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Com o apoio dos EUA

Documentos retirados do sigilo revelam a disposição da Casa Branca em impedir movimento de esquerda no Brasil

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postado em 25/03/2014 14:00

Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon (D), em reunião com o presidente Kennedy: informações alarmistas sobre  
Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon (D), em reunião com o presidente Kennedy: informações alarmistas sobre "avanço vermelho"

A participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe civil-militar de 1964, incluindo o envio de uma esquadra à costa brasileira, a Operação Brother Sam, pronta para uma intervenção militar caso houvesse resistência, só começou a ser confirmada 25 anos mais tarde, com a descoberta e posterior liberação de documentos americanos classificados como secretos ou sigilosos. Denúncias foram sempre desqualificadas como coisa de inimigos do regime.

No auge da Guerra Fria, com o mundo dividido entre o Ocidente capitalista liderado pelos Estados Unidos e o bloco socialista criado pela União Soviética, o Departamento de Estado e a Casa Branca foram convencidos de que o governo Goulart levaria o Brasil para o comunismo ou para uma “república sindicalista”. E, por isso, diz o historiador Carlos Fico, “estavam decididos a impedir, por todos os meios, que uma nova Cuba surgisse em sua área de influência”.

Lyndon Johnson, que assumiu a presidência americana depois do assassinato de John F. Kennedy em 1963, declara num discurso: “As nações americanas não podem, não devem e não irão permitir o estabelecimento de outro governo comunista no Hemisfério Ocidental”. Duas figuras foram decisivas no convencimento do alto escalão americano sobre o “risco Jango”: o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e o adido militar americano, general Vernon Walters. Pelo papel que tiveram, tornaram-se personagens da própria história política brasileira.

Depois da resistência dos militares em aceitar Jango no lugar de Jânio Quadros, que havia renunciado em 1961, o presidente apoiado por setores da esquerda consegue tomar posse. Gordon tem um encontro com Kennedy, que lhe pergunta sobre Jango: “Como você acha que agiria se tivesse poderes?”. “Acho que faria algo como Perón, algo assim. Um ditador pessoal e populista”, responde o embaixador. Kennedy diz que não pode fazer nada, mas Gordon o provoca: “Acho que pode”.

Desde que os documentos americanos interditados começaram a ser liberados, historiadores e jornalistas tiveram acesso a informações relacionadas com o golpe no Brasil. Para o grande público, o acesso direto foi propiciado pela série de documentários “O Dia que Durou 21 anos”, exibida pela TV Brasil em 2010 e depois transformada em longa-metragem.

Navio usado pelos norte-americanos na costa brasileira. Ordem era empregar as tropas caso houvesse resistência governista (Reprodução/Google) 
Navio usado pelos norte-americanos na costa brasileira. Ordem era empregar as tropas caso houvesse resistência governista

As gravações, obtidas no Arquivo Nacional de Segurança, impressionam pela frieza com que as autoridades americanas, em nome da democracia, tramaram o golpe propiciador de uma ditadura que prendeu, torturou e matou. Mais recentemente, fitas encontradas na Biblioteca Kennedy também confirmaram que ele, e não apenas Lyndon Johnson, cogitou a invasão militar do Brasil.

Desde o início do governo Jango, Gordon bombardeou Washington com informações alarmistas. O embaixador escreve diretamente a Kennedy: “Goulart está fomentando perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas companhias americanas, a ITT, do setor de telecomunicações, e a Amforp, do setor elétrico, foram recentemente desapropriadas pelo governador Brizola (…) Creio ser este o momento adequado para fazer um convite oficial a Goulart. Sugiro uma visita a nossa base aérea de Offut, em Nebraska.”

Em 03 de abril de 1962, Jango foi recebido na base aérea de Washington por um Kennedy sorridente. Discutiram projetos de cooperação que pouco foram para frente. De volta ao Brasil, continuou defendendo as reformas de base — agrária, urbana, educacional, eleitoral e outras mais — e a política externa independente. “Quanto mais Jango resistia às pressões dos americanos, mais os convencia de que devia ser deposto”, diz o brasilianista James Green.

Os Estados Unidos despejaram dólares no Brasil para enfraquecer Jango politicamente, financiando propaganda de ataque e campanhas de oposicionistas. No final de 1962, uma série de ações presidenciais, como o monopólio estatal da importação de petróleo, acendeu o sinal vermelho em Washington. Mas foi o comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1963, responsável por deflagrar a reação. Gordon escreve com carimbo de “urgente” ao Departamento de Estado: “Goulart está agora definitivamente engajado numa campanha ditatorial com ataques diretos aos nossos interesses econômicos”. Em outro telegrama: “Estamos adotando medidas para fortalecer a resistência a Goulart”.

“Estamos prontos para agir”
No dia 27, Gordon avisara que o golpe estava para acontecer e que a ajuda aos conspiradores devia ser providenciada “o mais rapidamente possível”. Fez previsões sombrias: “A revolução não será resolvida rapidamente e será sangrenta”. Com a “precipitação” do general Olympio Mourão, os americanos tiveram que correr. O documentário reproduz uma conversa em que o subsecretário de Estado George Ball relata a Johnson, por telefone, as providências para o envio da esquadra à costa brasileira. “Devemos tomar todas as medidas possíveis, estarmos prontos para agir. Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso. Nós não podemos engolir este cara.”

A Operação Brother Sam teve início às 13h50 do dia 31. Um cabograma para embaixada relatou as ações em curso, que incluíam navios petroleiros partindo de Aruba, porta-aviões, quatro destroyers e cruzadores de apoio, além de 110 toneladas de munição, armas leves e gás lacrimogêneo.

Com a saída de Jango sem resistência, o desembarque da armada americana não foi necessário e no dia 3 ela recebeu ordens para retornar. Gordon e autoridades americanas sempre negaram a Operação Brother Sam, mesmo após sua revelação, em 1976, pelo jornalista Marcos Sá Correia no Jornal do Brasil, com base em documentos obtidos na Biblioteca Lyndon Johnson.

Vitorioso, Gordon escreveu a Washington no dia 2: “O Rio foi tomado por manifestações democráticas, de uma multidão que supera a época do carnaval. A eliminação de Goulart representa uma vitória para o mundo livre”. Para os brasileiros, começavam 21 anos sem liberdade, de opressão e violência.

“Devemos tomar todas as medidas possíveis, estarmos prontos para agir. Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso. Nós não podemos engolir este cara”
Subsecretário de Estado dos Estados Unidos George Ball relatando a Lyndon Johnson as providências para o envio da esquadra à costa brasileira

Coronel Malhães convocado pela CNV
Paulo Malhães, coronel reformado do Exército que assumiu ter desaparecido com o corpo do ex-deputado federal Rubens Paiva, foi convocado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) para depor hoje. O tema da audiência é a Casa da Morte, centro clandestino de cárcere e tortura, que funcionou em Petrópolis (RJ), nos anos 1970. A convocação do coronel, hoje com 76 anos, ocorreu depois que trechos do depoimento prestado por ele à Comissão Estadual da Verdade foram divulgados. Ele explicou de que forma preparava os corpos para serem jogados ao mar ou rio sem que boiassem nem chegassem ao fundo.

Há 50 anos
25 de março de 1964

“A aprovação do projeto Aniz Badra, no momento em que o governo procura desmoralizar o Congresso e apresentá-lo à opinião pública como uma entidade medieval, é um imperativo”. Com essas palavras, o deputado federal Benedito Vaz (GO) chamava a bancada do PSD a votar na proposta de reforma agrária criada pela oposição para se opor às intenções do presidente João Goulart.

Jango queria alterar a Constituição para garantir a efetividade das desapropriações de terra, o que levou oposicionistas a acusarem-no de tramar um golpe de Estado. Outro anúncio irritou muitos parlamentares: Jango concederia aumento salarial provisório a servidores públicos civis e militares, até que o Congresso votasse o tema.

Na caserna
Um dia depois de mandar prender 12 líderes da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, o almirante Sílvio Mota, ministro da Marinha, determinou a prisão de mais 40 militares. A ordem foi expedida em 25 de março de 1964, devido a uma solenidade em comemoração aos dois anos da entidade. Quando a notícia chegou ao evento, no entanto, os três mil participantes decidiram se entregar, na segunda-feira seguinte (30 de março), para que todos fossem presos.

O cabo Anselmo, presidente da associação, é uma das figuras mais controversas da ditadura. Expulso após o golpe militar, fugiu do Brasil e só retornou em 1970, quando passou a colaborar com a repressão. É acusado de ter entregue a própria esposa grávida de quatro meses a Sérgio Paranhos Fleury. Ela morreu sob tortura.

 

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