretto. “No fundo, ela só tem uma boa memória.”

Isolamento
As conversas com o sistema operacional feminino são marcadas pela doçura, e a relação entre homem e máquina é mais do que real: parece natural. Quando Theodore revela que está se relacionando com um programa de computador, nenhum de seus colegas de trabalho age com estranhamento, e sua amiga encara a notícia com otimismo. “Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. É como uma forma socialmente aceitável de insanidade”, resume Amy, a personagem interpretada por Amy Adams. E Samantha não só é aceita como também liga para os amigos do namorado, envia e-mails no nome dele e vai a encontros com Theodore na praia, onde conversa com outras pessoas além de seu usuário.

O cenário pode parecer absurdo na tela do cinema, mas talvez o amor entre os protagonistas humano e virtual seja a parte mais real do roteiro de Ela. No Japão, hotéis que antes eram o refúgio de casais apaixonados hoje atraem hóspedes acompanhados por um videogame portátil. Em vez de mulheres, eles levam para encontros um console portátil da Nintendo, onde um cartucho do game Love Plus substitui a companheira de carne e osso. Nessa relação, toques em uma tela de três polegadas substituem o carinho, e marmanjos quarentões mantêm o sonho de passar a eternidade apaixonados por colegiais. Meses depois do lançamento do jogo, um homem chegou a casar com Nene, sua namorada feita de pixels.

A aceitação social de situações como essa, na opinião da psicóloga Katherine Hertlein, é um dos principais fatores que têm influenciado negativamente os relacionamentos off-line. A cada passo dado na direção da popularização da tecnologia afetiva, fica mais difícil resgatar o conceito tradicional de relação de amizade ou amorosa. “Na verdade, (o filme) espelha o que está acontecendo na realidade. É sempre mais fácil ter um relacionamento com um parceiro de fantasia. Porque ele pode ser quem você quer que seja, e ele pode saber o que funciona melhor com você”, resume a professora da Universidade de Nevada e autora do livro The couple and family technology framework: intimate relationships in a digital age (O quadro da tecnologia do casal e da família: relacionamentos íntimos em uma era digital, em tradução livre, ainda não editado no Brasil).

A troca do relacionamento real pelo tecnológico tem início quando a criança brinca com seu primeiro pet virtual e é estimulada na adolescência, tempo em que a insegurança torna a conversa pela internet mais interessante do que o papo cara a cara. Nos últimos meses, têm chegado ao mercado gadgets como smart-watches e o Google Glass, tornando cada vez mais natural a imagem de uma pessoa falando sozinha no meio da rua. “É tão fácil criar essa barreira. Você pode estar se comunicando com outra pessoa, mas perder a oportunidade que está bem à sua frente, como aquela pessoa no elevador ou um estranho que poderia lhe fazer um gracejo”, lamenta Hertlein. Em Ela, Theodore está sozinho na maior parte das cenas, mas o personagem nunca parece mais solitário do que quando anda em uma rua movimentada, onde Samantha para de falar com ele e todos os pedestres passam distraídos, falando alegremente com seus fones de ouvido.

Concorrentes

Com a chegada do filme Ela aos cinemas, usuários dos gadgets da Apple não resistiram à ideia de chamar o programa Siri de Samantha ou perguntar se a assistente virtual era o OS1. A perguntas como “Você é Samantha?”, Siri foi capaz de dar respostas divertidas, como “você sabe que é só um filme, certo?” e “Ela nunca poderia conhecê-lo melhor do que eu”.

“Samanthas” de verdade

Eliza
» Na década de 1960, o programa de computador Eliza surpreendeu o público como um dos primeiros exemplos de processamento de linguagem natural. O sistema desenvolvido no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) era capaz de manter uma conversa com pessoas que acreditavam estar falando com uma pessoa real, por meio de estratégias inteligentes, como responder a uma pergunta com outro questionamento. O modelo ficou famoso pela simulação Doctor, que falava como um psicoterapeuta. Muitos dos seus usuários chegaram a levar o “doutor” a sério e acreditavam estar falando com outra pessoa.

Watson
» O sistema inteligente da IBM começou a ser desenvolvido em 2006 e já tem em seu currículo importantes feitos, como a memorável vitória no game show Jeopardy! e o trabalho como assistente de pesquisadores e médicos em hospitais. O sistema de computação cognitiva baseado na nuvem usa o processamento da linguagem natural e a aprendizagem programada para entender nuances sutis do vocabulário e elaborar respostas com base na probabilidade. No início deste ano, o grupo anunciou um investimento de US$ 1 bilhão no esperto Watson.


Siri

 (Karen Bleier/AFP - 13/3/12) 


» A assistente inteligente da Apple fez sua primeira aparição no sistema iOS em 2011 (foto). A aplicação pode responder perguntas, recomendar restaurantes e acessar serviços na web. Ela também pode ser uma substituta eficiente para uma secretária ao anotar recados, agendar compromissos e enviar
e-mails. O programa usa o aprendizado para se adaptar às preferências do seu usuário, mas se limita a responder a comandos.

A própria Siri vem com dicas de comandos verbais que são mais bem compreendidos pela
ajudante virtual.

Google
» O assistente pessoal Google Now não é tão simpático quanto o sistema criado pelo cineasta Spike Jonze, mas tem a função similar de organizar a rotina do usuário e de responder a perguntas. A gigante da internet tem investido pesado na inteligência artificial. Assim como Samantha, o Gmail é capaz de organizar por conta própria os e-mails que o usuário recebe, separados por prioridades e assunto. O projeto de aprendizado robótico, até hoje conhecido
somente como Google Brain, usa uma rede de 16 mil processadores para identificar objetos com base nos vídeos do YouTube.
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