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Correio Braziliense

CIÊNCIA

Personalidade animal

Segundo estudo britânico, babuínos também apresentam características como timidez e extroversão, e elas influenciam na capacidade de aprendizado. A pesquisa ajuda a compreender a evolução cultural nas sociedades de primatas, incluindo as humanas

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postado em 19/03/2014 16:00

 (Alecia Carter/Tsaobis Baboon Project - 11/6/13) 


O predomínio de determinadas características, como timidez ou expansividade, traz uma série de consequências para o comportamento humano e, de acordo com um estudo recente, pode também favorecer ou prejudicar as chances de sobrevivência de um animal. Pesquisadores do Reino Unido mostraram que as particularidades do temperamento de babuínos interferem no aprendizado dos primatas. Segundo os cientistas, os macacos mais agitados conseguem aprender e ensinar melhor os companheiros a realizarem tarefas diárias, como se alimentarem. A conclusão ajuda a entender a sociabilidade dos bichos — o modo como interagem e adquirem conhecimento em sua sociedade.

 Alecia Carter, pesquisadora do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge e uma das autoras do trabalho, explica que o estudo surgiu como continuidade de uma pesquisa anterior que avaliou o comportamento dos babuínos quando estão sozinhos. “Realizamos testes individuais e vimos que os animais mais tímidos aprendiam com mais dificuldade que os de perfil mais agitado. Mas, para termos certeza, seria necessário testar os babuínos quando eles estavam em grupo observando se a presença de um indivíduo dominante afetaria a resposta de um animal subordinado quando eles interagissem com a comida”, explica Carter.

Para tirar as dúvidas, Carter e colegas estudaram animais que pertenciam à Sociedade Zoológica do Projeto Baboon Tsaobis, em Londres. Eles observaram a personalidade dos animais individualmente, anotando suas características temperamentais, para depois analisá-los em grupo. Após traçarem o perfil de comportamento dos babuínos, os pesquisadores instruíram os animais em tarefas de alimentação, como aprender a comer novos tipos de comida e retirar frutas de compartimentos guardados em latas e caixas. Todas eram tarefas que exigiam uma destreza maior do que as atividades que os bichos estavam acostumados a realizar rotineiramente.

Após três anos de análises, a equipe concluiu que os animais mais ativos (inquietos e agitados) não só obtinham mais sucesso nas atividades relacionadas à alimentação como também eram mais capazes de ensinar os “companheiros” de perfil mais calmo a terem acesso durante as tarefas. Carter acredita que a personalidade dos animais refletiu diretamente no desempenho. “É possível que, apesar de verem outro babuíno resolver a tarefa, os macacos tímidos e calmos não fossem inteligentes o suficiente para resolver esses desafios novos. Mas as atividades eram muito simples. É bem mais provável que os tímidos fossem muito contidos, o que influenciou diretamente essa capacidade de apendizado”, avalia a pesquisadora.

Na opinião da cientista, o experimento ilustra que as características individuais dos animais podem ter um peso maior no desempenho de tarefas. “Esses resultados são significativos, pois sugerem que, em relação a tarefas cognitivas, os animais podem ter dificuldade de executá-las não porque não são inteligentes o suficiente, mas simplesmente por serem muito tímidos ou nervosos para interagir. Diferenças individuais na aprendizagem social que são relacionadas à personalidade devem, portanto, ser levadas em conta quando se estuda sistematicamente a cognição animal”, completa.

Particularidades

A suspeita de que características como essas influenciam o desempenho de babuínos em tarefas de aprendizado já havia sido levantada por outros pesquisadores, mas o trabalho do Reino Unido é um dos primeiros ao usar o termo personalidade, geralmente utilizado no estudo de humanos, em uma investigação com animais, aponta Maria Adélia Oliveira, primatóloga e professora de comportamento animal da Universidade Rural Federal de Pernambuco (UFRPE). “Considero uma grande coragem desses cientistas utilizarem um termo que não era usado para definir características animais e afirmar que ele pesa na difusão de informação e no aprendizado social”, destaca a especialista, que não participou do estudo.

Oliveira também acredita que o método usado pelos cientistas mostra como as características particulares dos animais podem pesar no comportamento social dos macacos. “A espécie estudada é bastante complexa. Penso que esse tenha sido um motivo que pesou para ser escolhida. Outro ponto interessante é que os cientistas passaram um longo tempo conhecendo esses animais, dando nomes e observando suas peculiaridades. Desse modo, puderam observar claramente o quanto essas características pesam na informação que é passada de indivíduo para indivíduo dentro do grupo. E isso mostra minuciosamente como funciona a evolução cultural da sociedade deles”, aponta.

A especialista também acredita que estudos assim podem mostrar semelhanças mais fortes entre macacos e humanos. “Vejo cada vez mais pontos parecidos entre humanos e animais. Sabemos, com base em outros trabalhos, que crianças mais tímidas se sentem reprimidas com relação à realização de tarefas. Esse tipo de transmissão de cultura é um ponto estudado por muitos anos na antropologia, e que sempre vemos ser trabalhado antes nos animais e depois nos humanos. Nesse artigo, temos uma nova ordem, de trás para frente, que busca por características humanas nos macacos”, completa.

Alecia Carter explica que o estudo pode ajudar na compreensão do comportamento social de animais, fornecendo dados relacionados à evolução. “Espero que o entendimento de fatores que influenciam o modo como os indivíduos aprendem uns com os outros lance luz sobre a evolução da cultura nas sociedades de primatas, incluindo os seres humanos, ou sobre as condições que podem facilitar ou retardar a formação de uma cultura nas sociedades primatas, seja por meio de pessoas e suas ‘personalidades’ seja por suas ‘redes sociais’”, destaca.

A britânica adianta que o trabalho terá continuidade, e que sua equipe manterá o foco no comportamento social dos animais. “As próximas perguntas que pretendo investigar envolvem as influências da rede social, do grupo em que esses seres vivem, na aquisição de habilidades que auxiliem a sobrevivência”, antecipa.

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