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Com a força da mente

Engenheiro norte-americano apresenta sistema simples que permite o acionamento de equipamentos apenas com o pensamento

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postado em 05/03/2014 15:20

Roberta Machado

Em um vídeo, Deam Aslam mostra um carrinho eletrônico que se parece com um brinquedo de controle remoto comum. O veículo em miniatura é colocado na mesa, e o engenheiro olha fixamente para ele. O carro se move. Quando Aslam tira o foco do brinquedo, ele para. Mais uma vez, a atenção é voltada para a peça, e ela volta a andar. É possível imaginar que se trata de um truque simples — alguém fora do enquadramento da câmera manuseia o controle remoto. No entanto, a verdade é que o homem está controlando o dispositivo com a mente.
Isso mesmo. Toda vez que o professor de engenharia elétrica na Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, se concentra no carrinho, um sistema ligado à sua cabeça interpreta o pensamento como um comando e faz o brinquedo se mexer. A peça principal da façanha é um sensor de eletroencefalograma (EEG), que fica preso à parte interna do boné usado pelo pesquisador. Eletrônicos escondidos sob o forro do chapéu amplificam e separam o sinal emitido pelo cérebro e calculam o nível de intensidade do pensamento captado pelo aparelho vestível. Um pequeno fio fica colado ao lóbulo da orelha de Aslam, completando a conexão eletrônica.

Toda atividade neural envolve correntes elétricas, explica o criador do boné controlador, e são essas ondas eletromagnéticas que o sensor detecta. “A frequência dos sinais reflete nosso pensamento. Por exemplo, se estamos focados, distraídos ou relaxados, ou apresentamos uma combinação de mais de um estado, forma-se um padrão que pode ser usado para controlar um robô. Basta que uma ligação sem fios seja criada entre o sistema de EEG na cabeça e o sistema de controle da máquina”, resume o norte-americano.

Usos

O engenheiro acredita que a tecnologia pode ser melhorada para o desenvolvimento de membros artificiais, controlados pelo pensamento do usuário, sem a necessidade de implantes invasivos ou de cirurgias. Bastará que a pessoa coloque um chapéu ou um acessório de cabeça para andar ou pegar objetos com mãos e pés mecânicos. “(A complexidade do uso) dependerá do sistema de EEG usado — se um único eletrodo ou um sistema caro de muitos eletrodos”, destaca Aslam.
Se adaptado para muitos tipos de ordens, o equipamento poderia ser usado para controlar uma casa inteligente. Atualmente, móveis e eletrônicos conectados ainda dependem de comandos enviados pela internet ou de gestos e de ordens verbais. Mas um simples sensor preso à testa do usuário seria o suficiente para comandar uma residência inteira, de forma mais intuitiva.

Por enquanto, a invenção somente serve para dar ordens simples de acionamento e desligamento (com base no sistema de concentração e distração), mas ela pode ser adaptada para gerar comandos mais específicos ao ser combinada, por exemplo, com piscadelas. A mistura de pensamento e movimento dos olhos pode levar a uma variedade maior de comandos.
Aslam ressalta ainda uma possível aplicação para sua invenção, que nada tem a ver com robôs. O boné mental seria ideal para o monitoramento cerebral, ajudando em exames de doenças neurodegenerativas, como os males de Parkinson e de Alzheimer. “Temos um projeto de pesquisa para esse tipo de monitoramento, que também deve medir níveis de felicidade e de estresse em um humano”, conta o inventor, que espera colocar esse modelo no mercado em seis anos, com o adaptado para o uso em próteses mecânicas.

Diferentes tipos
Há cinco tipos de ondas cerebrais que podem ser detectadas eletronicamente: delta (que são as do sono profundo), theta (as do sono leve ou da meditação profunda), alfa (que representam um estado relaxado), beta (estado de atenção) e gama (mente extremamente focada, ou sofrendo de ansiedade).


Projetos sofisticados

Greg Wood/AFP - 21/11/07

A busca pelo controle robótico com a força do pensamento não é nova, sendo investigada em diversos países, incluindo o Brasil. Em 2010, um grupo do Centro Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) desenvolveu um leitor de movimentos que capta as ondas cerebrais para mover um braço mecânico. O sistema consiste de uma touca equipada com oito sensores e um gel condutor, capazes de interpretar quatro tipos de pensamentos. “O usuário pode usar (os pensamentos) como quatro botões mentais para acionar qualquer tipo de dispositivo”, explica Marco Antonio Meggiolaro, que coordenou a iniciativa brasileira.
Além de não ser invasivo e de permitir diferentes comandos, o sistema brasileiro se destacou por ter uma boa velocidade de transmissão, com uma rápida identificação do pensamento pela máquina. Esses são, de acordo com Meggiolaro, alguns dos fatores fundamentais para definir se um sistema comandado pela mente é eficiente. “Outro item importante é o percentual de acerto (quantas vezes a máquina interpreta o pensamento corretamente?). Além disso, é fundamental o número de sensores que a tecnologia usa”, enumera o professor.

Alguns sistemas de sucesso, como o que a Honda construiu para um robô chamado de Asimo, usam sensores adicionais para garantir maior precisão. Além de 24 peças (16 a mais do que o projeto da PUC-Rio), o usuário que controlava o androide japonês tinha ainda um aparelho de espectroscopia de infravermelho que monitora o fluxo sanguíneo do cérebro dele. Na demonstração do dispositivo, Asimo obedeceu a comandos mentais e realizou tarefas como cumprimentar uma pessoa, encher um copo com suco de laranja e chutar uma bola.
O modelo tem mais chances de entender o pensamento do usuário, mas, por ser mais complexo, também acaba sendo maior e mais caro, o que pode atrasar a chegada desse tipo de tecnologia ao mercado. O capacete criado pela Honda até pode ser usado em situações específicas, mas a máquina desenvolvida para interpretar o pensamento é tão grande quanto um refrigerador. “A substituição de um teclado por uma interface dessas ainda tem um longo caminho pela frente”, avalia Meggiolaro. A Honda divulgou que não deve comercializar a tecnologia tão cedo, pois não conseguiu solucionar o problema das distrações comuns da mente humana. (RM)

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