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Correio Braziliense

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Á SOMBRA DOS QUEPES

Cartas do exílio

Correspondências inéditas de JK A amigos no brasil em 1964 mostra um homem sem alegria e deprimido,mas com esperanças de que logo o país se libertaria

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postado em 24/03/2014 16:36 / atualizado em 27/03/2014 16:11

Cassado.Traído. Achincalhado por adversários políticos. Abandonado poralguns ex-aliados, Juscelino Kubitschek partiu para o exílio
na Europa em 13 de junho de 1964. Foram abertas as páginas mais cruéis da biografia de um dos maiores estadistas deste país.
Estava banido da vida política.Começava ali um período em que as cartas aos familiares, amigos e correligionários se tornaram o único e possível meio de comunicação.Perseguido e vigiado mesmo no exterior, centenas de envelopeslacradoscruzaramo Atlântico,sempre confiados a portadores.
Entre tantas linhas, saltaum homem triste, deprimido,“que à noite busca as estrelas do céu da pátria”, e durante o dia,“busca nas multidões o sorriso acolhedor com que se habituara no meio de seus patrícios”.Nas longas descrições de sua rotina de exilado,há também um homem crente que,“no dizer dos astrólogos”, 1964 seria a sua“casa do inferno”. A virada de 1965 era esperada como o ano da libertação do jugo militar,que,naquele momento, acreditava, seria temporário.
“Este Brasil pode aceitar um freio momentâneo. Mas acabará por se libertar. E voltará então a alegria.As campanhas políticas não serão um brado de desespero,masterão,como aquelas que chefiei, a sonoridade das canções folclóricas que instilavam no povo vontade de viver e de trabalhar”, escreveu JK em 27 de outubro de 1964 ao amigo médico Joaquim Mendes de Souza,ex-deputado federal pelo PTB.Nesta reportagem da série sobre os 50 anos do golpe, o Correio
mostra o teor das cartas ao casal Bertha e Joaquim Mendes de Souza, nunca publicadas, entre outras aos familiares e aliados que o ex-presidente enviou para o Brasil nos primeiros meses de seu exílio.

NOITES TRISTES

Paris, 27 de outubro de 1964,outono mais frio dos últimos 50 anos.“Vim para o meu escritório tiritando (...) estamos simplesmente começando a estação do gelo.
Atémaionãoseverácéu,não teremos uma estrela para iluminar noites tristes e já às 10 horas da manhã começamos a trabalhar com todas as luzes acesas”.Acapital da França,
onde JK viveu na juventude para a especialização médica, se tornara, aos olhos do ex-presidente da República, uma cidade triste.E o francês, no contexto daqueles anos que
antecederam a eclosão dos movimentos de 1968, mais irritadiço e intolerante.“Descobri, agora, uma coisa:Paris é uma cidade bonita,mas muito triste.Todos os restaurantes,
hotéis, casas de diversão completamente cheios. Mas repletos
de um povo insatisfeito e irritado”,anotou.“O francês, acossado pela terrível luta pela subsistência,transformou-se num ser raivento”,considerou.“Oque faz uma cidade agradável
não é a beleza de suas coisas mortas. É a graça de suas coisas vivas.”Com a ditadura no Brasil, descerrava-se uma era de tristeza e medo, considerou JK ao casal de amigos.
“A violência, instituída em forma de governo pelos mandantes atuais do Brasil,fez descer sobre a nação um manto de desesperança e de medo(...)Deus que ajude o
Brasil a se livrar de semelhante método.”Triste, lembrando-se de sua terra,notrópico,“gerador de calor”,onde o frio não é inimigo e o povo“vive solto e livre” nos sertões, nas
planícies e nos vales, JK, no entanto, ainda alimenta esperança de dias melhores:“Creio muito na força do povo brasileiro. Nasceu livre demais. As extensões imensas que o abrigam
impõem o sentimento deliberdade”.Ele escrevia denominando de“freio momentâneo” os primeiros meses do governo Castelo Branco que se seguiram à deposição de João Goulart.

ELEIÇÕES

Derrotado nas urnas em 3 de outubro de 1965, principalmente em Minas Gerais e na Guanabara,o governo militar editou o Ato Institucional n° 02, em 27 de outubro de 1965, que acabou com as eleições
diretas para presidente da República. O sonho da campanha JK 65 jamais se concretizaria. O político mineiro ficou em Paris até fecharem-se as urnas das eleições ao governo de 11 estados.
Desembarcou no Brasil em 4 de outubro de 1965. Foi um curto retorno, por pouco mais de um mês.Submetido a humilhantes inquéritos policiais militares (IPMs),JK voltou a deixar o país, desta vez
para NovaYork.“Estava sendo vigiado pelo governo Charles de Gaulle”,conta Carlos Murilo Felício dos Santos, seu primo, amigo e ex-deputado federal pelo PSD.“Sódepois entendemos por que meu pai
preferiu se instalar em NovaYork”,revela Maria Estela Kubitschek.Em 1966, de NovaYork, Juscelino foi para Lisboa.“Os gregos, quando inventavam o exílio, sabiam o tipo de tortura que estavam criando”,
disse o ex-presidente à filha, Maria Estela. Sofrimento, dor, saudades das pessoas e do Brasil.“Nas cartas carregadas de emoção JK estava,na verdade, escrevendo capítulos de sua história”,conta a filha.(BM)
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