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CIÊNCIA

Periferia povoada

A descoberta de um provável planeta-anão em região distante do Sol indica que os confins do Sistema Solar podem abrigar muito mais corpos do que se imaginava. A identificação ajudará a compreender melhor como a Terra se formou

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postado em 27/03/2014 18:00 / atualizado em 27/03/2014 10:26

O Sistema Solar acaba de ganhar mais um morador: o 2012 VP 133, classificado como planeta-anão por seus descobridores, foi localizado por astrônomos após uma grande varredura no espaço, que durou 10 anos. Considerado um resquício da formação de outros planetas, o novo elemento está localizado na Nuvem de Oort, região que abriga outro corpo semelhante, o Sedna. Os cientistas acreditam que, com o achado, mais objetos possam ser encontrados futuramente, o que contribui para o entendimento sobre como se formou o conjunto de estruturas que orbita o Sol, incluindo a Terra.

Desde que o Sedna foi localizado em 2003, astrônomos esperavam encontrar outros planetas-anões na Nuvem de Oort, uma área que se acredita ser o repositório dos cometas de órbita longa. “O Sedna foi reconhecido principalmente por ser incomum, já que sua órbita permanece muito longe do Sol. Quando ele foi descoberto, todos pensaram que pudesse haver mais objetos como ele lá fora”, explica Chad Trujillo, astrônomo do Observatório Gemini e um dos autores do achado, publicado na edição desta semana da revista Nature.

Desde então, Trujillo e seu companheiro de pesquisa, Scott Sheppard, seguiram com a busca nas vizinhanças do Sedna, utilizando uma câmera de energia escura (espécie de telescópio) no Chile. Após longas varreduras estelares, eles alcançaram o objetivo. “Encontramos um novo objeto e o nomeamos de 2012 VP 113. Está muito longe do Sol, a cerca de 83UA (unidades astronômicas)”, conta o cientista. Isso significa que ele está a uma distância do Sol 83 vezes maior do que a Terra, já que 1UA é o espaço médio entre o Planeta Azul e o Astro Rei. “Netuno, o planeta mais distante, está a 30UA. O 2012 VP 113 está realmente muito longe de tudo o mais no Sistema Solar, assim como Sedna”, prossegue Trujillo.

O novo objeto também foi classificado inicialmente pelos autores da descoberta como um planeta-anão. Oficialmente, reconhecidos pela União Astronômica Internacional (UAI), existem cinco desses corpos no Sistema Solar. Os dois habitantes da Nuvem de Oort seriam o sexto e o sétimo. “Para ter essa classificação, é preciso ser grande o suficiente para ser esférico. Pensamos que 2012 VP 113 tem cerca de 450km de diâmetro e provavelmente é feito de uma mistura de gelo e rocha. Se for esse o caso, então provavelmente é esférico e, em seguida, pode ser qualificado como um planeta-anão”, explica o astrônomo.

Mais buscas

Com a descoberta, os cientistas acreditam que mais novidades podem vir da região periférica do Sistema Solar. “Pensamos que pode haver muito mais coisas lá. Não sabemos exatamente quantas, mas poderiam ser dezenas ou centenas de milhares de objetos. A razão pela qual nós só vimos dois até agora é porque estão muito longe e são fracos (de luz), difíceis de enxergar”, completa. “O próximo passo é encontrar mais objetos. Esta semana, estou no Tololo Interamerican Observatory Cerro (CTIO), no Chile, com Scott Sheppard. Estamos à procura de mais objetos. Não sabemos se vamos encontrar, mas estamos esperançosos”, conta o coautor do artigo.

Segundo Rundsthen Vasques, astrônomo do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a busca por novos planetas é uma tarefa complicada, que pode levar muito tempo para render resultados. “Para encontrar objetos como planetas-anões, é necessário muito cuidado e um equipamento muito sensível. Eles são como resíduos que sobraram na formação do Universo. É como se você fizesse uma reforma e jogasse fora o restante do material, que fica ali, naquela região. O importante é vasculhar”, explica o especialista, que não participou do estudo.

Vasques também acredita que a busca dos cientistas americanos possa revelar muitos outros corpos. “Com certeza, essa busca foi incentivada pela descoberta de Sedna. Por isso, a procura na mesma região. A expectativa de existir novos objetos semelhantes sobe, pois podemos pressupor que, nesse local, existam regiões que possuem uma vibração específica a proporcionar a aglomeração desses objetos”, esclarece.

Para Adolfo Stotz, presidente do Grupo de Astronomia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a descoberta de um novo elemento contribui bastante para investigações sobre o surgimento do ambiente em que se localiza a Terra. “Essa procura pode trazer informações sobre como o Sistema Solar se originou e sobre transformações futuras, caso elas possam vir a ocorrer. Elementos como um planeta-anão são verdadeiros dinossauros do Sistema Solar”, destaca.

Revisão

A classificação tanto do Sedna quanto do 2012 VP 113 deverá ser revisada futuramente, acredita Adolfo Stotz, presidente do Grupo de Astronomia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma vez que outros elementos usados para essa denominação podem ser mudados. “Além da forma esférica, um planeta-anão precisa ter outras medidas, principalmente relacionadas à parte interna. E isso é algo que ainda precisa ser identificado. Talvez eles possam até ser incluídos em uma nova categoria de objeto, caso fujam desse padrão”, afirma.

Palavra
de especialista


Habitantes
remotos

“É emocionante que nós definitivamente saibamos que existem mais objetos como Sedna nessas órbitas distantes do Sol. Com telescópios mais bem equipados, com grandes campos de visão, acredito que vamos ser capazes de encontrar muitos mais moradores da Nuvem de Oort e começar a realmente estudar essa população de corpos gelados e remotos que até agora tinha se mantido bastante evasiva.”

Meg Schwamb,
pesquisadora do Instituto de
Astronomia e Astrofísica na
Academia Sinica, em Taiwan

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