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Amizade para toda a vida

Estudos indicam que a juventude é o melhor período para firmar laços duradouros e que as mulheres colhem os melhores benefícios desse tipo de experiência

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postado em 18/02/2014 16:00 / atualizado em 18/02/2014 10:41

Isadora (esquerda) é  tímida, e Caroline, extrovertida: segundo elas, essa diferença de personalidade fortalece o carinho e a amizade (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
Isadora (esquerda) é tímida, e Caroline, extrovertida: segundo elas, essa diferença de personalidade fortalece o carinho e a amizade

Apesar de mudarem com o tempo, as preocupações estão presentes na vida das mulheres desde a juventude. Nessa fase, projetos profissionais e pessoais passam a consumir mais o tempo delas, e as amizades, até mesmo as da infância, acabam comprometidas pelas novas aflições. Os encontros e/ou outras formas de contato ficam mais raros. Um erro, segundo estudos científicos. Além de o período ser o mais propício para o fortalecimento desse tipo de relação, afastar as amigas, da adolescência à velhice, pode fazer mal à saúde. Estudos comprovam que a amizade feminina exerce um efeito tão forte quanto praticar atividade física.


Os benefícios têm ligação com o tipo de diálogo. De acordo com a psicóloga Marcela Boechat, entre os homens, existe companheirismo, mas não há uma troca de sentimentos. “Eles saem para se divertir, enquanto as mulheres precisam se abrir e compartilhar as necessidades e os problemas”, compara. Segundo a psicóloga Letícia Noronha, nas sociedades patriarcais, a amizade masculina é representada pela capacidade de ser fiel e de se colocar em perigo para preservar a vida do amigo. Ainda hoje, permanece a ideia de que amigo é aquele capaz de entrar junto em uma briga e de ajudar em tarefas rotineiras, como trocar um pneu ou fazer uma mudança. Ou seja, alguém que está ao lado nos momentos agradáveis e difíceis de modo pragmático.


No caso feminino, devido à opressão ocorrida nesse modelo de sociedade, amiga é aquela pessoa em que se pode confiar, falar de sentimentos, anseios, dificuldades. O laço de amizade se sustenta mais sobre a questão de apoio afetivo do que pela ajuda prática. Nesse cenário, há o risco de existência de um nível de competição acentuado, ressalta Noronha. Mas, quando a amizade é sólida, a rivalidade dá lugar à intimidade e ao carinho. “É de fundamental importância para o bem-estar da mulher o contato com amigos. Isso cria um sentimento de pertencimento e dá o suporte emocional que, às vezes, a família não está mais apta a fornecer”, observa a psicóloga.


O tempo não é indicativo da força dessa relação. Estudo da Universidade da Flórida publicado no ano passado na Science Daily aponta a amizade feminina na adolescência como uma oportunidade para as meninas começarem a descobrir as diferenças de anseios e personalidades. Como as estudantes Caroline Weasley, 16 anos, e Isadora Pires, 14. Isadora conta que ela é muito tímida, e a amiga, uma das pessoas mais extrovertidas que conhece, a ajuda a não ter tanta vergonha: “Quando hesito em fazer alguma coisa, sempre penso em como a Caroline agiria na minha situação. Normalmente, eu acabo me soltando graças a ela.”
Elas se conheceram há cerca de um ano, no Grupo Escoteiro Lis do Lago. Foram acampar juntas e, desde então, são inseparáveis. Agora, fazem aulas de jazz. “Acredito que o respeito é o mais importante na nossa amizade. Como somos muito diferentes, aceitar uma a outra foi fundamental para nos fortalecer”, afirma Caroline. As duas contam que têm ciúmes uma da outra, mas nada muito grave porque têm outras amigas em comum.

Experimentação

O estudo americano aponta também que, no início da fase adulta, enquanto decisões fundamentais sobre o futuro estão sendo tomadas, a amizade representa para as mulheres aventura e experimentação. Segundo Noronha, o laço é de extrema importância nesse momento de tomadas de decisão, não apenas pela capacidade de influenciar a outra, mas pelo apoio e amparo: “Ter a certeza de que não estará sozinha é algo que faz toda a diferença”, explica a psicóloga.


As estudantes Helena Martins, 19, e Letícia Azevedo, 19, confirmam a tese. Letícia estuda para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e cursar comunicação social. Helena faz cursinho para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, ITA, considerado um dos mais difíceis vestibulares do país. A rotina atribulada de estudo cansa. Às vezes, dá vontade de desistir, conta Helena. Mas Letícia age rapidamente. “Ela me ajuda. Foco no meu objetivo porque ela sempre me dá apoio quando estou fraquejando”, diz.


A dupla se conheceu na escola há oito anos. O passatempo preferido continua sendo sentar juntas em casa para comer e jogar conversa fora. “Rir com ela é mais gostoso. Mesmo quando não conseguimos nos ver por algum tempo, nos falamos como se nada tivesse mudado”, diz Letícia. O ITA é localizado em São José dos Campos, em São Paulo, e, quando Helena se mudar, as duas pretendem continuar se vendo sempre que possível e nunca perderem a amizade.

Desencontros

Ainda assim a psicóloga alerta que, mesmo que algumas pessoas consigam preservar a relação, é comum os contatos firmados na adolescência se perderem na vida adulta. Até porque, com as escolhas profissionais e pessoais, incompatibilidades podem surgir. Kauane Moura, 19, e Ana Paula Santos, 19, já venceram alguns atritos. Elas se conheceram há mais de 12 anos, mas apenas se tornaram melhores amigas em 2008, quando começaram a estudar juntas e se tornaram vizinhas.


As briguinhas deram lugar à sinceridade e ao carinho. “Sempre que uma acha que a outra não está agindo certo, fala na hora. Isso vale para tudo, até sobre os namoros”, conta Ana Paula. “A Kauane me alertou sobre um namorado, pensei muito, mas segui meu coração e continuei. No fim, lógico, ela estava certa e eu terminei com ele.”


A psicóloga Marcela Boechat louva a atitude das jovens. “Apesar de não necessariamente seguir o que a outra falou, uma sempre reflete os pensamentos e ações que está para tomar”, diz, ressaltando, em seguida, que é papel das verdadeiras amigas darem puxão de orelha sempre que necessário.

Risco de morte diminuído

Apesar de as manias e os compromissos adquiridos ao longo do tempo poderem dificultar a formação de novas amizades, envelhecer não diminui essas possibilidades. Pelo contrário. Manter esse tipo de vínculo é indicado pelos especialistas. Depende apenas da disposição e da abertura da pessoa.


Um estudo da Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, e publicado em boletim informativo da Nurse’s Health Study apontou que quanto mais amigos uma mulher tem menor é a tendência de desenvolver problemas de saúde à medida que ela envelhece. Além disso, comprovou que idosas que mantêm contatos com amigos por pelo menos nove anos diminuem o risco de morte em mais de 60%.


Os resultados foram tão significativos que a conclusão foi que não ter confidentes ou amigos próximos é tão prejudicial quanto fumar ou ser obeso. Também foi percebido que, quando elas ficam viúvas, aquelas com amizades fortes conseguem passar pela experiência sem prejuízo à saúde ou perda da vitalidade permanente.


A psicóloga Letícia Noronha observa que, quando a mulher se aposenta e se torna mais reclusa, pode sentir que está com mais dificuldade para fazer novos amigos, mas, na verdade, a culpa pode ser da limitação espacial. “Mesmo assim, a internet ajuda a romper essa barreira”, informa a psicóloga, que reforça que os amigos podem chegar a substituir a função que era natural da família, tornando verdadeira a máxima “amigo é a família que a gente escolhe”.


Noronha reforça que, com qualquer idade, o ser humano tem uma hierarquia de necessidades, definida pelo psicólogo americano Abraham Maslow como Pirâmide de Maslow. Primeiro, o sujeito precisa satisfazer necessidades mais básicas, como se alimentar. Depois, vem a dedicação com o que está no topo, como as realizações pessoais. A amizade está justamente no meio desse processo.

 

Ranking de necessidades
De acordo com a pirâmide de Maslow, existem vários níveis a serem satisfeitos para que um indivíduo alcance plenamente a sensação de felicidade. Na base, considerados quesitos vitais, estão as necessidades fisiológicas (comida, sono e água). No segundo nível ficam as necessidades de segurança (física, estabilidade profissional, moradia e saúde). No terceiro, as necessidades de amor/relacionamento (amizade, família, relacionamentos amorosos e intimidade sexual). No quarto, as demanda de estima (autoestima, respeito e reconhecimento dos outros). No último, a necessidade de realização pessoal.

 

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