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CIÊNCIA

Nariz de 1 trilhão de cheiros

Segundo estudo publicado na revista Science, é essa a quantidade de aromas que o ser humano consegue distinguir

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postado em 21/03/2014 14:00 / atualizado em 21/03/2014 10:18

 

Você já parou para pensar em quantos tipos de cheiro consegue sentir? A resposta é: mais de 1 trilhão. Esse número foi determinado em um experimento realizado por cientistas americanos e franceses. No trabalho, publicado hoje na revista Science, os pesquisadores relatam um teste feito com voluntários que precisavam “farejar” diferentes combinações de odores. Mesmo com misturas mais concentradas ou com fórmulas parecidas, a diferenciação ocorria de maneira considerável, o que levou os autores a concluírem, com a ajuda de muitos cálculos no computador, que o olfato humano é muito mais sensível do que se imaginava.

Um dos autores do estudo, Andreas Keller, do Laboratório de Neurogenética da Universidade de Rockefeller (EUA), explica que é interessado na capacidade olfativa das pessoas há algum tempo. Inicialmente, ele realizou investigações com moscas de fruta, uma vez que a sobrevivência desses animais depende muito desse sentido — basicamente, é a principal ferramenta usada pelos insetos para encontrar comida. “Mudei o foco da pesquisa para o olfato humano porque vi que, em comparação com a audição e a visão, é um sistema sensorial muito simples. No olfato, só sentimos os odores. Na visão, ao contrário, não só vemos as cores, como outras noções e formas de espaço”, justifica.

No novo experimento, feito em parceria com a Universidade Pierre et Marie Curie (França), foram selecionados 28 adultos (homens e mulheres) que cheiraram mais de 200 pares de misturas de fragrâncias. Para criar os perfumes, os cientistas utilizaram 128 moléculas de odor, já que uma fragrância é composta de várias moléculas — o cheiro “doce” de uma rosa, por exemplo, é resultado da mistura de 275 moléculas.

Nos testes, os cientistas notaram que os voluntários conseguiam diferenciar com sucesso as misturas, mesmo quando elas eram apresentadas em pares com fórmulas muito parecidas, com até 90% dos ingredientes semelhantes. Mesmo nesses casos, participantes conseguiam apontar cheiros distintos que compunham os perfumes. Com os cálculos finais, os cientistas defendem que o nariz humano pode sentir essa imensa variedade de odores.

“Anteriormente, foi dito muitas vezes que o ser humano poderia distinguir 10 mil estímulos olfativos, por isso esta é uma revisão drástica desse número. Em geral, nosso estudo contribui para a literatura ao dissipar o mito de que os seres humanos têm um sentido de cheiro pouco apurado”, destaca Keller. O especialista afirma que o genoma já dava pistas de que o “faro” humano é poderoso. Enquanto só foram identificados três genes relacionados à percepção das cores, os ligados ao mecanismos olfativos são 400. Estudos anteriores mencionados no artigo apontam que o olho humano consegue perceber entre 2,3 milhões e 7,5 milhões de cores, e o ouvido distingue cerca de 340 mil tons sonoros.

Auxílio à saúde
 
Marco Fornazieri, otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), acredita que o trabalho se destaca pelo método de execução, que envolveu cálculos e dados fisiológicos. “Esses pesquisadores conseguiram chegar a um número muito mais abrangente da capacidade olfativa humana, o que acredito ser compatível com o que suspeitávamos. Mas ainda não tínhamos provas tão detalhadas”, avalia o médico, que não participou do estudo. “Outro ponto de destaque é dar um novo parâmetro ao antigo número, provando o quanto o olfato é mais apurado do que pensávamos usando como analogia a visão e a audição. É claro que a comparação não deve ser feita em pé de igualdade devido às diferenças fisiológicas, mas, ao emparelharmos os sentidos, podemos ver de que forma o olfato pode ser mais sensível”, destaca.

Além de dar nova dimensão a um dos sentidos humanos, a pesquisa americana e francesa pode ajudar em tratamentos de pessoas que sofrem com problemas olfativos, acredita Bruno Loredo, otorrinolaringologista do Hospital Santa Luzia, em Brasília. “Penso que essa pesquisa pode contribuir de duas formas muito interessantes: no auxílio de tratamentos de pacientes com perda de olfato, muitas vezes gerado após um trauma ou durante a gravidez. Outro uso seria no refinamento de recursos modernos chamados narizes eletrônicos”, aponta. Loredo também destaca que o olfato sempre intrigou os pesquisadores. “Esse estudo é muito interessante porque esclarece mistérios que sempre rondaram esse tema.”

Fornazieri, da USP, também vê possíveis ganhos para a medicina com o trabalho, mas, para isso, será preciso dar continuidade aos experimentos. “Esse número de 1 trilhão de odores pode tanto aumentar quanto diminuir (com mais estudos). Mas acredito que, ainda assim, essas conclusões trazem informações novas que ainda não haviam sido exploradas em trabalhos científicos tão detalhados”, completa.

Como próximo passo da pesquisa, Andreas Keller e colegas pretendem encontrar fragrâncias que não sejam reconhecidas pelo olfato humano. “Depois de mostrarmos que as pessoas podem discriminar muitas misturas diferentes, estamos tentando encontrar fórmulas que não podem ser identificadas e, aí, descobrir por que algumas combinações podem ser discriminadas e outras não”, adianta.

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