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Geração vale-tudo

Pesquisa revela que, apesar de toda a informação disponível, boa parte dos jovens brasileiros adota, cada vez mais, comportamentos de risco: bebe muito, começa a fumar cada vez mais cedo e abusa dos entorpecentes. Muitos não usam camisinha

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postado em 27/03/2014 16:00 / atualizado em 27/03/2014 10:24

Étore Medeiros , Ana Pompeu

Uma juventude conectada, com amplo acesso a informações e a preservativos: o que poderia ser o caminho para uma vida sexual segura, contraditoriamente, acabou resultando em uma geração descuidada e inconsequente. Dados divulgados ontem pela pesquisa Comportamento de Risco entre Jovens Brasileiros revelam que um em cada três pessoas de 14 a 25 anos nunca ou quase nunca usa camisinha nas relações sexuais. O estudo também confirma que, apesar de proibido, o consumo de álcool e tabaco por menores de 18 anos é comum: em média, a idade de iniciação nas drogas lícitas gira em torno de 15 anos. No caso das bebidas alcoólicas, entre os menores de idade que bebem com frequência, 43% abusam do consumo.

“Não uso, porque é melhor sem. Meus pais me dão preservativos, mas eu nem ando com eles na carteira”, admite Leonardo Alves, de 18 anos, que diz nunca ter usado uma camisinha. “Como não vivi uma situação mais tensa, não me preocupo”, admite, embora garanta que conhecia bem as parceiras sexuais. A primeira vez que a estudante Patrícia Sousa experimentou bebida alcoólica foi aos 12 anos, com os pais. Há dois anos, intensificou o consumo e, hoje, com 18, bebe três vezes por semana. “Na maioria das vezes, volto para casa com amigos que conseguem dirigir melhor. Todas as vezes, eles conseguiram controlar o carro.”

Leila Chalub, coordenadora do Observatório da Juventude da Universidade de Brasília (UnB), avalia que as gerações mais recentes tiveram um ganho importante de direitos e liberdades sexuais, mas, por outro lado, não conseguiram eliminar características tradicionais dos jovens. “(A pesquisa) me parece o retrato de uma autoconfiança muito grande, uma fantasia de onipotência. Os jovens acham que nada acontecerá com eles, não acreditam no risco de contraírem doenças, nos riscos do álcool. Além disso, têm uma necessidade de confrontamento muito grande, o que acaba fazendo com que se exponham em demasia”. Quanto às bebedeiras desenfreadas, a professora diz que, desde cedo, o ato de perder a consciência por meio do álcool “está programado”. “Não acontece por acaso, é beber para cair, para dar trabalho, para fazer uma cena. Isso faz parte da afirmação dos jovens, eles se vangloriam disso, contam com vaidade.”

Consequências

As mulheres põem em risco a própria saúde (38,4%) mais do que os homens (29,6%), o que implica em outro índice preocupante: uma em cada oito jovens de 14 a 20 anos já interromperam uma gravidez, seja de forma natural ou provocada. E é muito baixo o número de pessoas na faixa etária pesquisada (12%) que já fizeram o teste de HIV ou doaram sangue — procedimento que detecta doenças sexualmente transmissíveis (DST). “Essas jovens grávidas muitas vezes acabam se entregando a pessoas pouco escrupulosas, que induzem ao aborto, muitas vezes feito sem nenhum acompanhamento. O maior risco é para a gestante. Além da perfuração do útero, durante o procedimento, ela pode ter de abandonar todo um projeto de vida bruscamente.”

O depoimento da estudante Patrícia Sousa, de 18 anos, está afinado com a advertência da especialista. Ela viu, dentro de casa, os efeitos de uma gravidez indesejada, e se inclui na parcela responsável da juventude: “Não brinco com a sorte. Minha irmã teve filho aos 13 anos. Se eu não me cuidar, quem vai?”, argumenta.

 (Bruno Peres/CB/D.A Press) 

“Não uso, porque é melhor sem. Meus pais me dão preservativos, mas eu nem ando com eles na carteira”
Leonardo Alves, 18 anos

Drogas: do consumo ao tráfico O estudo Comportamento de risco entre Jovens brasileiros, divulgados ontem, também analisou a relação da juventude com drogas ilícitas. A mais consumida é a maconha (4,8%), seguida da cocaína (3,4%) e dos solventes (2,8%). Nesse último caso, a justificativa é simples: além de baratos, cola de sapateiro, “cheirinho da loló” e acetona são substância facilmente encontradas. De custo bem mais elevado, a cocaína gera um efeito mais perverso: 14% dos consumidores acabam virando pequenos revendedores da droga. O percentual é praticamente o dobro do de usuários que traficam maconha (7,5%).

A professora Leila Chalub, coordenadora do Observatório da Juventude da UnB, diz que a experiência de uso da cocaína é algo que os jovens costumam manter de forma mais velada. No caso da maconha, o consumo “está muito mais aberto”. “Eles não estão preocupados em esconder. Aquele que fuma maconha, facilita o acesso para os demais, vende em pequenas quantidades. Entre os jovens do ensino médio, o consumo é realmente uma coisa grande”. A professora lembra que, há alguns anos, a pergunta “alguém fuma?” se referia somente ao tabaco. “Hoje, a maconha é tão comum que a pergunta é se a pessoa fuma cigarro ou maconha.”

Apesar de lamentar o alto consumo de drogas pela juventude, a professora lembra que criminalizar e reprimir os usuários só vai afastá-los do convívio social, da escola e da chance de se reerguerem. “A gente tem de aprender a lidar com esse fenômeno das drogas nas escolas, com esse jovem que está dependente. O foco deve ser o sujeito, e não os males que ele talvez possa irradiar. Ninguém se preocupa com o usuário. Já vi um menino suspeito de portar maconha, em um colégio público. Dois professores mandaram o rapaz ficar nu e o revistaram”, relata.

“O uso precoce realmente é um dispositivo para mais problemas. Quanto mais tempo se leva para começar a usar drogas, seja álcool ou substâncias ilícitas, menos problemas a pessoa tende a ter. Quase todos problemas relacionados à maconha, por exemplo, praticamente não existem na população adulta, são apontados justamente entre os adolescentes”, explica o professor Dartiu Xavier da Silveira, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes. “Como a adolescência é uma fase de vulnerabilidade, não é recomendável o consumo. Todos falam que a maconha é a porta de entrada para outras drogas, mas, na verdade, (essa porta) é o álcool. Ele é a única substância que é um preditivo garantido de dependência futura”, ressalta. (EM)

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