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Correio Braziliense

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À SOMBRA DOS QUEPES »

Apreensão pelas ondas do rádio

MEsmo muito jovens, alguns personagens logo entenderam a gravidade do momento pelo qual o país passava. Jornalistas, professores e estudantes passaram a temer o pior assim que a notícia começou a circular

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postado em 30/03/2014 12:41

Thaís Cieglinski

 
"Fiquei muito confuso com aquelas notícias e, quando me dei conta do que se tratava, quis sair de casa para participar daquele momento, mas a minha mãe não deixou" Álvaro Lins Filho, tinha 15 anos em 31 de março de 1964


As memórias do golpe que mudou os rumos do Brasil em 1964 continuam inalteradas para quem tinha o mínimo de noção e de que a derrubada de um presidente eleito democraticamente teria graves consequências. Nem mesmo a campanha orquestrada pelos militares para colocar a população contra João Goulart e as reformas planejadas por ele foram capazes de convencer aqueles que tinham uma leitura mais apurada das consequências daquele ato. Jornalistas, professores e até mesmo estudantes passaram a temer o pior.

Com apenas 15 anos, Álvaro Lins Filho levava uma vida confortável em um apartamento da 105 Sul, uma das primeiras quadras do Plano Piloto. Com pai deputado federal, ele estava em Brasília havia três anos. Estudava no Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), na Asa Norte, onde deu os primeiros passos no movimento estudantil. O interesse pela política se deu de forma natural, já que, desde pequeno, participava das campanhas do pai.

Curioso, passou a acompanhar as notícias do país e do mundo por meio de um rádio da marca norte-americana Zenith, adquirido pela família em uma viagem ao exterior em 1956. “Aquele aparelho era o máximo do máximo. Eu sintonizava emissoras do mundo todo e, desde 1963, quando aconteceu a Revolta dos Sargentos, me interessei ainda mais pelas questões em andamento no país”, conta Álvaro, hoje com 65 anos.

O movimento, iniciado em 11 de setembro e que acabou frustrado 12 horas depois pelo Exército, foi, de alguma forma, um prenúncio do que viria cinco meses depois. “Naquele dia, pela manhã, fomos acordados por um funcionário da Câmara dos Deputados. Ele disse que o meu pai deveria seguir imediatamente para o Congresso e não deveria falar ao telefone por causa da movimentação dos militares.”

A partir dali, o clima de agitação tomou conta do país. Em 31 de março, Álvaro Lins Filho não desgrudou os ouvidos do rádio. “Ouvia as rádios de Minas Gerais e de São Paulo, que davam conta da movimentação das tropas. Fiquei muito confuso com aquelas notícias e, quando me dei conta do que se tratava, quis sair de casa para participar daquele momento, mas a minha mãe não deixou”, relata. Nos dias seguintes ao golpe, soube da tentativa de organizar uma manifestação na Rodoviária do Plano Piloto. O ato acabou frustrado, a tiros, por militares. A primeira consequência do golpe foi sentida por ele na sala de aula. “Os meus melhores professores foram demitidos sumariamente sob a acusação de serem comunistas”, conta.

Questionamento
Ao questionar uma decisão arbitrária da direção do colégio, em 1967, acabou expulso da instituição de ensino. Mas o episódio não tirou dele a postura contestadora. O engajamento político dos tempos de estudante motivaram a primeira prisão, em junho de 1968, durante uma passeata na Asa Sul. Já aluno do curso de física na Universidade de Brasília foi detido novamente em um comício relâmpago, depois de apanhar de militares.

Quando deixou a prisão, partiu para a fase mais radical de sua atuação: a clandestinidade. Participou de ações da guerrilha urbana em São Paulo e no Rio de Janeiro. Teve vários nomes. Com a prisão de colegas, decidiu adotar uma nova vida na capital carioca. Em novembro de 1972, ele começou a trabalhar como torneiro mecânico e a atuar no movimento sindical. Deixou a fábrica em 1984 e, desde então, passou a atuar na área de marketing político.

 

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