CIÊNCIA

Mistura de dinossauro com pássaro

Espécie descoberta nos Estados Unidos traz pistas sobre como evoluiu um grupo de grandes répteis que tinha algumas características de aves, como penas e bico

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postado em 20/03/2014 16:00 / atualizado em 20/03/2014 10:23

Paloma Oliveto

O estudo conclui que a aparência do Anzu wyliei incluía garras afiadas na frente, pescoço e patas traseiras compridos, e bico sem dentes  (Bob Walters/Divulgação) 
O estudo conclui que a aparência do Anzu wyliei incluía garras afiadas na frente, pescoço e patas traseiras compridos, e bico sem dentes


Um frango gigante com rabo de lagarto. No topo da cabeça, o osso em formato de meia-lua coroa a aparência bizarra, que inclui penas, escamas e garras afiadíssimas. Não à toa, ele foi batizado de Anzu, nome de um demônio da mitologia suméria. Esse estranho animal viveu entre 68 milhões e 66 milhões de anos atrás, perto do fim da era dos dinossauros, e acaba de ser “ressuscitado” nos Estados Unidos. Na edição desta semana da revista PLos One, pesquisadores de diversas instituições descrevem a espécie até agora desconhecida. De acordo com eles, o monstrinho ajudará a entender melhor a evolução de um misterioso grupo de dinos, os Caenagnathidae, que misturavam características de répteis e pássaros.

A falta de fósseis completos tem sido um entrave para o estudo dos “dinossauros híbridos”. Por isso, os Caenagnathidae são considerados os menos conhecidos da ciência. Esse problema foi resolvido com um quebra-cabeça montado por pesquisadores do Carnegie Museum of Natural History, do Instituto Smithsonian e da Universidade de Utah, todas nos EUA. Eles juntaram peças de três espécimes diferentes escavadas em uma formação rochosa chamada Hell Creek, no estado americano de Montana. O local é um dos maiores depósitos de dinossauros da América — de lá, costumam sair exemplares de tricerátopos e tiranossauros rex, por exemplo.

A montagem revelou a anatomia extravagante do Anzu wyliei (o segundo nome é uma homenagem ao neto de um dos benfeitores do Carnegie Museum). O animal tinha cerca de 3m de comprimento e 1,5m de altura, dos pés ao quadril, e pesava de 200kg a 300kg. “Embora fosse um pouco maior que um peru, ele é o tipo de coisa que você, definitivamente, não gostaria de encontrar no escuro”, brinca Matthew Lamanna, pesquisador do Carnegie Museum e principal autor do estudo.

Ele descreve as características do animal, baseado no estudo dos ossos: “Exceto pelo comprimento longo do rabo, ele se parecia mais com um pássaro não alado, com penas nos braços e no rabo também. Tinha bico sem dente e uma crista no topo do crânio. O pescoço e as patas traseiras eram longos e finos, então ele se parecia bastante com um avestruz”. Mas, diferentemente dos pássaros, o Anzu tinha garras muito afiadas na frente. A estrutura craniana do dinossauro, com sua mandíbula bem preservada, sugere que ele era um onívoro — consumia carne e vegetais, como os humanos. Já o tipo de sedimento onde os fósseis foram escavados indicam que o animal preferia hábitats úmidos em vez dos secos.

Mistério

“O Anzu fornece a primeira boa oportunidade de estudar um grupo inteiro de estranhos dinossauros que estão envoltos em um mistério há quase um século”, afirma Emma Schachner, pesquisadora da Universidade de Utah em Salt Lake City e coautora do estudo. Ela se refere à descoberta, em 1924, de um primo desse animal, escavado pelo paleontólogo Charles Whitney Gilmore em Alberta, no Canadá. O Chirostenotes pergracilis despertou muita curiosidade, mas toda a sua descrição foi feita com base em um par de patas dianteiras, os únicos ossos encontrados por Gilmore.

Tanto ele quanto o Anzu pertencem à micro-ordem dos dinossauros oviráptores, que significa “ladrões de ovos”. O nome depreciativo mostrou-se, depois, uma grande injustiça. As patas do Chirostenotes pergracilis foram encontradas no topo de um ninho recheado de ovos de dinossauro. Isso levou os cientistas a acreditarem que o predador morreu ao escalar o abrigo, com o objetivo de saborear os pequenos dinos.

Contudo, na década de 1990, o mesmo tipo de ovo foi encontrado com um bebê oviráptor preservado dentro dele. Isso mostrou que, em vez de ladrão de ovos, esses animais eram pais zelosos que protegiam seus ninhos. Desde então, mais de 10 espécies da micro-ordem foram descobertas, todas na Mongólia e na China. “A ocorrência de oviraptorossauros tanto na Ásia quanto na América do Norte não é uma surpresa para nós, porque esses continentes estavam ligados durante a Era Mezozoica, também conhecida como Era dos Dinossauros. Por isso, os animais se deslocavam de um continente para o outro”, explica Schachner.

A paleontóloga conta que os ossos do Anzu foram descobertos há mais de 10 anos, quando ela ainda era uma estudante de graduação na Universidade da Pensilvânia, e ajudou a escavar, na Dakota do Norte, um espécime quase inteiro — seis ossos do pescoço, membros anteriores e ombros. Em 2005, em um congresso da área, a cientista descobriu que colegas do Carnegie Museum of Natural History e do Instituto Smithsonian também tinham encontrado fósseis da mesma espécie. “Então, começamos a trabalhar juntos e, apenas agora, o tempo nos permitiu concluir e publicar o artigo. Foi um processo extremamente interessante. Encontrar um dinossauro é algo com que sempre sonhei, desde a infância”, conta.
Imitação de plantas Pesquisadores da Universidade Capital Normal, na China, descobriram o fóssil de um bicho-pau do Período Cretáceo, com cerca de 126 milhões de anos. Esse seria o exemplar mais antigo já encontrado até agora de inseto que imita a forma de uma planta como estratégia de sobrevivência. Muitos insetos desenvolvem mecanismos de defesa, incluindo a habilidade de reproduzir a aparência de outros seres do hábitat em que vive. Mas, na falta de fósseis do bicho-pau e do bicho-folha, que mimetizam as plantas, pouco se sabe sobre a origem dessa interação.

Na localidade de Jehol, na Mongólia, os pesquisadores descobriram, agora, três exemplares: uma fêmea e dois machos da espécie Cretophasmomima melanogramma. Esses insetos possuíam características adaptativas que os faziam parecer um tipo de planta que cresce na mesma região. As asas dos bichos-paus fossilizados têm linhas escuras paralelas e, quando eles ficavam em posição de descanso, provavelmente produziam um formato que escondia o abdômen. Os fósseis de um exemplar de ginko, planta típica do local, apresentam desenhos semelhantes. Por isso, os autores do estudo, publicado na revista PLoS One, acreditam que ela serviu de modelo para o inseto encontrado.

Os novos fósseis indicam que mimetizar a folha foi uma estratégia de defesa adotada por esses bichos, logo no início do Cretáceo. Contudo, naquela época, outras técnicas de disfarce que eles usam hoje, como curvar as pernas dianteiras para esconder a cabeça, ainda não existiam. O fóssil também sugere que os insetos primeiro imitavam folhas para, depois, começar a mimetizar galhos e cascas de árvore. A aquisição dessas habilidades teria sido uma consequência da diversificação de aves e mamíferos de pequeno porte, que se alimentavam de insetos.
 
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