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Muito além da beleza

Borboleta comum no cerrado se adaptou às condições extremas do ambiente e tornou-se caso raro no mundo cientifíco. A pesquisa pode até dar uma solução à praga que atinge girassóis

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postado em 07/03/2014 11:03 / atualizado em 07/03/2014 11:05

Roberta Pinheiro

Daniel Ferreira
Uma espécie de borboleta que habita o cerrado e pode ser comumente encontrada nos parques e céus de Brasília mostrou que, para enfrentar as extremas condições da seca na região, é preciso criar e recriar estratégias de sobrevivência. Diante da baixa umidade e das altas temperaturas, as lagartas do girassol, que posteriormente se transformam em borboletas de cor preta e laranja, entram em um processo de hibernação, conhecido pelos pesquisadores como diapausa. O mais interessante da espécie com nome científico de Chlosyne lacinia é que ela passa 220 dias quieta e sem se alimentar. Quando não entra no processo de diapausa, sobrevive apenas por volta de 35 dias. A lagarta foi analisada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) — uma das únicas no mundo a estudar os aspectos metabólicos do inseto durante o processo de hibernação em zona tropical.

A lagarta do girassol tem o mesmo ciclo de vida das outras — ovo, larva, pupa e borboleta. Mas, quando exposta a condições adversas do clima, passa 220 dias adormecida. Só desperta para o estágio seguinte do desenvolvimento no momento em que o ambiente volta a ser favorável, isto é, com abundância da planta para a espécie se alimentar e depositar os ovos. Ao longo da “soneca”, o animal evita ao máximo o gasto de energia. Característica muito conhecida dos ursos polares, por exemplo.

Não se sabe ainda quais fatores ambientais induzem o início do processo de diapausa do bicho. O pesquisador Daniel Carneiro Moreira, responsável pela análise do inseto, explica que os animais do hemisfério Norte, de maneira oposta, usam o encurtamento dos dias para entender que o inverno se aproxima e podem, com isso, se preparar com antecedência para o período de clima hostil. No entanto, em zonas tropicais, o tempo menor não é marcante e não pode ser percebido com facilidade pelos animais. “Acreditamos que seja a queda da umidade o principal indutor e a principal condição hostil, no caso das lagartas do girassol”, afirma o pesquisador.

Entender os procedimentos metabólicos e bioquímicos das lagartas durante o longo período de hibernação foi o foco central do trabalho de pós-graduação de Daniel. Ele é pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas (IB) da UnB e começou a examinar a espécie em 2010, quando atuava no laboratório como aluno de iniciação científica. “Sempre gostei de animais e desde pequeno fazia experimentos, em casa, com insetos da rua. Aqui no laboratório, busquei entender e explicar, do ponto de vista da pesquisa básica, o que difere e o que tem de parecido nos processos de hibernação em animais de diferentes regiões”, relata Daniel.

Com a orientação de Marcelo Hermes-Lima, professor da UnB, e com o apoio da pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Debora Pires Paula, Daniel analisou sete grupos de lagartas em diferentes estágios. O primeiro era um grupo ativo que se alimentava normalmente e não estava em diapausa. O segundo e maior conjunto era formado por insetos hibernados. Este foi dividido em subcategorias — hibernação de menos de 24 horas, hibernação por 20 dias, por 40 dias, por 60 dias e por 120 dias. Por fim, os pesquisadores também analisaram a reação dos insetos ao concluir o período de diapausa.

“O que se vê é que os insetos com esse tipo de hibernação têm alterações no metabolismo de radicais livres, ou seja, que envolve a produção natural de substâncias com papel fisiológico fundamental”, descreve. O estudo é um dos únicos no mundo relacionados aos aspectos bioquímicos da hibernação tropical em insetos. Os resultados podem contribuir para o controle de pragas da cultura do girassol, já que a lagarta representa uma ameaça para os produtores que cultivam a planta e similares, como o Mangueirão.

Resultados

A principal contribuição da pesquisa foi identificar que o organismo do animal se modifica ao longo da diapausa. Ele produz, em grande quantidade, uma enzima relacionada à desintoxicação — a glutationa transferase (GST). A proteína funciona como um catalizador que ajuda a eliminar os xenobióticos — compostos estranhos ao organismo do inseto, como inseticida e aqueles venenos naturais produzidos pelas plantas. “Na visão do controle biológico e da importância na gricultura, o que se vê na literatura é que animais com maior quantidade de GST são resistentes ao inseticida. Mas ainda é preciso pesquisar mais sobre o assunto, pois não é uma função natural da proteína e sim uma consequência do processo de hibernação”, esclarece Daniel.

Debora Pires Paula, pesquisadora da Embrapa, afirma que a empresa tem grande interesse no tema, porque a borboleta, na fase larval, é a principal praga das plantações de girassol. “O estudo forneceu importantes conhecimentos, mas também levantou novas questões científicas que pretendemos continuar a investigar. O conhecimento do porquê e como a hibernação ocorre constitui uma importante ferramenta futura para tentarmos interferir na diapausa da espécie e na sucessão populacional. Assim, podemos reduzir os danos por meio de estratégias de manejo ambientalmente mais sustentáveis”, destaca Débora.

Ficha técnica

Nome: Lagarta-do-girassol

Nome científico: Chlosyne lacinia

Família: Nymphalidae

Ordem: Lepidoptera

Classe: Insecta

Filo: Arthropoda

Distribuição geográfica: do norte da Argentina até o sul dos Estados Unidos. No Brasil, é encontrada no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo, em Minas Gerais, em Mato Grosso do Sul, na Bahia e em Rondônia

Desenvolvimento: cinco estágios larvais. O ciclo de vida completo da espécie é estimado entre 35 e 45 dias. A hibernação ocorre tanto no inverno quanto
no verão.
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