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A tensão do golpe ainda na memória

Cinquenta anos depois da derrubada do presidente João goulart, personagens relevantes da história da capital do país contam o que lembram daquela data fatídica

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postado em 30/03/2014 12:44

Thaís Cieglinski

Ex-diretor de Redação do Correio, Adirson relembra intervenção no jornal (Arquivo/CB/D.A Press) 
Ex-diretor de Redação do Correio, Adirson relembra intervenção no jornal


Prestes a completar quatro anos, Brasília ainda mantinha o espírito de província quando a democracia brasileira sofreu um abalo sem precedentes. Com pouco mais de 140 mil habitantes, a nova capital acordou chuvosa na manhã daquela terça-feira, 31 de abril de 1964. Nas páginas do Correio Braziliense, notícias sobre o clima de tensão instalado no país. De um lado, deputados e militares atacavam o presidente João Goulart, de outro, Jango falava em uma crise deflagrada “por minoria de privilegiados que vive de olhos voltados para o passado”.

Enquanto as tropas do general mineiro Olympio Mourão seguiam rumo ao Palácio das Laranjeiras, onde estava o presidente, em Brasília, o dia transcorreu tranquilo, com expediente normal na Esplanada dos Ministérios e no Congresso Nacional. Foi somente na madrugada de 1º de abril que as consequências do golpe começaram a chegar à capital. Por volta das 2h30, o fechamento do aeroporto e o bloqueio das estradas denunciavam a tensão. Para os apoiadores de Jango, a ordem era resistir. As aulas acabaram suspensas nas escolas do DF, e o transporte público funcionou gratuitamente para que as pessoas pudessem circular livremente pela cidade a fim de promover mobilizações em prol do presidente.

Sindicalistas decretaram uma greve geral, com apoio do movimento estudantil. Na Rádio Nacional, localizada na 508 Sul, eles convocaram a população a não sucumbir diante da ameaça de golpe. Armas foram distribuídas a quem desejasse lutar pela democracia. Boatos e informações desencontradas se espalharam pela cidade.

Edição extra
Às 9h da quarta-feira, a gráfica do Correio preparava uma edição extra, quando teve o trabalho interrompido por representantes da Central Geral dos Trabalhadores (CGT). Sem garantia de segurança para manter o expediente, a direção do jornal decidiu fechar o prédio. O ex-diretor de Redação Adirson Vasconcelos ainda guarda lembranças daquele dia. “Na noite de 1º de abril, o pessoal chegou aqui e fez muitas ameaças. No dia seguinte, impediram a impressão da edição”, destaca.

Com os militares no poder, a censura bateu à porta, especialmente depois do Ato Institucional nº 5. “O controle era feito por meio do Telex. Ao longo do dia, recebíamos notas sobre o que não poderia ser publicado”, detalha o vice-presidente Executivo do jornal, Evaristo de Oliveira.

Cinquenta anos depois daquele fatídico 31 de março, o golpe continua vivo na memória de personagens relevantes da história de Brasília. Alguns contaram ao Correio como receberam a notícia que colocou o Brasil nos anos de chumbo.
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