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Correio Braziliense

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TECNOLOGIA

Arqueologia high-tech

Modernas técnicas permitem que cientistas descubram antigas construções sob a terra sem precisar remover o solo. Radares e sensores fornecem dados suficientes para que edifícios milenares sejam recriados em detalhes no computador

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postado em 31/03/2014 16:00 / atualizado em 31/03/2014 10:42

Uma das projeções da antiga escola de gladiadores descoberta na Áustria com a ajuda das novas tecnologias: reconstituição detalhada 
Uma das projeções da antiga escola de gladiadores descoberta na Áustria com a ajuda das novas tecnologias: reconstituição detalhada


Nem o arqueólogo da ficção Indiana Jones, que contava com os efeitos especiais de Hollywood a seu favor, imaginou que um dia seria possível descobrir valiosas antiguidades sem remover sequer uma pá de terra. Mas é isso mesmo que os exploradores de carne e osso do presente já conseguem fazer. Munidos de radares, sensores especiais e escâneres, cientistas revelam a posição, o formato e o tamanho de estruturas soterradas pelo tempo sem precisar chegar fisicamente até elas. Além de facilitar os estudos, a tecnologia evita escavações desnecessárias, o que também representa um ganho ambiental.

O exemplo mais significativo desse tipo de trabalho é o desenvolvido por uma equipe de arqueólogos, geofísicos e especialistas em informática do Instituto Ludwig Boltzmann de Prospecção Arqueológica e Arqueologia Virtual (LBI-ArchPro), na Áustria. Comprovando a utilidade do método não invasivo — que usa técnicas como espectroscopia de imagens, indução eletromagnética e radar de penetração no solo (veja arte) —, a equipe já conseguiu identificar e até mesmo montar detalhados moldes em três dimensões de construções antigas escondidas sob o solo.

Essa equipe é responsável pela descoberta de uma escola de gladiadores (ludus, em latim) que permanecia soterrada no sítio arqueológico Roman Carnuntum, um dos complexos originais do Império Romano mais bem preservados da Europa, localizado a 20km de Viena (Áustria). Os cientistas suspeitavam de que havia alguma edificação soterrada ao lado de um anfiteatro construído na primeira metade do século 2 e que já havia sido revelado por escavações feitas entre 1923 e 1930. Os indícios da escola apareceram primeiro em imagens aéreas, que revelaram alterações no solo semelhantes às formadas por antigas ruínas ainda escondidas.

Foi, então, que entrou em ação o uso das novas tecnologias. Movendo modernos sensores sobre o solo, puxados por tratores, os cientistas começaram a receber informações que mostravam realmente existir uma construção ali embaixo. Os dados colhidos pelos radares foram tão detalhados que permitiram a reconstituição da escola em um modelo computacional em três dimensões.

O estudo foi realizado em 2011, e os resultados completos, divulgados oficialmente no início deste ano na revista especializada Archaeology. A construção foi erguida dentro de um conjunto de outras estruturas que abrange uma área de 2.800m². Os edifícios estavam organizados em torno de um pátio interno central. O radar de penetração do solo mostrou uma arena de treinamento circular, com aproximadamente 19m de diâmetro delimitada por uma arquibancada de madeira usada para acomodar os espectadores durante os shows. Também foram encontradas estruturas de uma sala de 100m² de treinamento, um complexo de banho e um “escritório administrativo” de 300m², de onde o responsável pela escola podia monitorar seus alunos.

Esses, por sua vez, não tinham muito conforto. Tudo indica que dormiam em pequenos quartos ou celas, com pouco mais 5m² . Os autores contam na pesquisa que as imagens do edifício foram tão claras que eles puderam ver tubulações de água, esgotos e restos do sistema de aquecimento de piso. Detalharam também, no artigo científico, as vias de acesso ao anfiteatro, as entradas e as fundações de mausoléus. Eles acreditam ter localizado ainda um cemitério que fica imediatamente atrás de um edifício cercado por grandes monumentos, sarcófagos de pedra e sepulturas simples.

Complementar
Segundo Jandira Neto, gerente dos programas de Arqueologia e Educação Patrimonial do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), a indução eletromagnética e o radar para penetração no solo — as duas principais ferramentas usadas no sítio austríaco — são bastante úteis para pesquisar sítios históricos em que os arqueólogos têm uma imagem antecipada do que se procura, como os alicerces de uma antiga igreja, por exemplo.

Essas técnicas, no entanto, são ineficientes para investigar pequenos objetos, como machadinhas indígenas, cacos de louça e moedas. Em outras palavras, apesar de úteis, os novos equipamentos não eliminarão a necessidade de escavações. “Já confundimos uma urna funerária com uma ‘casa’ de formiga, pois a imagem era absolutamente idêntica (ao artefato)”, conta a arqueóloga, que não participou do estudo europeu. “Lamento dizer, mas isso significa que os arqueólogos precisam continuar furando o chão. Usando o método arqueológico de modo correto, não há risco de danificar qualquer descoberta”, frisa.

Por isso, Jandira Neto aposta que todas as técnicas, novas e antigas, serão usadas simultaneamente, de acordo com a necessidade do estudo. “Arqueologia não é só furar o chão. Vamos somar (outros métodos) sempre. Porém, a ‘bola de cristal’ não faz parte das ferramentas do arqueólogo. Sem o material exumado e as devidas análises laboratoriais na mão, não se revela a cultura por trás dos cacos”, conclui.

Não há dúvidas, porém, de que a tecnologia pode trazer ganhos para a arte de reconstituir a história. O time do LBI-ArchPro encomendou um aplicativo de realidade aumentada que permitirá aos visitantes do sítio de Roman Carnuntum ver como a escola de gladiadores se inseria na paisagem. Quando o sistema estiver pronto, os turistas poderão baixar o app em celulares e tablets. Depois, bastará apontar o equipamento para o terreno e ver um modelo da edificação inserida na paisagem atual.

Planta da obra feita a partir dos dados colhidos com os equipamentos de análise 
Planta da obra feita a partir dos dados colhidos com os equipamentos de análise


Origem militar
Com o nome oficial de Colonia Septimia Aurelia Antoniniana Karnuntum, Carnuntum foi capital da província romana de Panônia. Era uma importante cidade administrativa que fazia fronteira com as tribos germânicas não conquistadas durante os primeiros quatro séculos da era cristã. Em seu auge, a localidade cobriu uma área de aproximadamente 10km². Até agora, apenas cerca de 0,5% da área foi escavada. O centro de Carnuntum começou como um acampamento militar erguido em meados do século 1 pelo imperador Adriano. Um pequeno aglomerado civil, o chamado legionis canabae (cidade legionária), cresceu ao redor. Foram fotografias aéreas sistemáticas, examinadas por arqueólogos, que revelaram os sinais de uma passada vida urbana no local.



Palavra de especialista

Pesquisas beneficiadas
“É comum esperarmos que o uso do 3D se restrinja ao entretenimento, aos filmes. Mas muitas áreas do conhecimento utilizam essa tecnologia, e a arqueologia tem se beneficiado muito dela. Os pesquisadores podem reconstruir um artefato inteiro a partir de alguns pedaços. Por exemplo, uma construção antiga danificada pelo tempo e semidestruída pode ser reformada em versão tridimensional e informar os pesquisadores como ela era originalmente. Atualmente, isso é feito com nível de precisão absurdo.”

Alberto Raposo, professor de informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
 
 
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