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No olho do furacão

Aliado de jango relembra os bastidores do governo deposto após o golpe

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postado em 26/03/2014 14:00

Tereza Cruvinel , Ivan Iunes

 
"Hoje, o grande desafio é construir um Estado mais democrático. Para isso, ele precisa ser eticamente exemplar"
  Em 1964, Waldir Pires, com 37 anos, era um dos homens mais importantes do governo João Goulart. Coordenava os cursos jurídicos da Universidade de Brasília (UnB), onde a nata da inteligência brasileira participava do corpo docente, quando o presidente o convidou para o cargo de consultor-geral da República, hoje correspondente ao de advogado-geral da União.

Em 1° de abril, quando Waldir chegou a Brasília, vindo do Rio de Janeiro, já com o golpe em marcha, Jango recomendou que ele e o chefe do Gabinete Civil, Darcy Ribeiro, ficassem no Palácio do Planalto garantindo a normalidade do governo e dessem ciência ao Congresso de que ele fora para ao Rio Grande do Sul com o intuito de organizar a resistência e evitar “o esbulho da vontade popular”. Juntos, redigiram o comunicado que Darcy levou ao Congresso, na sessão da madrugada de 2 de abril, em que, apesar da leitura do ofício, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, perpetrou o golpe civil, declarando vaga a Presidência da República e empossando o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.

Waldir e Darcy viveram então uma aventura cinematográfica na tentativa de se juntarem a Jango em Porto Alegre: dormiram no mato, perto da base aérea, onde embarcaram clandestinamente em um monomotor de lona, e fizeram escala em uma fazenda de Jango em Mato Grosso. Lá, souberam que Jango se exilara no Uruguai. Só lhes restava também deixar o país, o que fizeram, carregando latas de gasolina no colo e pousando numa pastagem uruguaia. Depois que ali chegaram sua mulher, Iolanda, e os cinco filhos, Waldir radicou-se na França, em exílio que duraria 15 anos.

Encerrada a ditadura, Waldir Pires foi ministro da Previdência de José Sarney e elegeu-se governador da Bahia em 1986, pelo PMDB. Deixou o cargo dois anos depois, para ser vice de Ulysses Guimarães na primeira eleição direta da fase atual, a de 1989, elegendo-se deputado federal pelo PDT em 1990. No governo Lula, foi ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), que implantou, e ministro da Defesa. Hoje, aos 87 anos, com a saúde e a memória em forma, é vereador em Salvador, de onde falou com o Correio sobre os idos de 1964.


O senhor era uma das pessoas mais próximas de Jango.  O golpe o surpreendeu ou de alguma forma era esperado?
O golpe veio se preparando, não foi algo improvisado. Na verdade, começou com o veto dos militares à posse de Jango, depois da renúncia de Jânio em 1961. Aquilo já foi um ato de intolerância e de violência dos militares, por meio dos ministros das três Forças, bem como de toda a direita brasileira, contra a ordem constitucional vigente e contra a soberania popular. Naquele tempo, votava-se separadamente para presidente e para vice-presidente. Jango integrou a chapa do general Lott, mantendo a posição que ocupou na chapa encabeçada por Juscelino em 1955. Naquela ocasião, ele teve 500 mil votos a mais que o próprio Juscelino. Cinco anos depois, teve mais de 1 milhão de votos a mais do que o candidato vitorioso para a Presidência, que foi o Jânio, apoiado pela UDN. A violência de 1961 também foi algo muito alem dos quartéis, com apoio em setores civis de direita. Por isso, sempre tivemos clareza de que o governo de Jango seria uma batalha duríssima e que poderiam tentar o golpe que não conseguiram dar em 1961.

Os últimos atos de João Goulart, especialmente o  discurso no Comício da Central, foram  determinantes para o golpe?
Não creio. Para mim, a partir do momento em que o presidente recupera os poderes presidenciais, em 1963, as coisas começam a mudar. Em 1961, por conta do veto militar, e graças à campanha da legalidade, ele toma posse aceitando o acordo de governar sob o parlamentarismo. Contrariou o próprio Brizola, que, tendo liderado a campanha da legalidade, queria a resistência sem composição. Jango portou-se com muita sabedoria e habilidade, aceitando o acordo para evitar o conflito armado, a guerra civil. Teve os poderes limitados, mas criou as condições para recuperá-los por meio do plebiscito de 1963. Ele obteve uma vitória extraordinária. Foram quase 80% dos votos a favor da volta ao presidencialismo. Apesar disso, a resistência a admiti-lo como chefe da nação também voltou com força total. A reação começou aí e ampliou-se no segundo semestre daquele ano, quando ele anunciou o programa de reformas para a transformação do país e a criação de uma sociedade mais justa. Começou, então, o clima de conspiração, reunindo todos os adversários internos — a UDN, toda a mídia, os latifundiários, boa parte do empresariado, especialmente de São Paulo — e também os Estados Unidos, que, em plena Guerra Fria, queriam controlar toda a América Latina. O golpe já estava em marcha quando acontece, por exemplo, o Comício da Central do Brasil, que foi uma grande demonstração de apoio popular ao presidente e às reformas de base.

Que informação o governo tinha sobre a movimentação do  embaixador americano Lincoln Gordon e do general Vernon  Walters, que conspiravam  com alguns generais brasileiros?
De alguma forma, Jango sabia. Mas o que fazer? Estávamos na Guerra Fria e os Estados Unidos queriam controlar a América Latina. Tanto é que depois do golpe no Brasil, conseguiram colocar uma ditadura no poder em cada país. Caíram todas as democracias, inclusive a uruguaia e a chilena, com sua forte tradição.

João Goulart governou pisando em ovos desde o início.  Uma atitude  mais conciliadora teria evitado o golpe?
Jango estava apenas retomando o projeto nacional reformista iniciado pelo presidente Getúlio Vargas depois de eleito em 1950, enfrentando a resistência da UDN. Jango deu continuidade à política nacionalista para o petróleo, estendendo o monopólio também ao refino. Essa foi uma bandeira da minha geração, que, com 15, 16 anos, já lutava para que o Brasil entrasse na Segunda Guerra contra o nazismo. Na questão energética, o país precisava se industrializar, mas não dispunha de energia hidrelétrica suficiente. Era completamente dependente de trustes estrangeiros, como a Light. No Nordeste, o domínio era da americana Bond & Share. Falou-se muito contra a corrupção, mas depois do golpe, não conseguiram fazer-lhe uma só acusação de ordem moral. Ele era filho de um proprietário de terras do Rio Grande do Seul e se tornou um homem rico com seu trabalho, tornando-se o maior invernista gaúcho e o maior fornecedor dos frigoríficos. Não tinha nada de comunista, mas queria um Brasil mais justo. Quando Getúlio se recolheu a sua fazenda, depois de ser deposto em 1945, Jango se aproximou dele e se tornou uma pessoa amiga e querida. A mesma UDN que acusou Getúlio de governar num mar de lama acusou Jango de tolerar a corrupção e de conluio com o comunismo. O moralismo udenista, como sabemos, costuma gerar grandes fortunas para seus adeptos.

Jango viajou para Porto Alegre disposto a resistir. Chegando lá,  desistiu. Teria sido porque soube do deslocamento da esquadra  americana, objeto da Operação Brother Sam?
Acho que sim. Ou melhor, eu sei que foi por isso e por algo mais grave. No exílio, ele me contou um fato que foi determinante para a não resistência. Ele mencionou uma conversa que teve com o San Thiago Dantas, que era o seu ministro das Relações Exteriores, ainda no Palácio das Laranjeiras, nas primeiras horas da movimentação militar do Mourão Filho, confessando que ela o preocupou muito e foi decisiva em sua conduta posterior. O San Thiago o informou de que a esquadra americana já se deslocava, dizendo ainda: “Presidente, tenha muito cuidado. Resista se for preciso, mas avaliando se tem forças para sufocar a sublevação, evitando a guerra civil. Pois, se ela vier, presidente, tenho informações seguras de que o Pentágono colocará seu plano em ação. Nesse caso, haverá a intervenção militar americana, e eles vão se valer da guerra civil para dividir o Brasil em dois”. Jango era muito racional, e era um patriota. Concluiu que, em defesa de seu mandato, não tinha o direito de impor tal sacrifício ao povo brasileiro.

Como o senhor avalia a fase mais longeva  de democracia que hoje vivemos?
Hoje, o grande desafio é construir um Estado mais democrático. Para isso, ele precisa ser eticamente exemplar. É fundamental que a população creia no Estado democrático e que ele seja capaz de responder às questões essenciais, garantindo a liberdade em todas as iniciativas, da economia à literatura, mas criando uma nação que acolha todos os seus filhos. Durante séculos, este foi um país de segregação, miséria, abandono, sofrimento enorme, falta de acesso à educação e à cultura, privilégios de quem tinha dinheiro e berço. Avançamos, mas falta muito. Poucos países conseguiram organizar a vida social com ênfase nos direitos da pessoa humana. Esse ideário nasceu no século 18, mas a democracia acabou absorvida pelos mecanismos econômicos, pela ganância, pelos esquemas das organizações e pelos lobbies. Hoje, com todos os avanços científicos e tecnológicos, já deveríamos ter sido capazes de criar sociedades não excludentes. E isso terá que vir pela política, não há outro caminho.

 

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