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O último vestígio oficial de Honestino

Passados 40 anos do enigmático desaparecimento do líder estudantil da UnB, documento inédito obtido pelo correio comprova a prisão por militares. O que aconteceu depois, no entanto, ainda está longe de vir à tona

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postado em 31/03/2014 16:00 / atualizado em 31/03/2014 11:18

Étore Medeiros

Honestino Guimarães, na década de 1960: tortura só foi incluída no atestado de óbito em 2012 (Reprodução: Correio Braziliense   ) 
Honestino Guimarães, na década de 1960: tortura só foi incluída no atestado de óbito em 2012

“Preso em 10 Out 73 no Rio de Janeiro.” O curto enunciado, recém-descoberto, é a mais preciosa pista encontrada desde o desaparecimento de Honestino Guimarães, há 40 anos. É a primeira citação oficial achada sobre a prisão do líder estudantil, em que se confirma também a data do “sequestro”, como define a família. Desde então, ele nunca mais foi visto. O Correio teve acesso ao documento secreto de 71 páginas, de 1978, no qual está a citação. Encontrada pela Comissão da Verdade de Pernambuco (CV-PE), a papelada foi posteriormente analisada pela congênere carioca — que achou o trecho da prisão do líder estudantil. Apesar da importância da descoberta, que pode fornecer pistas para os próximos esforços de pesquisa, o caso Honestino segue como um dos mais enigmáticos crimes da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985).

A citação a Honestino Monteiro Guimarães faz parte da resposta do Serviço Nacional de Informações (SNI) a uma série de dados solicitados pelo Ministério da Aeronáutica, em 1978. O pedido de buscas do Quartel General do Comando Costeiro da Aeronáutica desejava saber o paradeiro de dezenas de opositores da ditadura. Entre eles, também estava Fernando Santa Cruz, cujo sumiço é investigado pela CV-PE. A informação da prisão do estudante, em 22 de fevereiro de 1974, estava na mesma resposta do SNI e, assim como no caso Honestino, foi encontrada pela primeira vez, oficialmente, no mesmo documento.

Documento da Aeronáutica sobre desaparecidos admite a prisão de Honestino Guimarães em 1973 
Documento da Aeronáutica sobre desaparecidos admite a prisão de Honestino Guimarães em 1973


“Fernando Santa Cruz é pernambucano, mas desapareceu no Rio. Eles nos deram isso e, quando nós escarafunchamos, vimos lá o Honestino também”, explica o presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro (CV-RJ), Wadih Damous. No trecho em que trata do ex-presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (Feub) e da União Nacional dos Estudantes (UNE), o SNI listou para a Aeronáutica algumas informações sobre Honestino: o codinome “Alexandre”, o histórico policial, a condenação a 19 anos de cárcere com base no AI-2 e, mais importante, a data da prisão do goiano de Itaberaí.

“Isso é importante, porque temos testemunhos isolados, mas nada do Estado brasileiro sobre o Honestino. Qualquer documento nos ajudará na busca pela história dele. É um começo, é algo a ser comemorado”, ressalta o presidente da Comissão da Verdade da Universidade de Brasília, Cristiano Paixão, que considera o caso Honestino emblemático. “Ele é fruto de uma ideia de educação, de universidade; era um aluno brilhante, líder estudantil, formado no sistema público, uma das melhores formas de mostrar o que um projeto emancipatório de ensino pode trazer ao país.” Paixão acredita que novas informações possam surgir a partir “do contexto em que se produziu e por onde o documento passou”.

Damous é um tanto cético quanto à descoberta. “É um dos casos mais misteriosos e, infelizmente, não avançamos além desse documento. Ainda estamos no indício, não temos condições de dizer efetivamente que isso (prisão) aconteceu.” O presidente da CV-RJ confessa que “dificilmente, e estou sendo muito franco, vamos saber, pelos nossos próprios esforços, a verdade”. Para que a história venha à tona, acredita Damous, o Estado brasileiro deve “vir a público e dizer o que de fato aconteceu em relação a todos os desaparecidos. O Estado se mantém insensível em relação a isso, e não falo do Estado ditatorial, mas do democrático”.

“Isso é importante, porque temos testemunhos isolados, mas nada do Estado brasileiro sobre o Honestino. Qualquer documento nos ajudará na busca pela história dele. um começo, é algo a ser comemorado”
Cristiano Paixão, presidente da Comissão da Verdade da Universidade de Brasília

Apelo da família

 

A versão da família sempre foi a de que Honestino foi sequestrado e levado ao Centro de Informações da Marinha (Cenimar), no dia 10 de outubro de 1973. A descoberta da primeira referência documental à prisão do ex-presidente da UNE é vista com bons olhos pelo sobrinho, Mateus Guimarães, que, no entanto, não se empolga com o avanço. Oferecendo perdão, parentes do maior líder estudantil da Universidade de Brasília (UnB) apelam publicamente aos agentes da ditadura que podem ter implicações com a morte: “nos procurem”.

“Esse documento, infelizmente, confirma o que a gente já sabia: a data é a mesma; sabíamos que quem efetuou a prisão, o sequestro dele, foi o Estado; e a gente sabe até um pouco mais: a informação que temos é de que foi o Cenimar”, conta Mateus. O servidor público de 28 anos diz que o maior interesse da família é saber o que ocorreu após o desaparecimento: “A forma que ele resistiu à tortura, saber que palavras ele pronunciou aos torturadores... É o que realmente nos interessa”.

Lançada em 2013, na ocasião dos 40 anos de desaparecimento do ex-presidente da UNE, a iniciativa on-line Trilhas de Honestino tenta refazer de forma colaborativa a história do estudante de Geologia goiano. “No âmbito desta campanha, há uma questão particular, que envolve uma dimensão espiritual: a gente se dispôs a conceder um perdão da família — o que não significa que compactuemos com o perdão do Estado, fique claro — às pessoas que tiveram envolvimento com o sequestro e o desaparecimento, contanto que elas nos procurem e digam o que têm de informações”.

O apelo, classificado por Mateus como um passo de coragem e desespero, mostra uma ponta de desilusão do jovem com o trabalho das comissões da verdade. “Acho muito difícil que a gente consiga alguma informação relevante no âmbito documental. Falta engajamento do Estado brasileiro, além das comissões.”

Memória
A história de um estudante

Honestino Monteiro Guimarães nasceu em Itaberaí (GO), em 28 de março de 1947. Mudou-se com a família para Brasília, em 1960, e passou em primeiro lugar geral no vestibular da UnB, onde estudou Geologia. Foi eleito presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (FEUB) em 1967 e da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1971, quando a entidade estava na clandestinidade.

Após a assinatura do AI-5, em 1968, e o aumento da repressão por parte da ditadura, Honestino, que já havia sido preso diversas vezes, decidiu viver na clandestinidade. Passou um tempo em São Paulo e, em 1971, se mudou para o Rio de Janeiro. No dia 10 de outubro de 1973, foi descoberto e preso. Segundo a família, por homens do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Oficialmente, não se sabe onde, como, por quem. Nem para onde o líder estudantil foi levado.

No Natal de 1973, após uma intensa busca, Maria Monteiro, mãe de Honestino, foi avisada de que poderia passar o Natal com o filho, no Pelotão de Investigações Criminais do Exército, em Brasília. “Houve resquícios de crueldade. Criou-se toda uma expectativa, ela levou a Ceia, mas foi levada para uma cela cheia de sangue nas paredes. A gente não pode nem dizer que ele estava mesmo em Brasília”, conta o sobrinho Mateus Guimarães.

A mãe de Honestino morreu em 2012, sem jamais ter notícias do filho. Também não pôde presenciar a concessão de anistia do Estado brasileiro à maior liderança do movimento estudantil da UnB, em 2013. No mesmo ano, foi determinada a alteração do atestado de óbito, para que ficasse explícito que ele morrera em decorrência de violência cometida pelo Estado.

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