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Correio Braziliense

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Uma ditadura silenciosa

Os brasilienses que nasceram no Plano Piloto no ano do golpe militar, em geral, tiveram por uma infância tranquila. Somente na adolescência, eles se lembram da censura. o assunto era tratado com cuidado

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postado em 27/03/2014 15:49 / atualizado em 27/03/2014 16:00

Diferentemente daqueles que moraram nas regiões periféricas, quem passou a infância e a adolescência no Plano Piloto viveu uma realidade diferente. Mesmo no centro da capital, deslocar-se de um lugar para o outro ainda demandava tempo pela distância entre algumas quadras, e a poeira era a marca característica. Apesar do regime ditatorial, a vida para muitos dos nascidos em 1964 seguiu sem transtornos ou represálias diretas.

O início da construção de Brasília trouxe muitos pioneiros, entre operários, arquitetos, engenheiros, entre outros. Paulo Janot, pai do médico Paulo Janot Júnior, 50 anos, chegou em 1958, recém-formado em engenharia civil. Só três anos depois, já estabelecido, trouxe a esposa, Wanda. 

“Ia para o colégio pela manhã. À tarde, almoçava, fazia o dever de casa e jogava futebol. Às vezes, brincava de outras coisas, como queimada, pique-esconde, pique-bandeira”, lembra Paulo. Foi apenas na adolescência que começou a ter noção do que era o regime militar. “A partir de certa fase, tínhamos receio de falar mal do governo. Meus pais nunca me deram orientação sobre como me portar na rua, mas, no dia a dia, ouvíamos falar da repressão militar por meio de amigos, que alguém tinha sumido e pessoas haviam sido presas”, relata.

O baixo número de pessoas morando na capital favoreceu para que a ditadura se instalasse com eficácia na cidade (leia Para saber mais). “Brasília tinha uma escala demográfica muito tímida. Isso favorecia, por sua vez, que a ditadura se sentisse mais à vontade. Era mais fácil conduzir um regime ditatorial a partir da capital do que no Rio de Janeiro, que já tinha uma sociedade estabelecida. Não tinha muita resistência”, explica Marcos Magalhães, pesquisador do Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília (UnB).

A ditadura em Brasília era silenciosa, conta o especialista. “A vida cotidiana era controlada. Havia muitos espiões e pessoas infiltradas que faziam relatórios para o Serviço Nacional de Informação (SNI), mas ninguém sabia quem eram”, explica Magalhães, embora ressalte que a ditadura se fazia presente em exclusão até no cotidiano das crianças. “Existiam oficiais próprios para fiscalizar se os meninos jogavam bolas em gramados recém-plantados, por exemplo”, afirma.

Quem se lembra bem dessa época é o professor Olavo Leopoldino da Silva Filho, 49 anos (nascido em 6 de agosto de 1964). Pioneiros, o pai, Olavo, engenheiro civil, e a mãe, Maria Luzia, bibliotecária da Fundação Educacional, chegaram ainda em 1960. “Eu cansei de me machucar nos jogos de futebol em que tínhamos que ficar de olho nos ‘graminhas’, que eram pagos para tomar a bola de quem jogava futebol no gramado novo”, conta Olavo, amigo de infância de Paulo Janot. “Morávamos no mesmo prédio. Crescemos juntos, jogando futebol e brincando entre os blocos da Asa Sul”, diz.

Olavo tem lembranças mais marcantes em relação à ditadura do que o amigo, embora também não tenha passado, de fato, por alguma repressão. Em 1982, ele entrou em física na UnB e se lembra de que havia um clima de censura em toda a instituição. “No meu caso, era um clima genérico, um sentimento. Jamais sofri qualquer repressão ou censura direta. Lembro, entretanto, que diversos professores foram afastados, demitidos e, alguns, perseguidos”, afirma.

“Paraíso”
Para o pesquisador Marcos Magalhães, quem viveu no Plano Piloto na década de 1970 estava no “paraíso”, pelo menos em termos de segurança. “Meninos e meninas iam sozinhos para o colégio. Havia guardas que controlavam o trânsito, pegavam as crianças pelas mãos e as auxiliavam a atravessar a rua. Pelas quadras, as pessoas ficavam embaixo dos prédios conversando. Faziam isso por horas. Era uma cidade completamente segura. Atualmente, isso é algo impensável”, avalia o especialista.

Pela pouca quantidade de pessoas na cidade, os atendimentos nos hospitais públicos eram feitos com agilidade, e o transporte público, apesar do número baixo de ônibus circulando pela cidade, era pontual. “Era difícil para o governo convencer alguém a vir morar em Brasília. Pessoas que já estavam bem instaladas não tinham ambição de morar em uma cidade que estava começando. Então, era necessário oferecer algo. Não havia serviços particulares de educação e saúde. O governo investia bastante para que as escolas e os hospitais públicos fosses de altíssima qualidade”, conta Magalhães.

Exposição no Congresso

O público que se interessar por conhecer um pouco mais da ditadura pode apreciar a exposição Onde a esperança se refugiou, que ficará aberta ao público no Salão Negro do Congresso Nacional até 13 de abril. O visitante verá detalhes e circunstâncias de regimes políticos que disseminaram abusos e violências em países do continente sul-americano, com destaque especial para o regime militar brasileiro. Organizada e dividida em cinco eixos temáticos, a mostra inclui também a exibição de filmes de conteúdo histórico e político retratando episódios dos “Anos de Chumbo”.

Para saber mais


DF tinha população de 263 mil


Em abril de 1964, o Serviço de Coleta do Distrito Federal, órgão vinculado ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), à época chamado de Conselho Nacional de Estatística, informou que, no levantamento realizado em dezembro de 1963, a população do DF era estimada em um total de 263 mil habitantes, distribuídos assim: 95 mil em Brasília/Plano Piloto, 25 mil em Brasília/Zona suburbana, 18 mil no Núcleo Bandeirante, 60 mil em Taguatinga, 16 mil em Sobradinho, 5 mil em Planaltina, 20 mil no Gama, e 24 mil na zona rural. Números muito inferiores aos atuais 2.789.761 habitantes, segundo estimativa divulgada pelo IBGE em 2013.

“(Brasília) Era uma cidade completamente segura. Atualmente, isso é algo impensável”
Marcos Magalhães, pesquisador da UnB

"A partir de certa fase, tínhamos receio de falar mal do governo. No dia a dia, ouvíamos falar da repressão militar por meio de amigos”
Paulo Janot Júnior, médico

“Jamais sofri qualquer repressão ou censura direta. Lembro, entretanto, que diversos professores foram afastados”
Olavo Leopoldino da Silva Filho, professor

A violência assusta hoje

Os amigos Paulo e Olavo confirmam que as ruas do Plano eram mais tranquilas naquela época. “A realidade é realmente outra. Nasci em hospital público e nunca tive do que me reclamar. O sistema de saúde brasileiro hoje é absurdamente incompetente. Por volta de 1994, trabalhei durante seis anos no pronto-socorro do Hospital Regional do Gama e, infelizmente, presenciei muitas coisas ruins. Por falta de leitos, dezenas de pacientes ficavam deitados no chão. Hoje, a situação continua a mesma”, relata Paulo. Oftalmologista, ele garante que 60% dos exames que faz na própria clínica não são encontrados na rede pública.

Casado e pai de um filho de 3 anos, Olavo, hoje, mora no Lago Sul e vê com pessimismo a segurança pública atual. “O cenário é péssimo. Eu me preocupo com com sequestros relâmpago porque são constantes. Vivo em meio ao medo, de entrar em casa e levar um tiro na cabeça por causa de um celular. Também tenho muito receio de um dia ver meu filho se envolvendo com drogas, em particular as mais pesadas, como o crack, que simplesmente tornam as pessoas mortas-vivas”, diz o professor.

Futuro
As mesmas considerações são endossadas por Paulo. Ele tem consciência das torturas e mortes que ocorreram durante o regime militar. Mas não deixa de apontar os problemas de hoje. “A violência está disseminada. Não digo que um governo militar mudaria isso, mas a verdade é que está pior. Não sei se meus filhos terão um futuro como o passado que tive, mas todo dia luto para não deixar faltar nada a eles, assim como fez meu pai, que me deu régua, compasso e diretrizes que me tornaram quem eu sou hoje”, diz ele, que também é morador do Lago Sul, casado e pai de três filhos.
 

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