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Rússia quer federalizar país e anexar territórios

O chanceler Serguei Lavrov se reúne com o secretário de Estado americano, John Kerry, e exige autonomia das regiões leste e sul. Washington cobra retirada de tropas

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postado em 31/03/2014 16:00 / atualizado em 31/03/2014 10:40

Depois de sinalizar, na sexta-feira, que estava disposto a trabalhar uma solução pacífica para o conflito com a Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, propôs anexar territórios de maioria russa e federalizar a nação vizinha. Putin telefonou para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e sinalizou a disposição em buscar uma saída para o impasse na ex-república soviética. O chanceler russo, Serguei Lavrov, reuniu-se ontem, em Paris, com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, para apresentar as intenções do Kremlin. Durante o encontro, Lavrov deixou claro que não existe outra alternativa a não ser federalizar a Ucrânia e dar aos estados o poder de decidirem sobre sua economia, impostos, língua e política externa.

O alvo da estratégia russa são os territórios habitados por maioria russa no leste e no sul da Ucrânia, especialmente a Transnistria, na Moldávia, região tradicionalmente separatista. “Francamente, nós não enxergamos nenhuma solução para um desenvolvimento estável da Ucrânia a não ser a federalização”, disse Lavrov. “Dada a quantidade de nativos russos, essa é nossa proposta e não há outro caminho.” A medida exigiria uma reforma da Constituição ucraniana — segundo a qual, o país tem uma administração centralizada e não no formato de federação. A Ucrânia encara a ideia como uma intervenção capaz de desmantelar o país e uma tentativa de Moscou de enfraquecer o poder de Kiev.

Uma das exigências norte-americanas é a de que os russos retirem o efetivo de 50 mil soldados posicionados na fronteira entre a Crimeia e a Ucrânia e respeitem a integridade territorial do país vizinho. Lavrov garantiu que a Rússia não tem a intenção de atacar e que a movimentação consiste em exercícios de rotina. No entanto, monitoramentos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e do Pentágono revelaram movimento anormal das tropas, o que poderia ser o ensaio de uma invasão. Entre as reivindicações dos EUA, estão o pedido para que os russos apoiem as eleições ucranianas, marcadas para maio, e aceitem a presença de observadores internacionais, a fim de garantir que os direitos das minorias sejam respeitados na Crimeia, anexada à Federação dos Estados Russos no mês passado.

Proteção
Lavrov reafirmou que a Rússia está determinada a proteger os direitos dos russos do leste e do sul da Ucrânia. Em Paris, o ministro russo comentou as sanções impostas pelos Estados Unidos no mês passado. “Não quero dizer que as sanções sejam ridículas e que não damos a mínima, isso não é agradável… Não estamos satisfeitos, mas não há sensação de dor. Já vivemos tempos piores”, garantiu. Lavrov sinalizou a disposição de Moscou de conversar com o governo interino da Ucrânia, embora o Kremlin não reconheça a atual liderança do país. Para os russos, a revolta que depôs o presidente eleito Viktor Yanukovich, em fevereiro, foi um golpe fascista.

A corrida presidencial em Kiev teve início na semana passada, com o movimento de idas e vindas de candidatos. No sábado, o boxeador Vitali Klitschko, líder da oposição que participou da luta para derrubar Yanukovich, desistiu da candidatura para apoiar a candidata Yulia Timoshenko. A corrida presidencial tem agora apenas dois candidatos. Concorre, além de Timoshenko, o empresário Petro Poroshenko, conhecido como o “rei do chocolate”.

Análise da notícia

Diferenças evidenciadas

Rodrigo Craveiro

A demanda da Rússia pela “federalização da Ucrânia”, com uma autonomia maior do sul e do leste do país, equivaleria a semear o terreno para o separatismo ou novas anexações por Moscou, a longo prazo. As duas regiões abrigam populações cuja maioria é formada pela etnia russa.

Enquanto o Kremlin insiste na necessidade de salvaguardar os direitos desses povos de supostos “neofascistas” que assumiram o poder em Kiev, o Ocidente vislumbra uma perigosa expansão da influência de Putin na geopolítica da região. A julgar pelo frio encontro do chanceler Serguei Lavrov e o secretário de Estado John Kerry, o fosso ideológico entre a Rússia e os Estados Unidos está longe de ser fechado.
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