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CIÊNCIA

O fim da dor que não deveria existir

Técnica inovadora que mistura diferentes tecnologias obtém sucesso contra a síndrome do membro fantasma, sensação incômoda que afeta cerca de 70% das pessoas com membro amputado

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postado em 11/03/2014 16:00 / atualizado em 11/03/2014 10:27

Oscar Mattsson
Em 1965, um trabalhador rural sueco sofreu um acidente que lhe tirou metade do braço direito. Além de precisar se adaptar a uma nova forma de vida, o homem, hoje com 72 anos, passou a sofrer com dores constantes que muitas vezes beiravam o insuportável. E onde doía? Exatamente na parte que não estava mais presa a seu corpo. Mesmo depois de amputados, a mão e o antebraço o incomodavam muito, a ponto de não deixá-lo dormir várias noites.

O fenômeno, apesar de parecer estranho, já é conhecido da medicina. Chamado de dor fantasma ou síndrome do membro fantasma, afeta cerca de 70% das pessoas amputadas. O problema ainda tem suas causas estudadas (leia mais ao lado) e costuma ser combatido com técnicas como a terapia do espelho, a hipnose, a acupuntura e medicamentos. Mas, para muitos pacientes, essas abordagens não são eficazes. É o caso do cidadão sueco, que, por 48 anos, teve de conviver diariamente com a dor no membro perdido, até se tornar voluntário em um experimento conduzido no ano passado na Universidade Técnica Chalmers e cujos resultados foram descritos recentemente na revista Frontiers in Neuroscience.

Ao participar da pesquisa, coordenada por Max Ortiz-Catalan, o paciente, que não teve a identidade revelada, foi o primeiro a experimentar um método que lança mão da realidade virtual para enganar o cérebro e combater a dor fantasma. Com a técnica, ele podia ver sua imagem no vídeo complementada por um braço virtual. E o melhor: conseguia mover o membro de mentira, como se ele fizesse parte de seu corpo.

O segredo está na eletromiografia, tecnologia que usa eletrodos colados à pele para captar o sinais musculares. Presos na parte preservada do braço do voluntário, esses sensores enviavam os sinais para um computador, que, munido de complexos algoritmos, os interpretava e os transformava em movimentos do braço virtual na tela. Dessa maneira, o homem tentava mexer o membro perdido e via que sua intenção se concretizava no vídeo.

Jogo
 
Os pesquisadores, pediram, então, que ele jogasse um game de corrida no qual, para comandar o carrinho, precisava utilizar o membro virtual. Depois de algumas semanas de prática, a dor fantasma diminuiu consideravelmente, melhorando a qualidade de vida do paciente (veja infografia acima). “Essa é a primeira vez que alguém utiliza a realidade aumentada e padrões mioelétricos de reconhecimento para tratar a dor no membro fantasma. Estamos prontos para iniciar um teste clínico com três hospitais suecos e alguns outros na Europa. No entanto, se algum pesquisador brasileiro tiver interesse em desenvolver essa pesquisa, peço que entre em contato. Eu adoro o Brasil e ficaria muito feliz em contar com a colaboração de cientistas brasileiros”, diz ao Correio Ortiz-Catalan, que é mexicano.

De acordo com o pesquisador, o alívio experimentado pelo paciente é gerado por uma combinação de reativação de áreas motoras do córtex e de feedback visual. O conjunto é responsável por fazer com que o cérebro acredite que os comandos motores estão realmente sendo executados. Ortiz-Catalan está desenvolvendo outros games para serem adotados na nova terapia. A ideia é que a tecnologia seja comercializada e possa ser aproveitada por pacientes em suas próprias casas. “Não acredito que ela será cara. Nós até construímos um sistema doméstico, e os pacientes o têm utilizado de forma independente, sozinhos em casa, já há algum tempo”, conta.

Além de obter um resultado muito promissor no tratamento da dor fantasma, o trabalho de Ortiz-Catalan apresenta um uso inovador da realidade aumentada, na opinião de Hamilton Pereira da Silva, professor mestre de engenharia elétrica e informática industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFP). “Eu ainda não tinha visto nenhum trabalho assim. O uso da realidade aumentada tem uma aplicação interessante para solucionar os problemas psicológicos gerados pelas amputações e até mesmo defeitos congênitos”, elogia o brasileiro, que não participou do estudo.

Atualmente, Silva desenvolve com outros pesquisadores da UTFP uma mão robótica que usa a eletromiografia para permitir o controle pelo usuário. “A aplicação da tecnologia vai até o limite da imaginação humana. Uma pessoa que é surda pode utilizar a realidade aumentada para se orientar e se comunicar. Na medicina, já é uma realidade. O treinamento de médicos é feito com operações virtuais de forma que nem sempre é necessário usar cobaias”, lembra.

Palavra
de especialista

Tecnologia multiúso

“Basicamente, a ideia de realidade aumentada é captar alguma imagem, por câmera, por exemplo, e projetá-la. Essa já é muito utilizada na vida prática por algumas empresas. É possível simular uma planta de um espaço e projetá-la em 3D para que o cliente possa ver a casa, como ela vai ficar. Dependendo da utilização, pode ser cara ou não. Há um caso de um prédio inteiro que foi simulado virtualmente para que os clientes e investidores o vissem de cima, no terreno, enquanto sobrevoavam o local com helicóptero. Aí, o investimento é maior. Mas há coisas simples. Uma empresa de óculos utilizou, pelo site, a captura da imagem do cliente pela câmera do computador para simular como o produto ficaria no rosto dele. Os valores vão depender do tipo de aplicação.”

Pedro Luiz de Paula Filho,
professor doutor em ciência da computação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná

Ilusão

A terapia do espelho foi adotada a partir dos anos 1990. Nela, o paciente que teve uma perna ou um braço amputado se posiciona em frente a espelhos, tendo a ilusão de que ele ainda possui os dois membros saudáveis. Assim, ele é pedido para tentar mover as duas pernas ou os dois braços ao mesmo tempo, vendo no espelho ambos se mexerem.
A estratégia engana o cérebro e a sensação incômoda diminui em algumas pessoas.
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