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Correio Braziliense

CIÊNCIA

A serviço da Inquisição

Durante o período colonial, a Igreja criou uma rede de clérigos que representava o poder do Santo Ofício no Brasil

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postado em 20/02/2014 16:00 / atualizado em 20/02/2014 10:27

Isabela de Oliveira /

Embora a Coroa portuguesa e a Igreja Católica nunca tenham estabelecido um tribunal da Inquisição no Brasil, os colonos não escaparam dos atentos e temidos olhos do Santo Ofício. É o que mostra a tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP) pelo historiador Aldair Carlos Rodrigues. Após analisar documentos guardados na Torre do Tombo, em Portugal, e em algumas cúrias brasileiras, como as de São Paulo e do Rio de Janeiro, o pesquisador mostrou que a Igreja constituiu uma rede de agentes do clero que se encarregou de perseguir e condenar “praticantes do judaímo”, “hereges” e “sodomitas” (homossexuais), entre outros.

Um dos principais objetivos da tese — vencedora do Prêmio Capes 2013 e do Prêmio Capes Tese Darcy Ribeiro — foi traçar o perfil sociológico desses agentes, chamados, então, de comissários. Eles eram todos homens brancos, com idade entre 30 e 60 anos, oriundos da elite ou de famílias que estavam em processo de ascensão. Bem instruídos, muitos desses clérigos tinham estudado em Coimbra.

No século 18, o Brasil registrava 198 desses comissários, representantes diretos do Santo Ofício, que deixou de enviar missões da Europa para julgar casos na colônia. De forma lógica, a maioria dos agentes estava distribuída de acordo com a ocupação do território nacional. Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro registraram o maior número — 51, 45 e 37, respectivamente. Essas regiões já passavam por um processo de desenvolvimento econômico, social e demográfico desde o século 17, diferentemente de Minas Gerais, Pará, São Paulo e Maranhão, onde o número era menor.

A influência familiar era quase decisiva para adquirir a insígnia inquisitorial: 110 dos 198 comissários (56%) já tinham parentes habilitados no Santo Ofício. A maioria (70%) era da própria colônia, sendo filhos de pais nascidos em outros lugares sob dominação portuguesa. As mães dos comissários, no entanto, eram quase todas nascidas aqui. “A elite era de origem portuguesa e ansiosa por provar a pureza do sangue. Em Portugal, chamar alguém de judeu era um insulto. Isso estava enraizado”, observa Rodrigues, que é professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Prestígio
Embora viessem de famílias abastadas, esses eclesiásticos viam muitas vantagens em fazer parte da estrutura, segundo o historiador Luiz Fernando Rodrigues Lopes, doutorando da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). A principal era provar à sociedade que se tinha “boa” ascendência. “Aliar a distinção da limpeza de sangue à riqueza material, normalmente sustentada com ganhos mercantis, comércio de escravos e produção de aguardente, era o caminho mais adequado para se enraizar no seio das elites locais”, conta o autor de Vigilância, distinção e honra: inquisição e dinâmica dos poderes locais nos sertões das minas setecentistas (Appris), a ser lançando em junho.

Trabalhar para a Inquisição era uma boa estratégia de ascensão também para portugueses de origem mais simples. Aldair Rodrigues conta a história de Veríssimo Ribeiro Pereira, nascido na comarca de Guimarães e habilitado em 1702. Filho e neto de serralheiros, narrou em seu processo de habilitação que “fora para o Estado do Brasil por ser um clérigo pobre e querer com suas ordens melhor remediar-se”. Na colônia, atuou como capelão na Paraíba, teve escravos e engenho de açúcar. Apesar da riqueza conquistada, só alcançou prestígio após virar comissário. Com tantas vantagens, era comum o caso de jovens que tentavam tirar o posto de comissários mais velhos, argumentando que eles estavam “decrépitos”, mal dispostos e, portanto, inábeis para a realização das diligências do Santo Ofício.

Para Alexandre Heckel, historiador da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, a tese de Rodrigues é interessante por desfazer a ideia de que nunca houve Inquisição no Brasil porque Portugal fez apenas algumas visitas oficiais. Para Heckel, as marcas deixadas por esse período ainda podem ser sentidas. Pesa no país, em pleno século 21, o preconceito étnico, em especial contra os negros, a economia apoiada na exportação de commodities e os latifúndios de monocultura. “As três estruturas básicas da vida nacional contemporânea foram criadas nesse período da história e não foram resolvidas. Ainda somos coloniais”, constata o especialista.

Bahia e Pernambuco
As visitas oficiais ocorreram três vezes entre os séculos 16 e 18. Em seu livro Inquisição: o reinado do medo (Objetiva), o britânico Toby Green conta que, em 1591, o inspetor inquisitorial Heitor Furtado de Mendonça foi despachado de Lisboa para a Bahia para investigar alguns suspeitos. De lá seguiu até Pernambuco. Nessa primeira missão do Santo Ofício em terras brasileiras, Mendonça lidou com 529 casos nos dois estados.
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