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DEPOIMENTO // JOÃO VICENTE GOULART »

Saída às pressas

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postado em 30/03/2014 12:55

“O golpe de Estado modificou não somente a vida da família do presidente João Goulart — a nossa —, mas também toda uma estrutura social e política no Brasil, que estava a caminho das reformas de base. Mas do prisma dos olhos de uma criança, as coisas eram diferentes. Eram flashes, era um dia diferente, malas que iam e voltavam.

Existiam, em certos momentos, aflições. Nós não estávamos com o meu pai, estávamos na Granja do Torto, e ele, no Rio de Janeiro. Minha mãe recebia vários telefonemas, do Darcy (Ribeiro), do (Raul) Ryff, que eram assessores diretos do presidente, dizendo que a situação estava muito grave, que nós deveríamos pegar um avião imediatamente para uma fazenda lá no Rio Grande do Sul, a Rancho Grande, em São Borja.

Pegamos um avião às pressas, saímos sem malas. A minha mãe perguntando o que iam fazer com as coisas dela, que ali ficavam. Nós demoramos cinco horas para chegar ao Rio Grande do Sul. Fomos para um lugar, que não me lembro, depois para Porto Alegre. Meu pai já estava lá, mas não conseguimos vê-lo. Como presidente da República, ele estava escutando todas as correntes políticas que ainda queriam resistir ao golpe, como o general Ladário.

Então, nós fomos novamente para o interior. Ficamos sozinhos, em uma noite interminável numa fazenda. No outro dia, ele mandou o avião dele, um Cessna, pequeno, nos pegar na fazenda do Rancho Grande, e de lá nós fomos direto para o Uruguai. Só lá vi o meu pai, em 4 de abril.

Já em Solimar, um balneário, houve um momento importante, do encontro com o meu pai. Ele gostava muito de pescar. Nas horas vagas, pegava o aviaõzinho dele e ia para a beira do Rio Araguaia, ou para o Rio Uruguai. Eu sempre andava com ele nessas pescarias e sempre perguntava para ele: ‘pai, quando é que você vai deixar de ser presidente, pra gente ficar com mais tempo?’. E ele dizia, ‘Ah, em seguida eu vou deixar de ser presidente’. Naquele dia, eu perguntei, ‘Pai, mas tu já não és mais presidente?’, e ele respondeu: ‘Não, o Congresso me deu uma licença por um tempo’.

O tempo foi longo demais… Eu não tinha a dimensão do que estava acontecendo em matéria política, de golpe de Estado. Para uma criança, o golpe é visto deste prisma. As consequências é que, depois, nós fomos crescendo, tendo uma análise mais profunda, do que era a América Latina, do que era a resistência…” (EM)
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