Três séculos datilografados

A patente da primeira máquina de escrever foi concedida na Inglaterra há 300 anos. Desde então, o equipamento passou por diversas modificações e resiste até hoje, em plena era da informática, graças a usuários que não abrem mão da velha companheira de escrita

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postado em 14/03/2014 13:50

Em Brasília, os usuários contam com Uacy Mendes, especialista em consertar as antigas máquinas (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 
Em Brasília, os usuários contam com Uacy Mendes, especialista em consertar as antigas máquinas

Jawaharlal Nehru, mais conhecido na Índia como Pandit, ou Professor, foi o primeiro governante do país após a independência do Império Britânico, em 1947. Para ele, a inauguração de uma fábrica de máquinas de escrever era um projeto prioritário. O Professor acreditava que, daquele modo, iniciava-se o caminho indiano rumo à industrialização. Por anos, a empresa criada, parte do polo industrial da Godrej & Boyce Manufacturing Company, abasteceu o mercado local e internacional, e foi a última do ramo a fechar as portas, em maio de 2011. Ao produzir as derradeiras peças, a companhia encerrava uma história iniciada 300 anos atrás, quando um inglês registrou a primeira patente de um equipamento do tipo.

A invenção da máquina de escrever é atribuída a Henry Mills. Em 1714, ele recebeu da então rainha da Inglaterra, Ana de Stuart, a patente de um engenho mecânico que permitia imprimir símbolos sobre uma folha de papel. Esse foi o ponto de partida para a escrita de forma mecânica. Nos anos seguintes, outros equipamentos surgiram, sempre com o intuito de ajudar cegos a imprimirem seu pensamentos. Sentados diante do trambolho, que mais lembrava um piano, as pessoas com deficiência visual erguiam alavancas dotadas de caracteres tipográficos.

Em 1801, o italiano Pellegrino Turri inventou o papel-carbono para gravar o que sua mulher, a Condessa Carolina Fantoni da Fivizzano, também cega, escrevia em um aparato que ele mesmo havia construído. Sete anos depois, ele trocou as alavancas por uma espécie de teclado, mostrando que o invento poderia ser útil também para pessoas que enxergavam. Foi, então, em 1829, que o americano William Austin Burt projetou, construiu e pantenteou a primeira máquina de escrever prática do mundo.

A partir daí, a interferência mecânica no ofício de escrever foi dando saltos. Em 1847, o inventor italiano Giuseppe Ravizza fabricou uma máquina em que o teclado permanecia fixo e um carrinho se movimentava com a folha. Ele projetou e construiu mais de 16 modelos até 1880, alguns deles copiados e vendidos por empresas norte-americanas. A partir dessa época, houve uma difusão grande da máquina de escrever em todo o mundo. Nações da Europa e da América instalaram fábricas para a produção em larga escala, usando a mesma disposição dos tipos no teclado, desenvolvida pelo americano Christopher Latham Sholes (leia mais nesta página).

Resistência
Desde que o escritor e humorista Mark Twain, autor de Maior romance americano, a adotou para criar seus textos, a máquina de escrever se tornou companheira de romancistas, poetas e jornalistas. Ao longo do século passado, o invento ganhou versões elétricas e invadiu os escritórios das empresas. O visual único das letras impressas no papel, o ruído das teclas ao serem pressionadas e o cuidado que se deve ter para evitar erros de digitação são algumas das características que tornam o equipamento encantador e fazem com que muitos não deixem de usá-lo nem mesmo na era de laptops e tablets.

A contadora e encarregada da tesouraria do Colégio Santa Dorotéia, na Asa Norte, Nair do Santos Vaga, 80 anos, não troca sua Olympia elétrica por computador algum. Ela batuca as teclas desde 1958, quando concluiu um curso de datilografia, e credita parte de seu sucesso profissional à familiaridade com a máquina. “Logo que me formei, comecei a trabalhar em uma companhia de seguros porque sabia datilografar. Nessa época, a gente tinha de estudar e se especializar na área para conseguir bons cargos, e a datilografia era um pré-requisito essencial”, conta. “Toda a contabilidade da escola é feita aqui, na minha máquina de escrever. Às vezes, a meninada aparece na minha janela querendo saber para que ela serve”, diz.

Com o fim das fábricas, que se tornaram economicamente inviáveis com o avanço da informática, os amantes da máquina de escrever conseguem manter seus equipamentos em dia graças ao trabalho de pessoas como Uacy Mendes, 72 anos, proprietário do único local da cidade que presta assistência técnica desses antigos modelos.

A relação de Mendes com os aparatos é antiga. Em 1957, antes da inauguração de Brasília, ele montou uma das primeiras escolas de datilografia da capital, que funcionava no Núcleo Bandeirante. “Nessa época, a habilidade era indispensável, inclusive até para concursos públicos. Por isso tratamos logo de montar a escola”, lembra. Mais tarde, nos anos 1970, ele passou em um concurso público dos Correios, que o levou ao Rio de Janeiro. Lá, aprendeu sobre a mecânica do equipamento.

De volta a Brasília, resolveu se dedicar à manutenção, o que faz até hoje. “Eu tinha 18 funcionários encarregados somente da assistência técnica das máquinas. Era responsável pela manutenção de aparelhos de toda a região.” Os avanços tecnológicos, contudo, tornaram a busca por seus serviços rara, e o número de funcionários foi reduzido drasticamente. Na loja que mantém na 508 Sul, é o único a fazer reparos nos equipamentos. A resistência de Mendes é um alívio para pessoas como Nair. “Eu convivo sempre com a apreensão de não poder usar mais a minha máquina. Não gosto nem de pensar em quando o senhor Uacy não estiver mais trabalhando”, diz a contadora.

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