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Apologia ao golpe acaba em protesto na USP

professor discursa em defesa do regime militar durante aula de direito, e estudantes fazem manifestação contra o docente

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postado em 02/04/2014 16:00 / atualizado em 02/04/2014 11:56

Andre Shalders /Correio Braziliense

Alunos interrompem discurso do professor Gualazzi: ele já tinha avisado que a aula de ontem seria  
Alunos interrompem discurso do professor Gualazzi: ele já tinha avisado que a aula de ontem seria "especial"

O aniversário de 50 anos do golpe que mergulhou o país em mais de duas décadas de ditadura não foi marcado por polêmicas apenas no Congresso Nacional e nos escrachos promovidos em frente a residências de torturadores (leia mais abaixo) ontem: chegou também à Universidade de São Paulo (USP). Uma aula da Faculdade de Direito foi interrompida pelo protesto de um grupo de estudantes contra a leitura de um discurso em defesa da regime militar, do professor de direito administrativo Eduardo Gualazzi.

“Em 1964, o comunismo, o socialismo esquerdista totalitário, almejava apoderar-se totalmente do Brasil, por meio da luta armada e da subversão de todas as instituições, públicas e privadas (…). E quase conseguiu”, começou o docente, sendo interrompido em seguida pelos estudantes. Com pancadas na porta e gritos, os alunos simulavam os sons de uma sessão de tortura. Logo depois, um grupo de alunos entrou na sala com as cabeças cobertas por capuzes pretos, cantando os versos iniciais de Opinião, de Zé Keti.

Após interromperem a aula, os estudantes estenderam uma faixa sobre o quadro negro, com o lema “lembrar e resistir”. Segundo uma das organizadoras do protesto, o professor já havia anunciado, em encontros anteriores, que faria uma “aula especial” para lembrar os 50 anos da “revolução” de 1964, o que permitiu a organização do ato.

Ainda segundo os alunos, Gualazzi nunca escondeu ter opinião favorável ao golpe. “No dia em que a gente está fazendo atos de memória pela resistência à ditadura, não podemos deixar um professor falar sobre um regime que infringiu direitos humanos comprovadamente”, disse Camila Sátolo, 22 anos, aluna de Gualazzi e uma das organizadoras da manifestação. No início da noite de ontem, o vídeo com o início do discurso do professor e o protesto dos alunos já havia sido visualizado cerca de 20 mil vezes em uma rede social na internet.

Mesmo após ser interrompido, o professor chegou a distribuir entre os alunos algumas cópias do discurso, intitulado “Continência a 1964”. Os estudantes pretendem entregar cópias do documento à Comissão de Ética da USP. Imagens do texto, impresso em papel timbrado da faculdade, também circulam pela internet. A assessoria de Comunicação da Universidade não foi localizada para comentar o assunto.

Foguetório na 102 Norte
Na noite de segunda-feira, moradores da 102 Norte ouviram fogos de artifício em homenagem aos 50 anos do golpe de 1964. A quadra é conhecida por abrigar militares em apartamentos funcionais destinados às Forças Armadas, sendo a maioria deles do Exército. Por volta das 20h30, quem estava em casa pôde ouvir o barulho por cerca de cinco minutos. Alguns, no entanto, não sabiam o motivo dos explosivos. “Não sei quem financiou, mas hoje todo mundo comentou que é em relação ao 31 de março. Sei que não foi algo da quadra”, afirmou o capitão Ricardo Fé, 35 anos. Ele contou ainda que foi levantada a hipótese de que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) estaria à frente do ato. A assessoria de imprensa do parlamentar negou relação com o caso. (Ana Pompeu)

Escracho em São Paulo

Um dia depois de manifestantes protestarem no Lago Norte em frente à casa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), ativistas voltaram a realizar o que chamam de escracho. Às 6h30 de ontem, cerca de 100 pessoas, segundo os organizadores do movimento, estenderam faixas e entoaram cantos na rua em que mora o delegado Aparecido Laertes Calandra, conhecido como Capitão Ubirajara, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Ele é acusado de torturas e mortes ocorridas no DOI-Codi.

Calandra é acusado de participar de uma série de episódios polêmicos, como envolvimento na morte do jornalista Vladimir Herzog, desaparecimento do estudante Hiroaki Torigoe, tortura e morte do ex-dirigente do PCdoB Carlos Nicolau Danielli, tortura de Maria Amélia, do jornalista Sérgio Gomes, do deputado Adriano Diogo, do jornalista Arthur Scavone e do deputado federal Nilmário Miranda.

O movimento Levante Popular da Juventude, que organizou o escracho, entregou panfletos e conversou com vizinhos. Em muros, os manifestantes também picharam frases, como “Aqui mora um torturador”. Em nota, líderes da organização dizem que o escracho tem como objetivo “denunciar todos os abusos e violências sofridas pelos militantes que se recusaram a aceitar as arbitrariedades impostas pelo regime de exceção que vigorou no Brasil até 1985”.

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