Capoeira com sotaque polonês

Ex-menino de rua de Varsóvia tem a vida transformada por meio de um projeto social desenvolvido por brasilienses na Europa. Ele agora mora na capital e escreveu um livro que contém um guia do esporte

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postado em 06/03/2014 16:00 / atualizado em 06/03/2014 09:45

Manoela Alcântara

Breno Fortes
A história de Robert Krulikowski, 25 anos, poderia se passar em qualquer periferia do Brasil. Mas aconteceu em um bairro pobre de Varsóvia, a capital na Polônia. Ali, dois brasilienses iniciaram um projeto social que, além de difundir a cultura da capoeira, ajudou a mudar o destino de Robert e de outros poloneses atendidos no programa. Era uma comprovação de que a filosofia do esporte, criado por escravos africanos traficados para o Brasil (leia Para saber mais), não vê barreiras, nem linguísticas nem culturais. Foi por meio do gingado e dos ideais repassados pelos mestres capoeiristas que Robert voltou a estudar, começa a se profissionalizar e escreveu o primeiro guia de capoeira da capital.

Aos 12 anos, ele conheceu o trabalho dos mestres Jorge Luiz do Nascimento, 46, e Ju Trajano, 55, e se encantou pela arte. Em 2001, eles chegaram ao bairro de Praga, conhecido pelo alto índice de criminalidade, uso de anfetaminas e de formação de gangues. Devastada pela Segunda Guerra Mundial, a região nunca chegou a ser completamente reconstruída. O casal pretendia desenvolver um projeto por três meses, mas ficou na Polônia por sete anos. “A verba era para esse período, mas ampliamos o serviço social. Tínhamos como objetivo inicial difundir a capoeira, mas o resultado positivo que obtínhamos nos incentivava cada dia mais”, disse Jorge Luiz.

Era um grupo de 20 jovens. Nem todos conseguiram sair das ruas. Mas, se um mudasse as perspectivas que tinha ali, já era o suficiente para a iniciativa ser mantida. “A gente é mais ajudado do que ajuda. Acompanhar a trajetória do Robert é saber que meu trabalho valeu a pena”, completou o mestre capoeirista. De morador de rua, Robert seguiu os passos dos mestres. Ele os acompanhou na visita em alguns países e decidiu eleger Brasília como nova casa. Foram sete anos de trabalho até o jovem deixar a cidade natal e adotar a capital brasileira como novo endereço.

Planos

Foi em Brasília que Robert conseguiu emprego, voltou a estudar e, agora, faz planos para se estabelecer. “Havia parado os estudos aos 14 anos. A capoeira me deu força para voltar. Quero crescer profissionalmente, na área de informática, e utilizar a luta para trabalhar com outros jovens. Assim como fizeram um dia comigo”, diz. O primeiro sonho do rapaz quando chegou a terras tupiniquins era trabalhar e viver do esporte. No começo, deu aula para crianças, mas só o salário de professor não era suficiente para o sustento. Por isso, começou a investir no curso de informática, sem deixar de lado a capoeira.

Não vive mais dela, mas faz parte de uma série de trabalhos sociais. Só este ano, participou de atividades no Itapoã, em Ceilândia e no Paranoá, onde vive. Um dos legados mais importantes que deixará para a população do DF e visitantes é o livro publicado no fim do ano passado. Robert fez um catálogo com as informações dos grupos e mestres pioneiros da capoeira em Brasília. Intitulada Capoeira meu guia, a obra traz endereço, telefone e a história de 50 grupos. Foi um trabalho elaborado a partir de entrevistas e convívio com os capoeiristas. “O projeto surgiu da ideia de uma amiga e eu consolidei. Espero que as informações possam contribuir para pesquisas na área e também para dar maior visibilidade ao trabalho dessas pessoas”, afirma Robert Krulikowski.

A partir da pesquisa realizada, conseguiu construir um ponto de vista da capoeira no DF. “Cada grupo tem uma visão, apesar de praticarem a mesma luta. Dependendo da área, as percepções mudam”, conclui o capoeirista e estudante de informática. Em Ceilândia e no Paranoá, por exemplo, identificou que o esporte é utilizado como forma de transformação social. No Plano Piloto, a arte vira instrumento para os que gostam de malhar, movimentar o corpo. “A capoeira em Brasília sempre foi muito forte. Nos anos 1980, 1990, mantinha ares de rivalidade. Agora, é utilizada como ferramenta de educação. Não se joga mais capoeira para machucar ninguém”, afirma.

Para saber mais

Esperança e inclusão

A capoeira começou a ser desenvolvida no Brasil em meados do século 16 por negros escravos trazidos da África pelos portugueses. Em condições de trabalho humilhantes, com castigos frequentes, a técnica se tornou um instrumento de combate e esperança de sobrevivência.

A luta consistia em movimentos que usavam os pés e a cabeça para aplicar os golpes. A utilização dessas partes do corpo dava vantagem aos capoeiristas em um confronto direto com os europeus, pois esses brigavam somente com as mãos. A prática chegou a ser proibida pelos senhores de engenho, mas os escravos mascararam a arte marcial ao incorporar a dança e o gingado. A invenção dos escravos sobreviveu ao tempo e às ameaças, foi difundida pelo país e perpetua até os dias atuais como esporte e ferramenta de inclusão social.
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