À SOMBRA DOS QUEPES »

Poesia salva da repressão

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postado em 31/03/2014 16:00 / atualizado em 31/03/2014 11:13

Heitor Humberto de Andrade é o poeta que ganhou a forma de Brasília e carrega na biografia a peculiaridade de ser o autor do primeiro livro queimado durante o período de repressão da ditadura militar. Segundo o cineasta J. Santos, a capital assumiu os versos apocalípticos do artista. Ele foi tema do documentário Heitor: o poeta da revolução, assinado pelo diretor baiano.

Primo do cineasta Glauber Rocha, Heitor sempre esteve muito ligado à linguagem cinematográfica, o que chamou a atenção de J. Santos. “A relação que me une a Heitor é o cinema.  Conversando sobre questões da vida, ele contou a história do livro queimado. Então, resolvi fazer um filme e contar isso para o mundo.”

A comprovação veio em depoimento de Germano Machado, diretor da Imprensa Nacional da Bahia à época, que conseguiu salvar 100 exemplares do livro. “Com esse filme, fiz um tributo ao Heitor e não deixei passar em branco”, diz. O cineasta conta que procurou fazer crítica à política atual, e Heitor foi usado como instrumento para tal finalidade. “Usei o Heitor profético para criticar o que está sendo feito hoje. O Germano, sem querer, o colocou à prova. O tempo mostrou que ele não errou em nada do que diz. ”

A obra em questão, Corpos de concreto, seria lançada no dia 1º de abril de 1964. “Eles entraram na Imprensa Nacional da Bahia e queimaram o livro. Germano salvou alguns exemplares e enviou para mim, em Campinas”, conta. Os poemas de Corpos de concreto seriam incorporados, mais tarde, ao Matemática do poema 3 x 1, em 1978.

Heitor é um poeta marcado pelo imprevisto. O parentesco com o responsável por Terra em transe, no início, chama a atenção dos desconhecidos, mas o engajamento e a coragem do artista conquistam o interloculor, que, ao cumprimentá-lo, é bom que tenha tempo disponível para acompanhar as histórias por trás dos versos intuitivos e coerentes com o estilo versátil do mundo que cerca Heitor.

Imerso em linguagem poética e misteriosa, Heitor criou a sigla H2A, circundada por uma serpente que morde a própria cauda.O motivo da marca é facilmente explicado por Heitor: a alusão à fórmula da água (H2O) e às iniciais do próprio nome (HHA). Místico, o autor acredita nos mistérios do Universo. O signo dele é câncer, cujo elemento é a água. E o poeta envolve a própria obra de mistério. “O que me inspira é a vida. Minha obra está toda codificada.”

100
Número de exemplares de Corpos de Concreto salvos por Germano Machado

A marcha do Apocalipse

Jogaram os homens lá fora
Jogaram os homens na rua
Jogaram as mulheres lá fora
Jogaram as mulheres na rua

Nasceram meninos lá fora
Nasceram meninas na rua

Jogaram os detritos lá fora
Jogaram os alimentos na rua
Jogaram os farrapos lá fora
Jogaram as vestes na rua

Nasceram mendingos lá fora
Nasceram mendingos na rua
Jogaram a justiça lá fora
Jogaram o marxismo na rua
Jogaram a fome lá fora
Jogaram a luta na rua

Nasceu a miséria lá fora
Nasceu a desgraça na rua

Jogaram Jesus lá fora
Jogaram Barrabás na rua
Jogaram o amor lá fora
Jogaram o ódio na rua

Nasceu a vida lá fora
Nasceu a vida na rua
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