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CIÊNCIA

Sem medo de comida estragada

Marcador colado na parte de fora das embalagens avisa, por meio da mudança de cores, se um alimento continua próprio para consumo

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postado em 24/03/2014 16:00 / atualizado em 24/03/2014 11:21

Quem nunca teve a surpresa desagradável de tirar uma embalagem da geladeira, abri-la e, só depois de experimentar a comida guardada ali, descobrir que ela estava estragada? Esse incômodo é recorrente em muitas casas e, às vezes, acontece até mesmo quando a data de validade do produto ainda não venceu. Para acabar com esse problema, cientistas chineses desenvolveram uma etiqueta inteligente que, por meio de reagentes químicos, consegue indicar pela mudança de cor se o alimento pode ser consumido ou se precisa ser jogado fora. A nova tecnologia ainda está em desenvolvimento, mas promete ser barata e ajudar a reduzir o desperdício, além de proteger a saúde humana.

Chao Zang, professor da Universidade de Pequim e um dos autores do projeto, explica que a tecnologia surgiu após estudos de algumas reações químicas feitas por ele em laboratório, compartilhada com um colega. “Um dia, em maio de 2011, eu mencionei a um amigo que me deparei com uma reação química que apresentava alterações de cor fascinantes ao longo do tempo. Esse amigo me disse que, talvez, essa reação poderia ser usada para indicar o tempo de vida de alimentos na prateleira. Dessa conversa, todo o trabalho teve início”, conta o especialista.

O sinalizador criado por Zang e colegas, apresentado este mês durante o 247º Encontro da Sociedade Americana de Química, é do tamanho de um grão de milho. O segredo está em elementos chamados nanobastões, feitos de prata e ouro, que compõem a etiqueta com outros reagentes, como vitamina C, ácido láctico e ácido acético. Os nanobastões possuem uma cor vermelha inicial que sofre mudanças à medida que os reagentes são afetados com as mudanças do ambiente — temperatura, presença de micro-organismos etc.

Mas qual é a relação da etiqueta com o que há no interior da embalagem? Na verdade, os dois não interagem. Os cientistas estudam o processo de deterioração do produto e fabricam a etiqueta para mudar conforme acontece com o alimento. Eles fizeram os testes com o leite. Ao ser submetido a condições que estragam o líquido, como calor excessivo ou ações de bactérias, o marcador de nanobastões sofre alterações de cores — do vermelho, passam ao laranja, ao amarelo e até o verde. Os experimentos mostraram que a equipe foi capaz de sincronizar com exatidão as mudanças de tom com a deterioração do produto. “A marca deve ser anexada à caixa de leite ainda na fábrica. Em seguida, ela vai com o produto ao supermercado e para a sua casa. Sempre que você estiver em dúvida sobre o frescor do leite, basta olhar a cor da etiqueta. Enquanto ela ainda não for verde, o leite estará bom para beber”, explica Zang.

Saúde
O pesquisador acredita que a grande vantagem do invento é fornecer uma avaliação constante do alimento, em qualquer ambiente, levando em conta os fatores que não podem ser controlados, como o calor. “Ao longo da cadeia de fornecimento de fábrica para a mesa, existe, quase inevitavelmente, algumas variações de temperatura. Basta pensar no trajeto do leite até a prateleira do supermercado, depois para casa no porta-malas de seu carro”, destaca. “Não importa quantas mudanças de temperatura ocorram durante a cadeia, a marca está sempre em sintonia com a comida. Sempre que a comida vai mal, a marca fica verde”, complementa.

Para Júnia Capua, engenheira de alimentos e professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS-RS), a etiqueta inteligente inova por usar as cores como indicadores, o que pode ser facilmente interpretado por qualquer pessoa. Capua, que não participou do estudo, acredita que o sistema de alerta é um bom aliado da saúde. “Pesquisas semelhantes são realizadas há anos e são de extrema importância para a sociedade. Mudanças de temperatura de armazenamento e a presença de compostos químicos ou micro-organismos patogênicos podem nos causar danos, como uma intoxicação ou infecção alimentar”, detalha.

Aldemir Mangabeira, nutricionista do Conselho Regional de Nutrição (CRN) e professor de gastronomia do Centro Universitário Iesb de Brasília, também acredita que a nova tecnologia pode trazer grandes benefícios para a alimentação humana. “Muitos alimentos possuem um prazo de validade que, para ser mantido, precisa de a comida estar congelada. Temos, nesse caso, a influência da temperatura, que a etiqueta poderia acompanhar com mais eficácia do que a previsão marcada na embalagem”, avalia. Segundo o nutricionista, a etiqueta pode ajudar a diminuir o desperdício. “Com um alarme que mostre quando devemos comer um alimento, sem riscos para saúde, evitaremos que uma grande quantidade de comida seja jogada fora.”

A etiqueta inteligente ainda precisa de mais testes, mas os cientistas têm certeza de que ela pode ser usada em escala industrial, já que os produtos usados para sua fabricação são extremamente baratos, além de não serem tóxicos — alguns dos reagentes usados são até comestíveis. “O custo da etiqueta é calculado para ser muito baixo. Todos os produtos químicos envolvidos não custam mais de US$ 0,002”, destaca Zang. “O mais interessante do estudo é a confecção de uma etiqueta de baixo custo confeccionada com um gel atóxico. Infelizmente, muitas pesquisas são realizadas esquecendo esses dois detalhes”, elogia Capua.

O pesquisador chinês adianta que os próximos passos vão ser focados na industrialização da etiqueta. “Achamos que, na fase atual, a validade científica foi confirmada. Mas, para sua aplicação, ainda há alguns pontos a serem abordados. Por exemplo, a forma de produzir essas marcas em grande escala, reduzindo, por exemplo, o consumo de material/energia”, adianta o autor. Ele diz, ainda, que o sinalizador pode facilmente ser adaptados a mais produtos, incluindo medicamentos. “Nós estamos ansiosos para colaborar com as pessoas no mundo da indústria e para testar a eficácia das marcas inteligentes”, complementa.

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