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Aprendendo com Cachinhos Dourados

Para especialista em educação infantil, experiências lúdicas, incluindo os contos de fada, são a melhor forma de ensinar as crianças

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postado em 18/02/2014 16:00 / atualizado em 18/02/2014 10:39

Para uma criança, se sentar e ouvir o professor explicar por que um alimento muda de temperatura pode ser muito chato. Mas, quando esse tipo de informação é importante para ajudar Cachinhos Dourados a comer um prato de mingau nem muito quente nem muito frio, a situação muda de figura. Aprender, nesse caso, deixa de ser algo aparentemente sem sentido e se torna crucial para ajudar a simpática garotinha que invadiu a cabana de uma família de ursos na floresta. E se a solução pode ser buscada em parceria com os coleguinhas, a partir de uma série de brincadeiras que inclui até mesmo preparar um prato de mingau com areia e construir um forno de micro-ondas, a escola se transforma numa grande — e instrutiva — aventura.
A descrição não é nada absurda. Ela resume um dos projetos de pesquisa da especialista em educação infantil Marilyn Fleer, professora do Departamento de Educação da Universidade Monash, na Austrália. Depois de visitar inúmeras escolas, observar professores em salas de aula e registrar, em muitas horas de vídeo, a reação de alunos, Fleer tornou-se convencida de que a brincadeira e a liberdade criativa são as melhores ferramentas do ensino.
Baseada na teoria de Lev Vygotsky (1896-1934), bielo-russo pioneiro no estudo do desenvolvimento infantil, Fleer garante que brincar está longe de ser um passatempo inconsequente para os pequenos. Quando transforma um pedaço de madeira em um cavalinho, um menino e uma menina estão pensando de forma abstrata, afirma, realizando um exercício parecido com o de usar, mais tarde, um outro pedaço de madeira como régua para medir objetos.

Em um de seus estudos mais recentes, a professora investigou se os contos de fada podem ser uma boa forma de trabalhar conceitos científicos no início da infância, com alunos entre 3 e 4 anos. Ao colocar em prática o projeto em uma escola australiana, ela e sua equipe puderam observar que histórias fantasiosas como a de Cachinhos Dourados são uma poderosa forma de envolver as crianças na busca por conhecimento. “Elas ficam tão ligadas ao conto que se sentem motivadas a encontrarem soluções para os problemas dos personagens. Elas realmente querem ajudar o herói, o que as torna emocionalmente engajadas”, conta.
Ao visitar Brasília recentemente para palestras na Universidade de Brasília (UnB) e no Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCeub), a convite do professor das duas instituições Fernando González Rey, Fleer conversou com o Correio sobre seus estudos, a teoria de Vygotsky, o ensino científico para crianças e a importância da educação infantil.


A senhora baseia seus estudos  na teoria de Vygotsky. O que ele  ensinou de mais importante  sobre a educação de crianças?
Muitas coisas. Mas, em termos de pedagogia para crianças, destacaria seu trabalho sobre o brincar e a definição que ele deu à brincadeira. A literatura tradicional assumia que as crianças brincam de uma forma predeterminada, mas Vygotsky disse que, na brincadeira, crianças e professores criam juntos uma situação imaginária, na qual o significado de objetos e ações podem ser mudados. E isso é muito importante na relação entre brincadeira e aprendizado. Em sua teoria, quando uma criança pega um pedaço de madeira e o transforma em um cavalinho, faz algo parecido com usar um pedaço de madeira como uma régua para medir as coisas. A medida também é algo abstrato, desenvolvido culturalmente, não existe na natureza. Da mesma forma, a brincadeira é algo construído. Por isso, o jeito de brincar é diferente em cada país, porque não é algo natural, biológico.

Foi essa concepção de brincadeira  que a levou a investigar se os  contos de fada são uma boa  forma de ensinar conceitos  científicos para crianças?

Sim. Por que escolhi os contos de fada? Eles são uma importante tradição em muitas comunidades, e sua carga dramática faz com que a criança responda emocionalmente à história e se identifique com os personagens. Ao mesmo tempo, eles têm a vantagem de permitir à criança entrar e sair daquela situação. Ela se envolve, mas, se fica com medo, pode se afastar. Outros autores que trabalham com a teoria de Vygotsky já argumentaram que esse gênero é um importante apoio ao desenvolvimento infantil, então considerei interessante investigar como ligá-los ao aprendizado de conceitos científicos. E o que acontece é que as crianças ficam tão ligadas ao conto que se sentem motivadas a encontrarem soluções para os problemas dos personagens. Elas realmente querem ajudar, o que as torna emocionalmente engajadas. E isso é experimentado de forma coletiva.

Isso é interessante, porque  Vygotsky dizia justamente que o  aprendizado envolve a emoção,  não é um processo  apenas racional.
Exato. A cognição não funciona isoladamente. Tudo que aprendemos está em um contexto, há sempre uma dimensão social envolvida. Seus sentimentos influenciam seus pensamentos e vice-versa. E nós estamos sempre respondendo emocionalmente ao nosso pensamento e pensando sobre nossos sentimentos. Não é possível separar um do outro, não é assim que funcionamos como seres humanos. Esse é um ponto com o qual concordo totalmente com Vygotsky e que torna seu trabalho tão útil.

Deveríamos, então, considerar a  importância da brincadeira  também em outras fases do  ensino? Hoje, ainda parece mais  fácil deixar as crianças  aprenderem dessa forma na  pré-escola. Mas, quando elas  chegam ao 1º ou 2º anos, estão  com 6, 7 anos, surge uma  necessidade de tornar o  ensino algo “sério”.
Há vários indícios de que as crianças têm um aprendizado mais rico quando você muda as condições de ensino, saindo dessa forma mais “séria” e as deixando viver experiências de aprendizado criativas, seja por meio do teatro e da arte, seja por alguma outra forma. Em Vitória (estado australiano), por exemplo, existe uma escola para crianças de até 12 anos que se destaca nesse aspecto. E, quando outros colégios recebem os alunos que saem de lá, os novos professores ficam admirados, pois são estudantes motivados, interessados, curiosos. Eles perguntam: “O que tem na água desta escola? O que é feito lá?”.

E o que é feito?
Os professores trabalham em equipes para que os alunos realizem diferentes projetos. Um desses projetos, por exemplo, foi a produção de um espetáculo teatral. As crianças ficaram responsáveis por todo o processo, da concepção à montagem e à apresentação. Havia um grupo responsável pelo figurino, outro pela iluminação, outro pelo orçamento e assim por diante. E os professores podiam trabalhar os conceitos dos currículos no projeto, como o inglês, a matemática. Na matemática, por exemplo, os alunos eram incentivados a pensar sobre o desconto que podiam dar no valor do ingresso, qual era porcentagem do valor abatido... E, durante a montagem, ficava fácil identificar a dificuldade específica de cada um, se era com o texto, por exemplo, e trabalhar aquele ponto melhor. Como resultado, a criança acaba realmente querendo aprender, porque são conteúdos importantes para o sucesso do espetáculo. E isso tudo é um grande processo imaginário, em que eles dão outro significado a objetos, como a teoria de Vygotsky afirma. É o mesmo que ele observou com crianças pequenas, apenas em um nível mais sofisticado.

A senhora pode contar  outro projeto desenvolvido  nessa escola?

Um muito interessante foi o de reorganizar o playground da escola. Os professores chamaram um profissional, que se reuniu com as crianças para, juntos, discutirem o que o parque deveria ter, como ficariam dispostos os brinquedos. Em determinado momento, os estudantes decidiram que deveria haver uma pequena horta e precisavam calcular a área que ela poderia ocupar. Era um cálculo complexo, mas como se tratava de um problema da vida real, a alegria daquelas crianças de chegar a uma solução foi importantíssima. Quando elas não conseguiam mais avançar, o professor apresentava uma fórmula que talvez fosse útil, e aquela fórmula aparecia como algo bom, que as ajudaria. Então, o professor indagava se era melhor, naquele caso, medir em milímetros, centímetros ou metros. Todos esses são conhecimentos que, mais tarde, poderiam ser usado pelas crianças em outras situações na vida, quando se perguntariam se era melhor usar centímetros ou metros em uma nova situação.

Voltando à sua pesquisa sobre  ensinar conceitos científicos  para crianças, por que é  importante passar esse tipo de  conteúdo desde cedo? E qual  deve ser o objetivo quando  se trabalha com crianças  de 3, 4 anos?
De forma geral, para crianças muito novas, trata-se de mostrar uma forma científica de olhar, de ajudá-las a pensar o mundo de uma nova maneira. Na Austrália, por exemplo, temos uma costa muito grande, com uma importante cultura de surfe, e a água lá é muita fria. Normalmente, as crianças têm um conceito do dia a dia sobre o que é se manter aquecido — colocar um casaco ou usar um cobertor. Mas, para o problema da água fria, esse conceito não é útil. Com um entendimento científico sobre o que é manter-se aquecido, contudo, elas podem pensar em como resolver esse problema, por exemplo comprando uma roupa de banho mais espessa. Outro exemplo é pensar sobre o dia e a noite. As crianças pensam muito mais sobre a escuridão do que sobre a claridade, que geralmente está ao redor delas a maior parte do tempo. Mas você pode fazer com que ela brinquem com a luz. Basta criar uma caixa pintada de preto por dentro, com um cobertor em cima, e deixá-las entrar ali com uma lanterna. Elas verão que a luz se comporta de determinada maneira, que sai como uma reta da lanterna, que se reflete no espelho... Isso as ajuda a pensar no mundo de um jeito novo. O dia a dia delas se torna mais cheio de significados e com maior propósito. Essas são experiências simples, mas muito poderosas no início da infância, porque permite sair dos conceitos do dia a dia e pensar o mundo de forma diferente, sem estar preso a um só contexto.

Muitos professores se sentem  inseguros de ensinar ciência  porque têm medo de não saber  responder às perguntas que os  alunos farão. Como lidar com  esse receio? É preciso lembrar  que o conhecimento é uma busca  compartilhada?

Exatamente. Se professores pensarem nesse aprendizado como uma jornada, eles poderão aprender ao mesmo tempo em que as crianças o fazem. As perguntas que elas elaboram nunca são muito simples mesmo. Como o Sol foi formado? Como as conchas do mar ficam com aquele formato? E, nesses casos, o professor pode falar: “Nossa, essa é uma pergunta muito interessante, vamos anotar e ver a melhor forma de descobrir a resposta”. E, aí, engajar a criança na busca, elaborando possíveis respostas, fazendo desenhos, pedindo sugestões de onde buscar as respostas. Já vi situações em que as crianças sugerem perguntar para a mãe ou escrever uma carta para um político para descobrir o que querem. E todos podem discutir as opções. E o interessante é que, se o professor não sabe a resposta, ele pode ficar empolgado também. E, na verdade, a criança não precisa aprender todos os conceitos científicos do mundo. Se ela descobrir o prazer de buscar e encontrar uma solução, terá aprendido o prazer de aprender.

No Brasil, 21% das crianças de 0  até 3 anos e 78% das de 4 e 5 anos frequentam a creche e a  pré-escola (dados do IBGE do
ano passado). O objetivo é  elevar mais esses números,  chegando a 50% de escolarização  na primeira faixa etária até 2020,  e 100% na segunda até 2016. Essa  é uma boa meta a se perseguir?

Sim. Há muitas evidências científicas hoje de que, se a escola infantil tem qualidade, há um efeito a longo prazo muito positivo na vida das crianças. Elas tendem a ter melhores empregos, menos chances de se envolverem em crimes. As chances de uma boa vida aumentam, assim como também crescem as chances de as comunidades onde elas vivem se desenvolverem. Mas é importante que a escola tenha qualidade. E muitos estudos mostram que isso significa um programa de ensino lúdico, que deixe a criança experimentar, buscar soluções de forma criativa. Em outras palavras, não basta colocar as crianças lá, é preciso qualidade programática e investimento nos professores, para que eles possam colocar o programa em prática. O papel do professor é fundamental, mas não podemos culpá-lo apenas, temos de dar boas condições a eles.
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