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Egresso da UnB fala sobre uma rara profissão: a de afinador de pianos

Ex-aluno de música, Hermenegildo Bradacz não se arrepende de ter trocado o concerto pelo conserto

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postado em 28/03/2014 16:08

Agência UnB

Marcelo Jatobá/UnB Agência
A história de Hermenegildo Bradacz (pronuncia-se Brada`dgi`), um descendente de tchecos que veio para Brasília em 1975 estudar música, pode ser resumida, sem exagero, em três palavras: paixão pelo piano. E, por favor, nem venha com aquele que se liga na tomada. Quanto a isso, ele é categórico: “O piano acústico é mais bonito, tem presença e ressonância. O elétrico é como uma flor de plástico, depois de algum tempo, enjoa”.

Do som que o imponente instrumento produz a cada uma das sete mil peças que o compõem, nenhum detalhe escapa ao olhar (e aos ouvidos atentos) deste esbelto e ágil senhor de 61 anos, olhos claros, voz aguda e pausada.

“Está um pouco enferrujada”, aponta para uma das cordas que fazem parte da complexa mecânica de um piano de ¼ de cauda “caprichada” (de uns 20cm a mais que os 1,60m habituais da versão) aberto para uma sessão de fotos no auditório da escola de música da universidade. “São mais de 220 cordas e cada uma puxa um peso de cerca de 80 quilos”, explica. “Se estiver com ferrugem demais, arrebenta que voa longe”, avisa.

Minutos antes, Bradacz desencapou o instrumento com ar de quem vai avaliar uma Ferrari a ser pilotada na Fórmula 1. Primeiro, observou o lustre do verniz. “Está embaçado, mas com a pintura e o tratamento certos é possível refletir o movimento dos ponteiros nele”, e pediu o meu braço com o relógio de pulso para fazer um teste. Em seguida, abaixou-se para ver a estrutura do móvel. “Vários tipos diferentes de madeira são usados na construção do mesmo piano”, apontou para a caixa. Por fim, levantou o tampo para examinar o “motor”. Explicou o funcionamento do delicado e ao mesmo tempo potente mecanismo de martelos, cordas de aço, molas, feltros e cravelhas (peças semelhantes às tarraxas de um violão). Ao comparar o processo de manutenção do piano com o de um carro, ele rebateu: “é mais complexo”.

O INSTRUMENTO
Um piano de cauda inteira pode pesar 800 quilos e medir mais de 2,70 metros (um carro de corrida pesa 690 quilos). Pianos verticais, popularmente conhecidos como “armários”, pesam de 210 a 280 quilos e possuem diferentes tamanhos de caixa. “Meu pai fazia pianos deste tipo, mais altos e mais largos. Nunca economizava com material”, comenta Bradacz, conhecedor de mais de 200 marcas do instrumento. Somente americanos, conhece 128. Alemães, 97. “Cada marca ainda possui vários modelos”, conta. Vindos de vários lugares do mundo, Brasília é um prato cheio para o afinador. “Já me deparei com modelos de Cuba, do Canadá, Japão”, lembra.      

Aliás, entre um causo e outro, ele solta algumas dicas de manutenção que podem ser extremamente úteis para os proprietários do caro instrumento. “Não é bom pegar na corda porque o suor do corpo tem ácido úrico”, diz. “Para limpar o verniz, indico um produto que deve ser aplicado com algodão”, acrescenta. “Antes de começar a época de seca em Brasília, ensino a colocar uma vasilha com água para evitar empenas e rachaduras na madeira”, fala com a autoridade de um honoris causa. Sobre a periodicidade da afinação, ele recomenda revisões após cada concerto. Mas para pianos domésticos, uma vez por ano basta.  

Sentado em frente ao teclado, óculos dispostos ao lado, Bradacz decidiu fazer um test drive. De ouvido, executou uma das 47 partes da Sonata Fantasia, Opus 17, de Schumann. Veredicto: “está desafinado”. “Difícil manter a afinação impecável, porque requer licitação, essas coisas”, lamenta. Ao lembrar do passado, o afinador confessa ter sido um bom aluno de música, mas nunca sonhado em ser concertista. “O meu negócio sempre foi a construção e o reparo, ser um luthier de pianos”, declara-se. Sendo o afinador aquele que entende das necessidades do músico e da mecânica do instrumento, Bradacz parece corporificar um ideal. Ele, inclusive, sugere, na hora da compra, ir à loja na companhia de um afinador ao contrário do que se vê na prática. “Geralmente, o professor de piano entende do som, mas não da mecânica”, diz.

O OFÍCIO
A atividade, não muito comum no Brasil, costuma ser passada de pai para filho como nos tempos dos artesãos na Idade média. No DF, por exemplo, o experiente afinador tem conhecimento de apenas sete colegas na ativa, mas nenhum seria aprovado com louvor pelo exigente connaisseur. Isso porque não existem escolas para formar afinadores. “Aprendi o ofício com meu pai, que era um trabalhador incansável”, orgulha-se. “Trabalho sozinho há mais de trinta anos e até hoje apenas uma pessoa me procurou interessada em aprender essa arte. Ele tinha esposa e filhos e propôs que eu lhe pagasse dois salários mínimos para ensiná-la. Não tinha como”, analisa.   

Bradacz não tem filhos, o que significa que várias técnicas por ele desenvolvidas ao longo dos anos podem se perder. Segredos que ele tem o cuidado de não revelar facilmente, mas que, anos atrás, espantaram até o falecido pai, dono de uma fabriqueta de pianos na cidade de Panambi no Rio Grande do Sul. “Descobri soluções para problemas que ele passou a vida inteira tentando resolver. Quando contei, ele ficou admirado”, ri.  

Para Hermenegildo Bradacz, piano desafinado é piano doente. Alguns, devido ao estado deplorável em que se encontram, estão quase mortos, e isso não deixa nenhum pianista feliz. “O que eu faço é dar vida novamente aos instrumentos”, explica. Agora, se o estado é terminal, ele diz logo: “não faço”. Se a reforma sai mais cara que a compra de um novo: “aviso”. Honestidade neste ramo é fundamental e Bradacz, que já testemunhou casos de charlatanice, sabe disso. “Afinei um piano recentemente em que faltavam três peças”, denuncia.  

SERVIÇO
Só há pouco tempo, o afinador passou a ter cartão de visita. “Minha sobrinha fez pra mim”, conta. Interessados em contratar seus serviços podem ligar para o número (61) 8104-3223. Com algumas descrições feitas pelo telefone, Bradacz assegura ser possível dar uma prévia do orçamento.
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